É impossível ficar parado

Daniel Soares* apresenta a big band que vai do rockabilly ao swing sob o comando de Brian Setzer, um herói da classe trabalhadora

Para ler ao som de The Brian Setzer Orchestra

Houve uma época na formação do jazz que a ordem era não ficar parado. E também era impossível, pelo menos, não bater o pezinho nos salões onde desfilavam as chamadas big bands. Count Basie, Duke Ellington, Glenn Miller, e dezenas e dezenas que se seguiram nos anos seguintes, como no jump blues de Cab Calloway, Big Joe Turner, Louis Prima e Louis Jordan, ajudaram a mitificar ainda mais a figura do frontman, do cara que comandava o espetáculo. O rock and roll inevitavelmente iria seguir esta estrada e, com o tempo, faria o caminho de volta com vertentes como o rockabilly, onde frases das guitarras por muitas vezes emulava o naipe de sopros.

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Brian Setzer tocando na Casa Branca, em 2006 (Foto: Eric Draper/Casa Branca/Wikimedia Commons)

Nos anos 90 um movimento batizado de Swing Revival trouxe a atmosfera dos anos 30 e 40 dos salões de baile principalmente com uma banda de Los Angeles chamada Royal Crown Revue. Mas a cena ganhou holofotes mundiais, que se segue até hoje, com um topetudo com corpo praticamente todo tatuado, fã de motocicletas raras e um dos maiores nomes da guitarra: Brian Setzer. Oriundo do rockabilly com o seu Stray Cats desde 1980, Brian é um legítimo operário da música. Seu nome está associado a dezenas de projetos. Só para lembrar um: ainda nos anos 80, o silêncio do vocalista Robert Plant após o fim trágico do Led Zeppelin foi quebrado com um disco numa banda nova chamada The Honeydrippers. Entre as regravações que estão no único disco lançado, está a de Rockin’ at Midnight, com a guitarra de Setzer.

Formada no início dos anos 90, a Brian Setzer Orchestra gravou seu primeiro disco em 1994 e “estourou” no mundo do neo-swing com a regravação de Jump Jive an’ Wail de Louis Prima, original de 1957, e com a versão de Wes Montgomery para Caravan. Mas também foi ousada em dar letra para In the Mood, de Glenn Miller. Não contente e com a máxima de que a diversão vem em primeiro lugar, Setzer lançou, em 2007, Wolfgang’s Big Night Out, um disco em que transforma conhecidos temas eruditos em swing e rockabilly, como a Sinfonia Nº 5, de Beethoven em Take the 5th e a Overture 1812, de Tchaikovsky em 1812 Overdrive.

Com um naipe de 16 sopros, Brian se revela, primeiro como um grande maestro, por cuidar pessoalmente dos arranjos, depois, por uma belíssima e potente voz que se encaixa no gênero e consegue trânsito livre entre as raízes do rock and roll e o estilo crooner de uma big band. Desfilando sua coleção de guitarras Gretsch, ainda faz questão de usar a sua laranja de 1959, ano em que nasceu. Setzer não apenas acompanha a big band, também faz da guitarra um elemento do naipe, num diálogo constante com a orquestra toda, num entra e sai de solos precisos e sempre, sempre, com um sorriso. O cara sabe se divertir.

Além de trazer clássicos das pistas de antigamente, Setzer recuperou um instante da música americana que atravessa suas fronteiras: as canções de Natal. De novembro, e adentrando muitas vezes janeiro e fevereiro, a Brian Setzer Orchestra cumpre uma extensa agenda de show de Natal, inclusive tendo tocado várias vezes na cerimônia de iluminação da árvore do  Rockefeller Center, em Nova York.

O operário Setzer, às vésperas dos 60 anos, três Grammys na estante, ainda consegue tempo para a sua habitual tour pelo Japão com o novo trio e que agora faz um gira pelos EUA em junho também; e fez uma apresentação recente em Las Vegas reunindo os outros dois integrantes do Stray Cats (Lee Rocker e Slim Jim Phantom).

* Daniel Soares é roqueiro, jornalista e trabalhou no Correio do Povo

 

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