Fina seda musical

Ana Maria Bahiana* exalta sua admiração por Wasis Diop, cantor senegalês com voz de estanho que fala de desejo, de iluminação, da possibilidade da redenção

Para ser lido ao som de No Sant, de Wasis Diop
Foto retirada da página de Wasis Diop no Facebook (goo.gl/8WKqCk)
Foto retirada da página de Wasis Diop no Facebook (goo.gl/8WKqCk)

Meu departamento world tem uma tendência a preferir música brasileira mas alguns anos atrás achei na Virgin Megastore de Sunset Boulevard, em Los Angeles, o CD de uma fita que eu havia comprado em Paris havia quase um ano e não consegui resistir à voz de estanho do senegalês Wasis Diop. É algo para o qual eu dou espaço a qualquer momento. Descobri Wasis – compositor, arranjador, cantor – por meio da trilha de um filme, um bom filme, aliás, uma co-produção franco-senegalesa chamada Hyenes (dirigido pelo irmão de Diop, Djibril, que, por sua vez, fez uma adaptação da peça A Visita da Velha Senhora) e desde então ando como doida, pelas lojas de discos do mundo à cata de mais coisas dele.

Wasis Diop, nascido em 1950, em Dacar, é conhecido por misturar música folclórica tradicional do Senegal com pop moderno e jazz. Filho de um alto funcionário senegalês e membro da etnia Lebou, Diop deixou o Senegal nos anos 70 para estudar engenharia em Paris, mas acabou aproximando-se de outro músico senegalês, Umban Ukset, na formação da banda West African Cosmos. Em 1979, Diop deixou a banda em 1979 para iniciar uma carreira solo.

No Sant, gravado em 1996 em Paris (onde Wasis ainda vive) com uma constelação internacional de músicos, é meu disco preferido – no meu ouvido, bate como uma resposta há muito tempo esperada aos Paul Simons e Peter Gabriels da vida (e olha que eu gosto de ambos), o fino bordado acima das fronteiras, traçado do Sul para o Norte, pelo avesso da mão do império.

Não entendo patavina do que a extraordionária voz de Wasis canta – ele quase sempre grava apenas no dialeto materno, com uma única frase em francês para definir o príncipe destronado de Issa Thiaw, que se tornou “champion de lutte senegalaise” – mas sei que ele fala de desejo, de iluminação, da possibildiade da redenção.

São dez faixas cintilantes e é difícil apontar favoritas, mas a última, Le Voyageur, é de matar Peter Gabriel de inveja: camada após camada de fina seda musical, começando pela gaita de foles de Loik Tallebrest e culminando com a cantora de ópera japonesa Kaoru.

* Ana Maria Bahiana é uma das mais importantes jornalistas culturais do Brasil. Escreveu para a Rolling Stone brasileira, Opinião, O Globo, Jornal do Brasil. Folha e Estado de S. Paulo. Atualmente colabora com a Exame e é editora do site goldenglobes.com. Há 30 anos mora nos Estados Unidos

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