O mistério de uma voz invisível

Eduardo Osório Rodrigues* lembra Norman Mapp, cantor de jazz que inexplicavelmente nunca obteve o devido reconhecimento

Para ser lido ao som de Jazz ain’t nothing but soul, de Norman Mapp

jazz-ain-t-nothin-but-soul-bonus-tracksDescoberto por Dinah Washington em uma boate do Harlem, em Nova York, Norman Mapp gravou apenas um disco em 59 anos de vida: Jazz Ain’t Nothing But Soul, lançado em 1961 pela Epic, um selo da Columbia Records. O LP é um daqueles tesouros perdidos que ninguém imaginava existir. E, para a maioria das pessoas, jamais existiu mesmo. Norman era um cantor admirado apenas por músicos, exaltado pela comunidade jazzística, mas completamente desconhecido pelo público.

Em 2012, a reedição do LP em novo formato marcou o  renascimento do cantor. Jazz Ain’t Nothing But Soul foi lançado em CD pela Fresh Sound Records, gravadora espanhola que mantém em seu catálogo vocalistas condenados à solidão no acostamento dessa grande avenida que é o jazz.

Mas, afinal, quem era esse crooner obscuro que espantou Dinah Washington?

John Norman Mapp nasceu em 1928, no Queens, em Nova York. Começou a cantar quando servia ao Exército. Já profissional, iniciou carreira paralela de compositor e passou a se apresentar em pequenos clubes noturnos até entrar na mira de Dinah. Norman tinha uma voz bonita e afinada, grave e escura, mas de timbre menos denso que a dos barítonos Johnny Hartman e Joe Williams. E reunia duas qualidades raras: interpretações calorosas e músicas de bom gosto. Se quisesse, podia dispensar o microfone – e, mesmo assim, seria ouvido com clareza no fundo do bar.

Basta ouvi-lo, suave e sonhador, em baladas como Who Do You Think You AreDream Girl e When I’m with You, ou na balançante canção que dá título ao disco, para entender o porquê do culto a esse estilista da voz.

Em sua estreia – e despedida das gravadoras –, Norman foi acompanhado por um pequeno grupo de sumidades: Clark Terry (trompete), Seldon Powell (sax tenor e flauta), Tommy Flanagan (piano), George Duvivier e Peck Morrison (revezando-se no contrabaixo) e Dave Bailey (bateria). Das dez músicas do álbum, oito são de sua lavra. Há uma versão com três bônus tracks apenas com o quarteto de Seldon Powell.

Sua discografia resume-se a este único registro, mas a carreira musical do ex-militar que trocou a farda pelo terno e gravata, e as galhofas do batalhão por uma plateia adulta, atenta e interessada, se estendeu dos anos 50 a meados dos anos 80. Norman também fez aparições na televisão, no programa Joe Franklin Show, e foi crooner da orquestra de Count Basie em uma turnê.

Clark Terry o elogiou: “Ele era o ser humano mais caloroso que já viveu. Muito bonito, muito talentoso”. Em entrevista concedida dois anos antes de morrer ao diário New York Newsday, Mapp fez um balanço positivo da carreira, apesar da falta de convites para gravar. “Nunca me arrependi de fazer música, porque ela me trouxe uma grande experiência, além da oportunidade de poder trabalhar com pessoas como Count Basie, Dinah Washington e Sy Oliver”.

Dizem que compôs mais de 120 músicas, o que a esta altura pouco importa. Além da canção-título do disco, é autor de I Worry AboutFree Spirits,Mister UglyIn the NightKeep an Eye on Love, entre outras. Suas músicas foram gravadas por Dinah Washington, Betty Carter, Aretha Franklin, George Benson, Marvin Gaye e Arthur Prysock.

Mas nem a força dos amigos adiantou. Ignorado e esquecido pelas gravadoras, sua invisibilidade foi fatal. Ao morrer em 1988, deixou órfãos músicos e amigos, que sabiam como ele era bom, e ouvintes inteligentes, que tomaram conhecimento de sua existência, e continuam apreciando suas canções.

* Eduardo Rodrigues é jornalista e autor do livro Negras Melodias – Músicas de Feiticeiras e Santos Pecadores

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