O choro é livre

Péricles Cavalcanti* lembra o espírito inventivo e criativo de Altamiro Carrilho, músico que se destacava pelo improviso e pela ousadia

Para ser lido ao som de Flor amorosa, por Altamiro Carrilho
Ilustração: Daniel Kondo
Ilustração: Daniel Kondo

O choro instrumental tem, desde suas origens, muito a ver com o canto dos passarinhos, especialmente quando interpretado por flautas, flautins, bandolins e cavaquinhos, em solos ou conjuntos. É um canto ágil, rápido, esperto. Nas primeiras gravações do gênero, isso é notável, graças também a precariedade do registro mecânico, com seus agudos predominantes. Ouça-se, por exemplo, as gravações de 1921 dos Oito Batutas, ilustre grupo do qual faziam parte Pixinguinha e Donga. Soam como verdadeiras passarinhadas. Altamiro Carrilho, que começou sua carreira no início dos anos 40, foi um dos últimos remanescente daquela elite de chorões. Um grupo que incluía Pixinguinha, Benedito Lacerda, Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo.

Até sua morte em 2012, aos 87 anos, Altamiro esteve ativo. Foram sete décadas dedicadas à música. Em 1990, ele comemorou seu meio século de carreira com um disco de clássicos do gênero, interpretando obras como OdeonDoce de CocoAndré de Sapato NovoLamento e Pedacinhos do Céu. Concebido e arranjado por ele, e interpretado com o apoio de um pequeno e brilhante conjunto formado por Márcio Almeida (cavaquinho), Maurício Almeida (baixo), Voltaire de Sá (violão de seis e de sete cordas) e Sá Neto (pandeiro), o disco beirava a perfeição. No LP, Altamiro tocava flauta em Dó, Sol e Píccolo (grave, média e aguda). Também vale lembrar que nestas performances, Altamiro se destacava o tempo todo pela presença do improviso, da associação livre, da citação de outras músicas. Há também neste disco uma gravação bem humorada e paródica daDança das Horas, de Ponchielli, e uma versão jocosa do Hino Nacional. E ainda: Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, introduzido por uma simulação de pio de passarinho feita pelo flautim de Altamiro. Num primeiro momento parece naturalmente simples. Depois tudo vai ficando mais complexo, até cair num choro frenético.

Altamiro sempre foi um espírito livre para brincadeiras e associações. E isso era fundamental para um verdadeiro chorão. Assim é que alguns compassos de puro rock  podem embalar e renovar o Brasileirinho, de Waldir Azevedo. Para Altamiro, o choro não privilegia um único “pulso”. Passa pelo samba, pela marcha, pela valsa e pelo que mais vier. E, na verdade, a mudança de levada, com a precisão das emendas, as acelerações e reduções na velocidade do andamento, mantendo a exatidão na interpretação melódica, é um dos pontos altíssimos na música que esse mágico flautista realiza.

Altamiro, desde os anos 50, participou de centenas de discos e, como instrumentista, sempre esteve em constante evolução. Seu fôlego era impressionante, no sentido literal, para soprar as notas com força e precisão, e também no sentido figurado, o que fez dele um artista enorme e amplo.

Há um movimento rápido e preciso que vai da imitação de sons “naturais”, até a arte, e é isso que faz de Altamiro Carrilho um filho legítimo do deus Pan, o da música. Que ele esteja sempre entre nós.

* Péricles Cavalcanti é cantor e compositor, com parcerias e gravações ao lado de Caetano Veloso, Gal Costa, Augusto de Campos e, obviamente, Gilberto Gil 

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Nenhum pensamento

  1. Altamiro me iniciou ainda criança,na apreciação do instrumental, com os solos que fazia nos discos do palhaço Carequinha.

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