Um rio que carrega sons e memórias

Cynthia Flach* lembra fases da vida de seu pai, o músico Geraldo Flach, e de como ele admirava Bill Evans, Luiz Eça, Oscar Peterson, Tom Jobim…

Para ser lido ao som de Merceditas, com Geraldo Flach
Foto: Acervo Geraldo Flach
Foto: Acervo Geraldo Flach

O sobrenome explica muitas coisas. Uma delas é que, desde que me lembro, minhas noites de sono eram embaladas pela música ao longe. Entre um e outro breve despertar de criança na madrugada, tudo parecia bem se o piano estivesse sendo tocado na sala. Assim, eu me sentia segura e sabia que ele, meu pai, estava por ali. No imaginário de menina – e também para a vida – outros pianos me acompanhariam: Bill Evans, Luiz Eça, Oscar Peterson, Tom Jobim…, não por acaso os mais ouvidos e tocados pelos dedos do meu pai. Na sala de casa, a música sempre estava presente: MPB, bossa-nova, clássicos e, claro, muito jazz.

Pianista, compositor, arranjador, maestro, produtor, empresário e, ainda, engenheiro eletrônico, Geraldo Flach, em 65 anos de vida, deixou um legado que inclui onze discos – solo ou em quarteto, além de um com orquestra – e tantos outros em que participa, tocando ou produzindo. Também foram inúmeros shows, festivais, prêmios, parcerias, projetos, trilhas para dança, cinema, publicidade e propaganda, programas de televisão, campanhas institucionais e eventos. Com um estilo próprio, sua música universal carrega pitadas de regionalismo, fortes traços de MPB e bossa nova, e grandes doses de improviso jazzístico.

Pai e filha em 2009 (Foto: Acervo Geraldo Flach)
Pai e filha em 2009 (Foto: Acervo Geraldo Flach)

Em poucas linhas esse é o Geraldo Flach que quase todo mundo conhece. Do artista, para além de meu pai, eu talvez tenha a revelar um pouco mais. Sei, por exemplo, que ele nasceu em 1945 de uma gravidez de risco que levou minha avó a estudar piano. Meu pai sempre contava essa história com a certeza de que a música o acompanhava desde antes de nascer. Quando criança, o interesse musical pareceu natural. Os primeiros aprendizados foram com professores eruditos, que lhe deram a base e logo lhe permitiram que pudesse explorar outras notas, outros tons e andamentos, mais além das lições acadêmicas. Assim, o menino talentoso, quase sempre inconformado com os limites da partitura, foi transformando-se no rapaz que iria começar a se destacar em festivais e bailes universitários nos anos 60.

No início da década seguinte, casado e com duas filhas pequenas – eu e minha irmã -, meu pai teve de deixar a música em segundo plano para poder se dedicar à engenharia e ao novo emprego na CRT, a estatal de telefonia na época. Eu, menina nesse período, cresci vendo o pai chegar do trabalho solitário e quieto no fim do dia e, invariavelmente, ir direto para o piano. Era como se fosse uma terapia, como se ele estivesse em busca de si mesmo.

A década de 70 seria generosa. Surgiriam os jingles publicitários e a possibilidade de conciliar música e trabalho criativo, somados à jornada de trabalho na CRT. Ainda assim, a dupla jornada logo seria abandonada. O chamado da música seria compulsório e definitivo, exigindo tempo integral e total atenção. O sucesso dos jingles de uma grande rede de lojas de aparelhos domésticos da época levou à Plug, produtora de áudio criada em 1975 e que modificaria a vida da nossa família. Nossa casa viraria ponto de encontro de músicos, publicitários, jornalistas, produtores, artistas das mais diferentes áreas. Éramos anfitriões de jovens talentos e nomes consagrados: Ivan e Lucinha Lins (grandes amigos, desde a época dos festivais), Jerônimo Jardim, os irmãos Caymmi – Dori, Nana, Danilo -, além de uns “guris” que se aventuravam a compor, Kleiton e Kledir, Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, entre muitos outros. Nesta época, meu pai também iria assumir a direção artística do nascente estúdio Isaec, com a missão de promover artistas locais e de fora, jovens ou já consagrados. Então, nada mais natural que a sala de nossa casa se tornasse o prolongamento dos estúdios pré e pós-gravações, sendo comum até receber artistas do centro do país, como Joyce Moreno, Milton Nascimento e Elis Regina.

Além da sala, também a garagem de casa daria espaço para uma montagem, que viria a ser o show Voz do Brasil, em 1980. Meninas, eu e minha irmã descíamos toda noite após o banho, para acompanhar a função. Com cenários, figurinos, roteiro, a equipe somava 33 pessoas, sendo 11 músicos e duas cantoras. Entre outros, Fernando Do Ó, Clóvis Boca Freire no baixo e Bebeto Mohr na bateria, mais o violão do hoje diretor artístico da OSESP, Arthur Nestrovski. Esse show marcou época, totalmente fora dos padrões do que se via na época e teve duas temporadas de Teatro Renascença lotado.

O disco Alma, lançado em 1981 e apresentado ao público num show solo e denso, 100% instrumental, no Auditório Dante Barone, na Assembleia Legislativa, seria o primeiro de muitos outros levados ao palco, emblemático da grande guinada. A partir de então, Geraldo Flach construiria sua vasta obra em várias frentes. Desse disco de estreia, tenho um carinho especial por Duas Meninas, na qual, segundo meu pai, eu seria a linha do piano elétrico, minha irmã Bethania, do acústico.

Da obra de Geraldo Flach, ainda hoje tento entender a dimensão e a importância. O valor cresce na medida em que trabalhamos – familiares e profissionais, sob a batuta da produtora Ângela Flach, minha segunda mãe, casada com ele por 17 anos – na organização do acervo, mexendo em partituras, gravações, encartes, fotos, vídeos e reportagens. São inúmeros documentos que estão sendo recuperados, organizados e catalogados. E toda essa busca ainda me emociona por ver meu filho – também músico – descobrir e se deslumbrar com a obra do avô, com quem ele pouco conviveu.

Geraldo Flach foi um artista inquieto, íntegro, realizador atento e comprometido. E foi também quem melhor se definiu: “Minha música navega nas águas desse rio, que nasce aqui nas origens e viaja por afetos, personagens, histórias e canções, na busca do descobrir. Não importa se é Guaíba ou Jacuí, Uruguai, Pelotas Taquari, Jaguarão, Da Prata, Ibirapuitã ou Amazonas. Que seja um Rio Grande, levando essa música aonde ela quiser ir”.

* Cynthia Flach é jornalista e, artisticamente, dedica-se à dança em aulas regulares de balé clássico e contemporâneo, além de curso de extensão de dança somática na UFRGS. Também canta no grupo vocal Sem Contraindicação, do maestro Pablo Trindade. E é a filha mais velha de Geraldo Flach.

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