Zen e a arte de ouvir músicas

Ana Maria Bahiana* estreia na AmaJazz lembrando como Erik Satie a reconciliou com várias etapas da sua vida e de como o compositor francês pode ser a chave para entender o intrincado cotidiano de Los Angeles

Para ler ouvindo Michel Legrand/Erik Satie
erik satie
Erik Satie no traço de Gilmar Fraga

O meu carro e o meu som. Essa é a cápsula de descompressão da vida no sul da Califórnia, onde se pode dirigir por 5 mil milhas e não sair de Los Angeles, onde tudo fica pelo menos a 20 minutos (se o trânsito ajudar) de distância e onde não é possível honrar mais que dois compromissos por dia útil. Mas esse é o modo pessimista, copo-meio-vazio, de encarar essa experiência tão integralmente americana. O outro modo é assim: o teto solar retraído, o azul do céu da Califórnia sobre a cabeça, o sol indo para o Japão, lá no Pacífico prateado depois das montanhas de Santa Mônica, cheiro de laranja no ar, o horizonte infinito do Vale de São Fernando sob as rodas. O carro é seu desenho no espaço, sua nave urbana, seu país pessoal numa nação de individualistas, numa cidade de Babel. Se eu não pudesse negociar a estrada eu não poderia viver em Los Angeles. Se eu não tivesse a minha música eu não poderia negociar a estrada. Gosto desse paradoxo. Gosto de não ter de ouvir música porque tenho que ouvir música, mas ouvir música porque sem ela não consigo conceber a própria vida, porque a música é a própria vida, em código. Essa liberdade estrepitosa me deixa ouvir coisas sem ordem e sem nexo, sem ganchos e sem pautas, sem datas e sem gavetas. Nada é moderno, nada é antigo, tudo existe em perfeita harmonia no país ambulante do meu carro. É o zen de LA: nirvana pelo preço de um tanque de gasolina.

Assim, na minha idade avançada, e graças à falta de preconceito dos californianos, eu redescobri o balé. Não como plateia, que isso eu nunca deixei de ser, mas como praticante, à força de três a quatro aulas por semana. Não troco minhas horas de barra, chão e centro por nenhuma aeróbica do mundo. Não é que balé seja difícil: é, como todo bailarino sabe, impossivelmente difícil. É empurrar corpo e mente até o limite e depois ir mais além – e sorrindo. É uma grande metáfora para a vida, uma meditação ambulante: achar o centro, estender a linha, perceber de onde vem o equilíbrio, desafiar a si mesmo, manter-se alerta, manter-se flexível. É disciplina e transcendência, em um único, grande gesto.

E música também. Não o baticum da aeróbica, feito para ser ignorado, mas música para ser absorvida como oxigênio, para ser pensada. Uma vez, numa aula, minha professora favorita, Janet Edmunds, corografou um exercício de adágio ao som da leve Gymnopédie de Erik Satie e ganhou minha gratidão eterna: ela me fez lembrar quanto eu adoro as Gymnopédies e quanto Satie, com sua ironia, sua sutileza, seu humor, me reconciliou com o piano, um instrumento pelo qual não tenho, exatamente, predileção.

Achei então Michel Legrand/Erik Satie: Oeuvres pour Piano (Erato), uma coleção extraordinária do creme de Satie por Legrand – não apenas todas as Gymnopédies, mas também as Avant-Dernieres Pensées e Jack in the Box Volta e meia está é a minha opção de fé para pequena música noturna – coisa essencial no outono, quando o sol se põe, um delírio de rosas e púrpuras, às quatro e meia da tarde.

*Ana Maria Bahiana é uma das mais importantes jornalistas culturais do Brasil. Escreveu para a Rolling Stone brasileira, Opinião, O Globo, Jornal do Brasil. Folha e Estado de S. Paulo. Atualmente colobora com a Exame e é editora do site goldenglobes.com. Há 30 anos mora nos Estados Unidos

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Nenhum pensamento

  1. Ana Bahiana é a maior pensadora do nosso tempo. Tendo a arte como eixo, tudo o que escreve, desde o saudoso Jornal de Música e Som, é denso e intenso, sem concessões. Seja qual for o assunto, sempre alcança, no mínimo, o universo. Merecia uma edição de obras completas em capa dura e papel bíblia. O texto acima, de novo maravilhoso, me remete a um outro, publicado na antiga revista Som Três, na década de 80, e que dava dicas preciosas sobre “como curtir um som”, nos mais variados gêneros. Queria saber pelo menos qual a edição da revista em que constou esse artigo.

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