Um leão na floresta do jazz

Marcos Abreu* apresenta Alfred Lion, o criador da Blue Note que foi decisivo nas carreiras de Thelonious Monk, Lee Morgan, Art Blakey, Clifford Brown,  Wayne Shorter, Andrew Hill, Ornette Coleman, Eric Dolphy… 

Para ser lido ao som de Genius of Modern Music, de Thelonious Monk
Alfred Lion and Thelonious Monk, “Thelonious Monk Sextet” session, WOR Studios, New York, NY, May 30, 1952 Vol.2 (Foto: Francis Wolff/Divulgação)
Alfred Lion, à sombra de Monk, na época da gravação de Genius of Modern Music. A foto, de 1952, é de Francis Wolff.

Alfred Loew nasceu na Alemanha em 1908 e com menos de 20 anos já estava nos Estados Unidos. Como tantos imigrantes não tinha dinheiro e pouco entendia o novo idioma. Seu primeiro emprego foi carregando caminhões nas docas de Nova York e sua principal distração na época eram os shows e os discos de jazz. A vida novaiorquina não durou muito e o jovem Loew decidiu retornar à Alemanha para logo depois partir para outra aventura: pescar lagostas no litoral chileno. Ficaria por lá por três anos até decidir voltar a Nova York, em janeiro de 1936.

Aí sua vida começa a mudar. Loew se aproxima de lojas de discos como a Hot Record Society e torna-se amigo de Milt Gabler (1911-2001), um aficionado por jazz que tinha seu próprio selo, Commodore, a primeira gravadora independente de jazz. Loew também abandona o sobrenome. Passa a assinar como Alfred Lion e – em uma daquelas coincidências da vida – em dezembro de 1938, ele estaria em um concerto que seria a chave para sua entrada na indústria fonográfica. Lion havia sido convidado pelo produtor musical John H. Hammond (1910-1987) para prestigiar sua produção: From Spirituals to Swing: An Evening of American Negro Music, no Carnegie Hall, e que reunia artistas como Albert Ammons (1907-1949), Pete Johnson (1904-1967) e Meade “Lux” Lewis (1905-1964). Dias depois, Lion encontrou Ammons e Lewis e fez uma proposta para que gravassem uns discos para ele. A resposta foi: “Você vai nos pagar por isso?”. Lion respondeu que sim e ainda se dispôs a pagar os royalties dos músicos, o que era quase uma novidade.

Em 6 de janeiro de 1939, duas semanas após o concerto, Lion alugava um estúdio para gravar Ammons e Lewis. Duas músicas foram selecionadas:The Boogie Woogie Stomp e Honky Tonk Train Blues. Após uns drinques iniciais, Lion deu as cordenadas de como gostaria que as músicas fossem tocadas. Ele queria um climax no final das músicas, e permitiu que eles tocassem à vontade, sem limitações de tempo. Ao terminar ele pagou os músicos e não sobrou dinheiro para pagar o estúdio. Fez então uma combinação para pagar em alguns dias e assim pegar as “chapas”, ou matrizes. Pagamento feito, gravações escutadas e resultado aprovado. Resolveu então que aquele material deveria ser lançado. Só que ele não tinha a menor idéia de como fazer isso. Menos ainda de como seriam vendidos.

Uma das coisas que mais incomodava Lion era a duração dos discos. Cada lado tinha no máximo quatro minutos. Isso impedia grandes improvisos. Começando pelo mais fácil, pediu para que um amigo escultor, Martin Craig, criasse um rótulo para os discos, e ele criou o Blue Note. O segundo passo foi a prensagem. Como não conseguia lojas que se interessassem pelo seu produto, Lion decidiu atacar com um marketing mais forte, enviando discos e releases para os jornais. Alguns publicaram, outros não, mas com essas notas as vendas começaram lentamente a andar. Para fabricar mais discos Lion vendeu parte de seu apartamento. Foi assim que a Blue Note engrenou.

As sessões de gravação começavam sempre tarde da noite. Lion sabia que os músicos não funcionavam bem pela manhã, muito menos perto do meio dia, pois recém haviam acordado. O negócio era chegar no estúdio após as duas da manhã, tomar uns drinques e começar a gravar.

Das amizades feitas por Lion nesta época estava Sidney Bechet (1897-1959), a quem convidou para gravar Summertime. A sessão de gravação de 8 de junho de 1939, se tornou o primeiro hit de Blue Note. Ainda assim, Lion continuaria sozinho à frente da Blue Note até o final do ano, quando mandaria buscar na Alemanha seu amigo Frank Wolff, que passaria a ajudar a tocar a grvadora e – principalmente – a fotografar os músicos nos estúdios.

No final da II Guerra Mundial, Lion ficou amigo do saxofonista Isaac (Ike) Abrams Quebec (1918-1963) e em julho de 1944 eles gravariam Blue Harlem, outro sucesso da Blue Note. Foi Ike também quem levou Lion para escutar Thelonious Monk (1917-1982), um músico já respeitado mas quenunca havia gravado, até por que nenhuma gravadora parecia interessada. Tudo mudaria com o registro de Round Midnight. Mais um sucesso.

Porém, o sucesso não diminuiria o esforço de Lion para controlar Monk. O excêntrico pianista tinha hábitos e horários bem peculiares, cabendo a Lion dar a ele o tempo e o espaço que precisasse. A Blue Note continuava a acreditar e apoiar Monk. Depois viriam Bud Powell, o jovem Miles Davis e também Art Blakey.

Lion começaria a década seguinte apostando nos LPS, que surgiam para desbancar os discos de 78 rotações. Em novembro de 1950, a Blue Note lança seus primeiros LPs de vinil. A primeira gravação de Monk só saiu em 1951. O novo formato do LP, no entanto, apresentava a Lion uma outra oportunidade. As lojas de discos estavam montando racks de exibição para que os comsumidores pudessem procurar os discos pelas suas capas.

Lion saiu então na frente, usando as capas dos álbuns como uma ferramenta de marketing. A Blue Note empregou então três designers, Gil Mellé (1931-2004), John Hermansader (1915-2005) e Paul Bacon (1923-2015), para produzir desenhos minimalistas e modernistas que traziam a estética da escola alemã Bauhaus. Mais tarde a Blue Note contrataria Reid K. Miles (1927-1993) e também Andy Warhol (1928-1987) para produzir as suas capas.

O primeiro disco com as novas capas foi o álbum Genius of Modern Music, de Thelonious Monk, desenhada por Paul Bacon. As fotos de Frank Wolff, das sessões de gravação, seriam o elemento gráfico principal e se tornariam uma identidade de marca exclusiva para os álbuns da Blue Note.

Outra junção importante foi a de Lion com Rudy Van Gelder em 1953. Ele foi levado ao estúdio de Van Gelder por Gil Mellé e, a partir daí, surge o “som” da Blue Note, com sons próximos. Van Gelder atendia a esse desejo microfonando tudo de muito perto.

Os apreciadores de jazz sempre reconheceram os padrões dos músicos da Blue Note e suas gravações. Lion explicava: “Tudo sempre foi de alta qualidade na Blue Note. Eu mesmo cuidava disso, tinha que conferir as etiquetas, a prensagem, as fotos, a capa.Tudo tinha que estar certo de A a Z”. E ainda vale lembrar o elenco que ele comandava: Horace Silver, Herbie Nichols, Lou Donaldson, Clifford Brown, Jimmy Smith, Kenny Burrell, Jackie McLean, Wayne Shorter, Freddie Hubbard, Donald Bird, Andrew Hill, Ornette Coleman, Eric Dolphy, Cecil Taylor….

Sofrendo de problemas cardíacos, Lion venderia a Blue Note em 1967 e passaria as próximas duas décadas afastado do jazz. Lion morreria em fevereiro de 1987. Tinha 78 anos.

* Marcos Abreu é engenheiro de áudio e militante do som puro e da AmaJazz

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