“Grosso não faz jazz!”

Eu estava lá. E 30 anos depois daquela noite ainda lembro da primeira apresentação de Renato Borghetti no Free Jazz Festival, no Rio

Para ser lido ao som de Barra do Ribeiro, de Renato Borghetti
Foto: Renê Goya/Arquivo pessoal
Foto: Rafael Berlezi/Arquivo pessoal

Fenômeno musical desde o primeiro semestre de 1984, Renato Borghetti trilhava uma das carreiras mais rápidas e sólidas da música instrumental brasileira. O primeiro disco havia sido lançado em maio daquele ano, com tiragem inicial exagerada de 10 mil exemplares. Parecia um delírio – acabou sendo uma avaliação modesta. O disco venderia pelo menos dez vezes mais – 60 mil cópias em apenas três semanas, 100 mil em quatro meses, primeiro Disco de Ouro na história da música instrumental no Brasil. E mais: no Rio Grande do Sul, naquele período, o disco do gaiteiro venderia mais do que o fenômeno Thriller (até hoje, e dificilmente superável, o disco mais vendido da história fonográfica mundial, com mais de 105 milhões de cópias), de Michael Jackson, o que chegou a fazer com que alguns brincassem chamando-o de Borghettinho Jackson. O mesmo personagem iria inspirar o crítico musical Tárik de Souza a escrever o seguinte comentário no Jornal do Brasil, em setembro de 1984. “Ele não canta nem utiliza instrumentos eletrônicos. Mas aposto que Michael Jackson, se viesse ao Brasil, ficaria muito mais impressionado com o gauchesco Renato Borghetti do que com as centenas ou milhares de imitadores breakers brasileiros”.

Renato Borghetti era então um pop-star.

Pelos próximos quatro anos, Borghetti manteria essa curva ascendente, encarnando o novo sentimento gauchista (o orgulho pela bombacha, o apreço pelo churrasco e pelo chimarrão, a exaltação às virtudes do tradicionalismo, o respeito a ícones como Paixão Côrtes), mostrando uma desenvoltura até então incompatível com sua imagem de jovem tímido e retraído. Seria capa de todos os jornais da região, figura constante nos mais variados programas televisivos, presença decisiva na programação musical de rádios em quase todos os estilos e, principalmente, gravaria novos discos.

Assim, com menos de cinco anos de carreira discográfica, quatro trabalhos lançados e um currículo muito vinculado a festivais – basicamente os nativistas –, Renato Borghetti chegava ao primeiro semestre de 1988 preparado para desbravar novos caminhos musicais.

No próximo dia 3 de setembro comemoram-se as três décadas da primeira apresentação de Renato Borghetti no Free Jazz, na época o mais importante festival no estilo no Brasil e também um dos mais respeitados no mundo. Desde então, Borghettinho se consolidou como um dos mais destacados artistas brasileiros, com uma sólida carreira no Brasil e no Exterior (são cada vez mais comuns suas turnês pelos circuitos da música instrumental na Itália, França, Finlândia, Alemanha, Áustria….) e com uma extensa discografia, além de livros, documentários e DVDs.

Trinta anos depois daquela noite de 1988 é importante lembrar como aquele festival de jazz acabou sendo tão fundamental a um músico que não tinha vínculos tão fortes com o gênero.

Num primeiro momento, Renato Borghetti pode ter causado estranheza ao ser selecionado para a programação da edição de 1988. Em matéria de exotismo para os públicos mais ligados ao jazz tradicional, Renato Borghetti e o violeiro sul-matogrossense Almir Sater eram as duas atrações mais surpreendentes e inesperadas. Todas os demais nomes selecionados que passaram pelos palcos do extinto Hotel Nacional, no Rio de Janeiro, e pelo do Palácio das Convenções, em São Paulo, eram mais previsíveis, aí incluídos nomes que já faziam parte da história do jazz (como o saxofonista Michael Brecker, o contrabaixista Ron Carter, o violinista francês Stephane Grapelli, o baterista Tony Williams, o Modern Jazz Quartet e a cantora Nina Simone) e também respeitados artistas brasileiros como Nico Assumpção, Sebastião Tapajós e o violonista Oscar Castro Neves, pioneiro da bossa nova e então radicado nos Estados Unidos desde os anos 60. Esta edição de 1988 era ainda para ser o Free Jazz de Miles Davis. O trompetista americano, figura fundamental na evolução da música do século 20, estava confirmado entre as atrações. Mas, poucos meses antes, problemas de saúde acabaram fazendo com que sua vinda fosse cancelada.

Mesmo quase sendo um estranho, Borghettinho teve uma boa recepção e – posteriormente – uma boa acolhida. O catálogo de apresentação, entregue aos espectadores na entrada dos shows, errava a grafia do nome (colocando “Borguettinho” com um “u” inexistente) mas dedicava duas páginas ao músico, com palavras elogiosas: “…lançou o progressivo sulista, projeto ampliado com a fusão de escolas…” e ainda “…misturou milonga com samba.”, encerrando com “Um dos valores deste autodidata está em expandir as possibilidades sonoras de um instrumento difícil e limitado”.

Chegar à programação do Free Jazz Festival parecia ser um caminho natural na carreira de Renato Borghetti. O convite não causou nenhuma surpresa em Renato. Era apenas mais um entre tantos shows na sua extensa agenda. Marcos Borghetti, irmão e já na época desempenhando a função de empresário que até hoje se responsabiliza pela agenda e pelos contratos de Borghettinho, lembra que recebeu um telefonema do escritório das irmãs Sylvia e Monique Gardenberg, proprietárias da produtora que organizava o festival, com a proposta. Os detalhes burocráticos foram acertados rapidamente. O cachê não tinha nada de mais, tanto que não ficou na memória de nenhum dos dois irmãos. Não era muito mais alto nem muito mais baixo do que eles já estavam acostumados a receber em outras apresentações. No final, o valor mediano não importava tanto assim. Maior valor era ter sido convidado para tocar para novas plateias.

Para esta temporada única, Renato Borghetti pensou inicialmente em resolver três problemas. O primeiro era adaptar mais rapidamente o percussionista Kako Pacheco ao grupo, já que ele havia entrado há pouco, substituindo o uruguaio Carlos Perez. A solução mais imediata encontrada por Borghetti foi colocar um baterista, no caso Taba, reforçando a parte rítmica da banda. O segundo problema, um pouco mais complexo, eram os ensaios. O repertório já estava definido (contemplando músicas retiradas dos discos já gravados) e o show não seria longo (teria pouco menos de uma hora como era de praxe, abrindo para as outras duas atrações internacionais que viriam a seguir), porém era preciso deixar tudo alinhavado. Assim, para ficar tudo bem resolvido, o grupo se dedicou a dois meses de encontros diários na casa de Taba – que por coincidência morava numa rua atrás do 35 CTG, local onde Borghettinho havia começado sua carreira.

Por fim, a preocupação maior: as bombachas. Renato acreditava que o grupo deveria se apresentar com elegância e manter um padrão. Era preciso inovar mas a tradição deveria ser mantida. Por isso, ele encomendou à Ana Alchiere, uma senhora que há muito tempo já cuidava de suas bombachas, que fizesse um modelo mais elaborado para que todos músicos entrassem iguais. No final, o modelo acabou sendo uma bombacha branca que afunilava do joelho à canela, folgada na parte de cima e justa até quase as alpargatas. O produtor musical Ayrton dos Anjos, o Patineti, que acompanhou o grupo na turnê só foi ver o resultado quando eles subiram ao palco. Patineti não disfarçou sua decepção. O impacto na hora que eles apareceram juntos dava a impressão de que se tratasse de um conjunto de baile. Mas depois que a primeira nota musical foi emitida tudo ficou desimportante diante da qualidade sonora. E O público, aparentemente, nem reparou esse detalhe quase irrelevante.

Acompanhado dos já citados Kako e Taba e mais de Paulo Tomada e Veco Marques (violões) e de Ronaldo Saggionato, o Gringo, no baixo, Borghetti subiu ao palco do teatro do Hotel Nacional no dia 3 de setembro, abrindo a noite para o trio de Ron Carter e Tony Williams, com o pianista Mulgrew Miller, e para Stéphane Grappelli.

Havia chegado ao Rio um dia antes. Ficou no mesmo hotel em que todos músicos estavam hospedados, não saiu do lugar, não foi à praia de São Conrado, não ensaiou e apenas foi à tarde ao local do show para a passagem de som. Borghetti reconhece que a única sensação estranha na hora da apresentação foi o calor, já que a produção de Grappelli havia solicitado que os condicionadores de ar fossem desligados. Afora isso, havia dado tudo certo. Eu estava lá e me lembro bem.Borghetti e grupo tocaram com grande pegada, quase que num fôlego só. O público reconheceu, aplaudiu e Renato saiu satisfeito. A performance foi curta, com os menos de 60 minutos previstos e sem bis. Relaxado, Borghetti bebeu algumas cervejas no camarim, não voltou para ver os shows seguintes e foi comemorar a boa performance em um churrasco na casa de uns amigos gaúchos de Patineti que moravam no Rio.

Renato apresentaria-se apenas no Rio, ficando de fora da etapa paulista do festival, realizada uma semana depois. A repercussão não poderia ser mais positiva. “Lembro do espanto que foi a escalação dele para o festival. Ele recém havia deixado os festivais gaúchos e, de uma hora para outra, ganhava destaque em jornais de circulação nacional”, recorda o jornalista Juarez Fonseca. Já Renato Borghetti manteve a mesma calma de sempre. Diz não ter ficado nervoso, não ter se atrapalhado com nada e de ter se sentido como se tivesse se apresentando num dos tantos palcos em que já havia tocado. “Para mim, era apenas mais um festival de música instrumental, não havia nenhuma mudança no meu repertório e no meu jeito de tocar. Eu sempre soube que ‘grosso não faz jazz’”.

(Este texto faz parte de um dos capítulos do livro Esse Tal de Borghettinho, biografia de Renato Borghetti, de minha autoria e lançado em 2015)

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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