Desorganização organizada

Roberto Muggiati* lembra Ornette Coleman três anos após a morte do músico que subverteu o jazz e foi considerado “destruído” por Miles Davis e “maluco” por Thelonious Monk

Para ser lido ao som de The Shape of Jazz to Come, de Ornette Coleman
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Ilustração: Gilmar Fraga

A expressão “jogar o bebê com a água do banho” se aplica à perfeição a Ornette Coleman. Trabalhou como babá, porteiro e ascensorista para sobreviver nos anos em que o hard bop era a língua oficial do jazz e ele insistia em fazer uma música sem pé nem cabeça – ou uma música que saía diretamente da sua cabeça. Ornette Coleman fez com a música o que James Joyce fez com a literatura em Finnegans Wake. Melodia, harmonia, ritmo, tonalidade – aboliu tudo isso. Lembram aquela cena do Último Tango em Paris em que Marlon Brando e Maria Schneider, nus, brincam de cavernícolas falando por meio de grunhidos? Era assim que soava a música de Ornette aos que tiveram o (des)prazer de ouvi-la pela primeira vez.

Começou como sax tenor em bandas de rhythm & blues, que o demitiam por tocar muito jazz. Ao tocar com músicos de jazz, era igualmente rejeitado. Ou abandonavam o palco, ou o expulsavam, como fez Dexter Gordon. Com um sax alto de plástico branco, aliciou um garoto de 19 anos (Don Cherry), que tocava pocket trumpet – também parecia um brinquedo – mais contrabaixo e bateria e começou a ensaiar numa garagem e tocar esporadicamente em Los Angeles. O baixista Red Mitchell o recomendou à gravadora independente Contemporary, que lançou seu primeiro álbum em 1958, Something Else!!!

O disco provocou um cisma – ou sismo – no mundo do jazz. “Não sei o que ele toca, mas não é jazz” (Dizzy Gillespie). “Psiquicamente, esse cara está todo destruído por dentro” (Miles Davis). “Este sujeito é maluco!” (Thelonious Monk). Mas houve quem fosse a favor: “Tem suingue e uma boa percepção da melodia” (Gil Evans). “Faz uma desorganização organizada, toca errado de uma maneira certa” (Charles Mingus). “Sua maneira de tocar tem uma lógica interna profunda” (Gunther Schüller). “Ele faz a única coisa realmente nova no jazz desde a revolução do bebop” (John Lewis, do MJQ). Até veteranos ficaram do seu lado, como o trompetista Roy Eldridge: “Eu o ouvi de todo jeito, bêbado ou sóbrio. Cheguei até a tocar com ele, tem um tremendo suingue, meu irmão”.

O Modern Jazz Quartet de John Lewis foi um dos primeiros a gravar Lonely Woman, de Ornette, que, com Peace e a insana Focus in Sanity, me acompanharam no final de 1960 na primeira incursão por uma gélida Alemanha, ainda marcada por cicatrizes da guerra. O novo “estilo” foi batizado de free jazz e celebrado num álbum-manifesto homônimo de 1961, confrontando o quarteto de Ornette e um quarteto com Eric Dolphy (clarone) e Freddie Hubbard (trompete). A capa do álbum era a tela do expressionista abstrato Jackson Pollock, White Light, um conjunto de formas produzidas aleatoriamente que se uniam para compor um todo coerente. O termo free jazz se aplicou nos anos 60 aos tenores radicais político-religiosos (até Coltrane entrou nesta) que viajavam em solos raivosos e intermináveis.

O crítico americano Robert Palmer foi quem chegou mais perto de encontrar um método na loucura de Ornette: “Coleman declara sua proposta inicial e então a desenvolve por meio de uma série de cláusulas dependentes, cada uma levando à seguinte. São cadeias de exposição, mas raramente um sentido de resolução final. É como se o ar estivesse cheio de palavras, de melodia, ou matéria mental e as dissertações de Coleman fossem uma transcrição necessariamente parcial. Outra maneira de encarar a música de Ornette seria compará-la a um ato de corda bamba sem uma rede de segurança. E, nesta situação, quanto mais pessoas você tem na corda bamba, mais você namora com o desastre”.

Ornette Coleman tocando na Alemanha em 2008 (Foto: Frank Schindelbeck www.schindelbeck.org/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons)
Ornette Coleman tocando na Alemanha em 2008 (Foto: Frank Schindelbeck http://www.schindelbeck.org/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons)

No outro polo, o jazz dos anos 1960 reagia à invasão do pop-rock-soul com fusões com a bossa nova (Stan Getz) e com o rock (Miles Davis). Ornette superou o seu jazzicídio e diversificou seu som. Além do alto, passou a tocar sax tenor, trompete e violino. Fez trilhas sonoras experimentais, encampou a música das montanhas do Marrocos (jujuka), inventou a escola “harmolódica” com guitarras e baixos, gravou com orquestras eruditas e com guitarristas como Jerry Garcia (do rock ácido) e Pat Metheny (do jazz).

É aquela velha história: o incendiário virou bombeiro. Ornette não só foi aceito, mas celebrado. Seu CD Sound Grammar foi eleito o melhor álbum de 2006 (Jazz Times) e indicado para o Grammy de 2007, que premiou Ornette com um Lifetime Achievement Award. Também em 2007, ganhou o Prêmio Pulitzer de Música, ascendendo ao Olimpo dos compositores sérios como Aaron Copland, Charles Ives, Samuel Barber e Virgil Thompson. Em 2010, aos 80 anos, assim ele resumiu sua arte: “Se você a ouvir como música natural, a coisa vai fluir sem que tenha de usar o intelecto para apreciá-la. Você ouve a emoção pura”.

*Roberto Muggiati é jornalista desde os anos 50, foi editor-chefe da revista Manchete por mais de duas décadas e é autor de livros como Blues: da Lama à Fama (Editora 34, 1995), New Jazz: de Volta para o Futuro (Editora 34, 1999), Rock: O Grito e o Mito (Editora Vozes, 1973). Quando não está escrevendo, pilota um sax-tenor Selmer Mark VII. Este texto foi publicado originalmente em 2010 pelo jornal O Estado de S. Paulo.

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Nenhum pensamento

  1. Como ele mesmo diz, tentar usar o intelecto para sentir a música de Ornette é um caminho onde você já bate com a porta na cara. Ele é o jazz em estado puro. O disco Skies of America, não citado acima, é uma obra-prima, com arranjos ousadíssimos para cordas, e equiparo sua fluidez ao quinteto anos 60 de Miles. Lembro também dos seus arranjos para os discos de Alice Coltrane.

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