O mais querido dos Generais

Olívio Petit* estreia na AmaJazz lembrando sua convivência ao lado do trompetista Marcio Montarroyos, músico que completaria 70 anos neste domingo

Para ser lido ao som de Carioca, de Márcio Montarroyos
Marcio Montarroyos em ação: ao lado de Nico Assumpção, Heitor TP, André Tandeta e José Lourenço durante a temporada no Mistura Fina no verão de 1985 (Foto: Acervo pessoal de Olivio Petit)
Marcio Montarroyos em ação: ao lado de Nico Assumpção, Heitor TP, André Tandeta e José Lourenço durante a temporada no Mistura Fina no verão de 1985 (Foto: Acervo pessoal de Olivio Petit)

Sonhei com Marcio Montarroyos. Estávamos naquele estúdio, meio caverna, na Rua Capuri, São Conrado, Rio de Janeiro. Ele estava fazendo uma base no teclado com a mão esquerda e solando o trompete com a direita. Eu fazia o meu melhor: silenciosa – Santa Dificuldade, Batman! – e respeitosa reverência enquanto pitava meu bauret. De vez em quando, ele me olhava sorrindo com os olhos, curtindo uma frase melódica que havia acabado de inventar. Depois soltava uma daquelas expressões únicas, iniciadas com um “queridão”, seguido por uma rajada de palavras e denunciando o sotaque carioca nas pausas inesperadas. Ele estava fazendo o que mais gostava e sabia: improvisar.

Marcio havia entrado na minha vida trazido pela sogrinha querida, Mara Neubarth, amiga da Cristina Cordeiro, bela e amada companheira do trompetista. Não fomos amigos íntimos. Não nos encontramos constantemente. Apenas algumas vezes no Mistura Fina e outras no almoço de sábado na Villa Riso. Outras tantas vezes na minha casa. Ou na dele. Lá em casa os encontros foram marcantes Aconteceram nos almoços em que comemorávamos, eu e Leilane, nosso casamento. Marcito, sempre muito generoso, comparecia com a Cristina e os cases. Ficava muito à vontade e comandava a “bandinha” que entrava noite adentro, para delírio dos convidados.

Uma vez, queríamos convidar o Leo Gandelman e resolvemos consultar o General (como muitos o chamavam) antes, pra saber se haveria algum problema. Antiguidade é posto e não tínhamos nenhum Marechal na casa. Ele foi logo dizendo: “Problema? Vocês estão loucos? É muito bom estar em boa companhia”. E soltou a tradicional risada. A “bandinha” era formada por músicos amadores, mas o “Queridão” nunca se fez de rogado. A presença do Leo, tínhamos intuído sem muito esforço, dividiria a responsa na busca do gol de placa. Assim, estava formada uma dupla de ataque fenomenal. Uma mistura de “Vai que é tua” com “Deixa que é minha”. Naquela tarde histórica, a formação ficou assim: Marcio nos teclados e trompete, Leo no sax, o jornalista Armando Nogueira na harmônica e o produtor Michael Sonkin no violão Yamaha. Todos solistas. Um outro Leo(vegildo), o “Maestro Júnior”, e o cartunista mais debochado do universo, Chico Caruso, faziam a percussão. Coisa de gente grande, feliz e misturada.

Trompete em destaque no Memorial Márcio Montarroyos no Jardim Botânico de Brasília (Foto: Acervo pessoal de Olivio Petit)
Trompete em destaque no Memorial Márcio Montarroyos no Jardim Botânico de Brasília (Foto: Acervo pessoal de Olivio Petit)

Esse craque e meu amigo nasceu num 8 de julho e nesse domingo estaria completando 70 anos. Quando criança, aos quatro anos, começou no piano, seguindo a inspiração materna, e mais tarde partiu para o trompete. Estudou na Berklee School of Music e se considerava um criador e realizador de performances musicais. Acreditava que para tocar jazz, é necessário ter vocabulário musical, o que só se consegue trazendo a própria vida para dentro do instrumento, sofrendo influências de outros músicos, experimentando todos os ritmos. A partir desta mistura nasce o tal estilo próprio, desejo maior de todos os músicos. Seu estilo, celebrado desde sempre no meio musical, tornou-se conhecido do grande público na interpretação do clássico Carinhoso, de Pixinguinha, tema da novela de mesmo nome, lançada em  1973. Em sua brilhante carreira, Montarroyos compôs trilhas para TV e cinema, gravou nove discos solo e participou de centenas de gravações ao lado de Larry Corryell. Tom Jobim, Elle Fitzgerald, Stevie Wonder, Sarah Vaughan, Egberto Gismonti, Carlos Santana e  Milton Nascimento.

Além disso, foi um grande inventor de bordões metafóricos para facilitar a comunicação com os parceiros. O maestro José Lourenço, amigo comum,  que foi tecladista do Quinteto Marcio Montarroyos por anos, lembra bem do Pôncio. “Tudo começou com um ‘esse cara é um Pôncio Pilatos, vive lavando as mãos das responsabilidades’. Conciso e direto, evoluiu para Pôncio, que usava em várias situações como, por exemplo: Essa afinação  tá Pôncio”. Tinha também o “avec elegance”, que logo virou apenas “avec”. O próprio Marcio explicou numa entrevista: “Os arranjos do Victor (Assis Brasil eram ‘avec’. Avec é sem cafonear na caneta na hora de escrever os arranjos”.

Nesta nossa curta relação, sempre me senti um admirador e ele jamais deixou transparecer que se sentia admirado. Olho no olho, o papo reto rolava solto sobre vários assuntos, com variadas companhias e muita alegria sobre a mesa. Depois daquele almoço lá de cima, nos vimos mais umas duas ou três vezes. No ano seguinte não teve almoço: eu me separei no início de 2007 e ele nos deixou tão cedo, no final do ano, no dia 12 de dezembro, aos 59 anos, com problemas nos mesmos pulmões que o ajudaram a conquistar o mundo através da música. Quem teve o prazer de conviver com Marcio Montarroyos, sendo músico ou não, tem muitas histórias para contar. Eu tenho poucas e ótimas.

E curti bastante cada uma delas.

*Olívio Petit é jornalista, ex-diretor artístico da GloboNews e documentarista. Entusiasta da AmaJazz desde os primeiros dias, ele também é o diretor do belo documentário “As Dunas do Barato

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