Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida

Roberto Muggiati* lembra, quase 50 anos depois, que o espetáculo maior em Woodstock foi o próprio público, um exército esfarrapado de meio milhão de pessoas, como aqueles bandos remanescentes da devastação da Guerra Civil americana, ou andarilhos medievais fugindo da Peste Negra

Para ser lido ao som de Star-Spangled Banner, com Jimi Hendrix 
Ilustração: Roberto Negreiros**
Ilustração: Roberto Negreiros**

WHAAAMMMMMM––––BUUUMMMMMM––––SSHHHHHSHLAMMMM––––RAT-AT-TAT-TAT-TAT––––BUUUUMMMMMM!!!!!!!!!

São bombas e granadas explodindo, rajadas de metralhadora, línguas de fogo de napalm incendiando a floresta, em meio ao silvo dos jatos e ao ronco dos helicópteros. O Vietnã está a milhares de quilômetros de distância, mas invadiu também as colinas verdes e ondulantes de Bethel, estado de Nova York – agora terra devastada coberta de lixo – vibrando no toque demencial de Jimi Hendrix, que estraçalha com sua guitarra o hino nacional dos Estados Unidos, Star-Spangled Banner, num uivo irado, uma tempestade de som e fúria contra a guerra, ao amanhecer de segunda-feira, 18 de agosto de 1969. São as notas finais do megafestival, com “três dias de música, paz e amor”, que marcou toda uma geração e despertou o mundo para a ideia de que o “poder jovem” não era uma simples figura de retórica, mas uma realidade social gritante, em todos os cantos do planeta.

Saídos ninguém sabe de onde, 500 mil jovens se reuniram nos dias 15, 16 e 17 para o evento chamado Feira de Arte e Música de Woodstock/Uma Exposição Aquariana, cujo lema oficial era “três dias de paz e música.” A palavra “amor” foi acrescida depois, como uma reiteração do espírito pacifista reinante na grande comunidade hippie, que acreditava numa revolução social sem armas e sem sangue, calcada apenas numa mudança radical do comportamento humano.

Ironicamente, o festival começou como um empreendimento capitalista. Em plena era hippie, Joel Rosenman e John Roberts eram pré-yuppies, universitários que jogavam na Bolsa e haviam montado um estúdio de gravações em Manhattan, para desespero de suas família judaicas, que não viam com bons olhos o pendor “artístico” dos rapazes.

Em fevereiro de 1969, eles foram abordados por outra dupla, Mike Lang e Artie Kornfeld, promotores de rock uniformizados como tal: cabelões, jaquetas de couro, jeans puídos, botas de caubói e colares de contas. Queriam que John e Joel contribuíssem com seu know-how (entenda-se: grana) para construir um estúdio na área rural de Woodstock, estado de Nova Iorque, onde vários roqueiros tinham se refugiado (entre eles The Band e Bob Dylan, que mitificou o local) Joel e John só se interessaram pela ideia quando Artie sugeriu uma festa para os rapazes da imprensa, a fim de badalar o projeto.

Coisa pequena, apenas um concerto de rock para quatro ou cinco mil pessoas… Mas havia algo no ar naqueles dias e o quarteto logo passou a delirar. Vislumbrou um precedente ocorrido no verão de 1967, o ano da flower power: o modesto Festival de Monterey, previsto para acolher cinco mil pessoas, recebeu um público de 50 mil e gerou um renomado rockumentary, Monterey Pop. Nasceu assim a Feira de Woodstock, com o logotipo de uma pomba branca pousada sobre uma guitarra.

Entrou para o anedotário do rock o diálogo de John Roberts com o pai. Diz John “Mesmo que só apareçam 50 mil pessoas, a gente vai ter um retorno no dinheiro investido.” E o pai: “Vocês vão ter muita sorte se cem pessoas aparecerem…” A Woodstock Ventures, uma corporação novaiorquina devidamente cadastrada, com capital de US$ 500 mil, começou o planejamento, com a previsão de um público máximo de 100 mil pessoas: divulgação, promoção, ingressos, provisão e comercialização de alimentos, instalações sanitárias, atendimento médico. A avalanche de um público de meio milhão de pessoas subverteu toda organização possível e foi dentro de um verdadeiro caos, razoavelmente controlado, que aconteceu o maior festival de todos os tempos.

Superestrelas do rock se revezaram no gigantesco palco durante os três dias do evento: The Who, Janis Joplin, Joan Baez, Santana, os grupos Crosby, Stills, Nash & Young, Country Joe & the Fish, Grateful Dead, Jefferson Airplane, Sha Na Na e uma dezena de outros. Sobressaíram um desdentado Richie Havens, apenas voz e violão acústico, urrando um emblemático Freedom; e o inglês Joe Cocker, no vigor de seus 25 anos, com sua versão rouca de With a Little Help From My Friends (dos Beatles), tocando uma guitarra imaginária.

Mas o espetáculo maior em Woodstock foi o próprio público, um exército esfarrapado de meio milhão de pessoas, como aqueles bandos remanescentes da devastação da Guerra Civil americana, ou andarilhos medievais fugindo da Peste Negra – lançando moda com seus andrajos, criaturas fashion naturais, afirmando sua individualidade e diversidade dentro da massa coletiva. Amontoados num mar de lama, sujeitos às piores condições de conforto, alimentação e higiene, enfrentaram tudo com a maior alegria.

Nem a chuva torrencial que desabou no sábado estragou seu bom humor. Os jovens brincaram na lama, tomaram banho no lago e improvisaram até um mantra para afastar a chuva (“No rain! No rain!”).

Mais do que um simples festival de rock, Woodstock foi uma celebração de um momento em que a utopia jovem parecia, de repente, se tornar concreta e tomar conta do mundo. E mudá-lo para melhor. É o que reitera o cineasta Ang Lee ao falar de seu novo filme, Taking Woodstock: “Para mim, 1969 é uma ideia glorificada, uma imagem romântica, o último instante de inocência que conhecemos. É uma nova geração abandonando os costumes antigos e tentando encontrar um estilo de vida mais sincero, mais justo para todo mundo”.

* Roberto Muggiati é jornalista desde os anos 50, foi editor-chefe da revista Manchete por mais de duas décadas e é autor de livros como Blues: da Lama à Fama (Editora 34, 1995), New Jazz: de Volta para o Futuro (Editora 34, 1999), Rock: O Grito e o Mito (Editora Vozes, 1973). Quando não está escrevendo, pilota um sax-tenor vintage Martin Indiana circa 1925

** A ilustração desta página marca a estreia de Roberto Negreiros na AmaJazz. Um dos maiores desenhistas e artistas gráficos do país, Negreiros já emprestou  seu talento a inúmeras publicações como Playboy, Piauí. Veja e, durante anos, Jornal da Tarde. Foi no vespertino da família Mesquita que tive o privilégio de conviver com ele, conhecer seu humor exagerado e peculiar, vê-lo tocar ukulele e ainda ganhar caronas no seu original Gol amarelo-ovo. Obrigado, Negreiros, por me honrar com sua amizade e por prestigiar a AmaJazz. Seja bem-vindo.

 

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