O primeiro jazz

Marcos Abreu* explica como as gravações chegaram até a abalar – fisicamente – as estruturas dos estúdios

Para ler ouvindo Original Dixie Jass Band 

Em janeiro de 1917, A Victor estava liderando as vendas com discos da banda de John Philip Sousa e Enrico Caruso, enquanto a Columbia estava procurando desesperadamente um novo sucesso. Então alguém mencionou que a mais recente explosão na Broadway era a Original Dixieland Jass Band. Menos de uma semana depois de começar a tocar no Reisenweber, os músicos foram contratados para fazer um teste de gravação. A Columbia não tinha nenhum artista de jazz ou de estilo semelhante. Nunca havia gravado nem ragtime. Enfim, não sabia exatamente o que estava comprando.

 

Assim é fácil imaginar então a confusão que isso resultou quando a banda começou a tocar. O volume de som do grupo era absurdo para o pequeno estúdio, originalmente projetado para solistas e quartetos de cordas. A banda literalmente balançou as estruturas do edifício. Aquele som reverberava na sala embaralhando tudo. Depois dos dois números contratados, os músicos receberam seus cachês de US$ 250 e foram despachados. Com isso a Columbia desistiu do jazz. A gravação foi arquivada e esquecida. Alguns dizem que ela nem ocorreu.

Os músicos reclamaram por algum tempo, e então, como uma vingança, foram diretamente para o concorrente, a Victor Talking Machine Company. Ali,em 26 de fevereiro de 1917, gravaram suas duas composições mais populares, Livery Stable Blues/Dixieland Jass Band One-Step (Disco Victor No. 18255).

Do ponto de vista técnico, a Victor conseguiu fazer o que Columbia falhou. Para entender é preciso considerar os problemas acústicos que confrontavam os técnicos de som daqueles dias, antes da invenção da válvula eletrônica e subsequente desenvolvimento dos sistemas de gravação. Como os amplificadores não existiam, a amplificação era feita por uma grande corneta metálica usada para concentrar o som. Qualidade era uma coisa secundária. O volume de som na agulha de corte era a coisa mais importante a fim de obter vibrações suficientes para cortar a cera. Uma enorme corneta de latão era usada para coletar o som e um funil de metal, chamado de pickup horn, era o elemento principal de um estúdio de gravação.

Os problemas acústicos e sonoros apresentados por uma banda de jazz em estúdio eram uma novidade. Os técnicos da Victor estavam perplexos. Na gravação de cantores de ópera, eles já tinham algumas técnicas e posicionamentos na sala para que voz e piano entrassem equilibrados em volume pela corneta. Nas notas mais altas, o cantor era instruído a afastar-se e nos pianíssimos, aproximar-se. Dizem que Vicente Celestino, que gravou nesse sistema, era colocado no fundo da sala, longe da tal corneta. Alguns artistas não gostavam nada disso.

No caso da Original Dixieland Jass Band, não havia como mudá-los de lugar dentro do estúdio. Não havia controle. O volume da banda era muito alto, os técnicos temiam distorções se ficassem próximos demais, ao mesmo tempo, colocá-los a dez metros de distância, a reverberação e outras reflexões da sala tomariam conta e tudo ficava embaralhado e sem definição. Os técnicos então organizaram os músicos de acordo com a força de seus instrumentos. Várias gravações de teste foram feitas até que se encontrasse o equilíbrio. É importante lembrar que essas distâncias não foram determinadas pelo volume relativo dos instrumentos. Mas sim pela sensibilidade ou discriminação de frequências do aparelho de gravação.

A primeira sessão de gravação de jazz produziu uma boa qualidade de som para os padrões da época. Isto graças a Charles Sooy, o técnico de gravação da Victor, que era um especialista. Eles fizeram várias sessões experimentais em fevereiro de 1917 para conseguir o equilíbrio acústico correto. Do ponto de vista técnico, as duas músicas gravadas pelo ODJB em 26 de fevereiro de 1917, são ótimas gravações da era pré-elétrica. Há clareza nos instrumentos e um equilíbrio muito bom. Em Livery Stable Blues, o bumbo é claramente audível, assim como o pianista,sonoridades difíceis de captar nos equipamentos da época.

Assim, o primeiro disco de de jazz do mundo foi anunciado na revista Victor Record Review, de 7 de março de 1917. A empresa avisava o cliente que “… a Jass band is a Jass band, and not a Victor organization gone crazy,” e segue para introduzir o novo estilo musical.

A Columbia, perturbada pela crescente popularidade do Dixieland e seu primeiro registro para a Victor, envia um olheiro para Nova Orleans em busca de uma outra banda de jazz para competir com o “grande” achado da Victor. Mas depois de passar em todos os cafés de Crescent City, envia por telegrama a mensagem “No jazz bands in New Orleans”.

Livery Stable Blues/Dixieland Jass Band One-Step foi protagonista de dois pioneirismos: foi o primeiro disco de jazz do mundo e também o primeiro registro na história a responder por um processo de direitos autorais para cada um dos seus lados. Mas isso é outra história.

A Original Dixieland Jass Band parou de tocar em 1925. Sua música já não era mais novidade.

* Marcos Abreu é engenheiro de áudio e militante do som puro e da AmaJazz

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s