Que diferença faz um dia

Eduardo Osório Rodrigues* recorda como Dinah Washington, com sua voz cortante e expressiva, impregnada de emoção e calor, se diferenciava das demais cantoras

Para ser lido ao som de Dinah Washington em What a Diff’rence a Day Makes
Foto: Associated Booking Corporation/James Kriegsmann/Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: Associated Booking Corporation/James Kriegsmann/Domínio público/Wikimedia Commons

Em 19 de fevereiro de 1959, uma quinta-feira gelada, Dinah Washington entrou no Fine Recording Studios, em Nova York, sem mostrar os dentes. Pendurou o casaco de pele, espiou a partitura na estante e parou diante do microfone Neumann U-47. Calada, acenou para a orquestra e cumprimentou o coro de vozes que estava à sua direita. Só então meneou a cabeça e piscou, discretamente, para o arranjador e condutor Belford Hendrick’s. Estava pronta para gravar What a Diff’rence a Day Makes(ela canta Made em vez de Makes), sétima faixa do disco homônimo. A cena pode não ter sido exatamente assim, mas, conhecendo o temperamento, o humor e as histórias de Dinah é possível que tenha sido até pior.Musicalmente, houve outros e até melhores momentos que este, sobretudo mais jazzísticos na sua produtiva, mas irregular carreira. Para saber um pouco mais sobre esta maravilhosa cantora, proponho um trato: esqueça Ella, ignore Billie, despreze Sarah e se apaixone perdidamente por Dinah Washington, pseudônimo de Ruth Lee Jones.

Entre as raras imagens em vídeo dessa extraordinária cantora, um conjunto delas aparece no documentário The Life And Times Of Dinah Washington. A história, dividida em quatro partes, está no YouTube. Mas, antes de ver os vídeos, saiba um pouco mais sobre a menina nascida em Tuscaloosa, no Estado do Alabama (EUA), no distante 29 de agosto de 1924.

Cantora de voz cortante e expressiva, impregnada de emoção e calor, Dinah se diferenciava das demais, nas décadas de 50 e 60, por algumas características bem peculiares. O timbre metálico, a dicção clara e o fraseado com acentuações, que iam do dramático ao alegre, impressionavam público e músicos pela extensão e volume alcançados. Modulava aquele tesouro escondido na garganta como ninguém. Dinah cresceu numa família musical. Além de cantar, tocava piano. Começou a aparecer na orquestra de Lionel Hampton e depois seguiu carreira solo, misturando vida e arte.
Casava-se e descasava-se como quem trocava de casacos de pele – peça do vestuário que, aliás, colecionava. Temperamental e brigona, insultava músicos e discutia com arranjadores de dedo em riste. Era perfeccionista e brilhante. Gravou muitas bobagens, mas o resumo é altamente recomendável, especialmente os discos feitos para os selos Mercury e Roulette e para a gravadora Verve.

Na madrugada de 14 de dezembro de 1963, a rainha abdicou do trono sem passar o cetro, o manto e a coroa. Dinah morreu de overdose de pílulas em casa. Tinha apenas 39 anos, mas deixou um vasto e impressionante legado discográfico. Na verdade, quem partiu naquele sábado gelado foi Ruth Lee Jones. Dinah virou mito, lenda, verbete de enciclopédia.

Seu funeral foi digno de estrela de cinema. Ella Fitzgerald e Mahalia Jackson estavam lá. As cerimônias religiosas em Detroit, e depois em Chicago, onde o corpo foi sepultado, foram assistidas por cerca de 30 mil pessoas, que enfrentaram temperaturas abaixo de zero para se despedir de Dinah.

* Eduardo Osório Rodrigues é jornalista e autor do livro Negras Melodias – Músicas de Feiticeiras e Santos Pecadores

 

 

 

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