O fogo da música

Antônio Carlos Miguel* estreia na AmaJazz com um texto sobre Ben Sidran e a presença de judeus no cancioneiro americano

Para ser lido ao som de Don’t Cry for No Hipster”, de Ben Sidran
(Foto: Pierre Darmon/Divulgação)
Em seu quarto livro, Ben Sidran tenta explicar como 2% da população dos EUA são responsáveis por 80% da produção musical do país. (Foto: Pierre Darmon/Divulgação)

Pianista, compositor, cantor e também escritor, Ben Sidran é autor de There was a Fire: Jews, Music and the American Dream (algo como Havia um Fogo: Judeus, Música e o Sonho Americano). O livro é o quarto escrito pelo músico e foi lançado nos Estados Unidos em 2012. Em síntese, Sidran tenta explicar como e por que 2% da população dos Estados Unidos são responsáveis por 80% da produção musical do país. A estimativa algo hiperdimensionada é dele, mas tem muito de verdade. Antes do rock, por exemplo, entre os grandes compositores, Cole Porter era exceção, numa lista de gênios musicais judeus como Ira & George Gershwin, Irving Berlin, Richard Rodgers & Lorenz Hart (& Oscar Hammerstein II), Jerome Kern, Harold Arlen…

A presença de judeus também se deu no cinema, na literatura e na música clássica. Sidran conta que se afastara da religião após uma dramática experiência no seu bar mitzvah, só se reaproximando no de seu filho. Hoje, mesmo com dúvidas em relação à existência de um Deus, assume seu judaísmo e diz que seu povo vive nos Estados Unidos experiência similar a dos negros trazidos África. Assunto que ele abordara em seu primeiro livro: Black Talk: How the Music of Black America Created a Radical Alternative to the Values of Western Literary Tradition (Conversa Negra: Como a Música da América Negra Criou uma Alternativa Radical para os Valores da Tradição Literária do Ocidente).
Sidran lembra que antes da grande leva de imigração da segunda metade do século 19 (expulsos pelos dos pogroms promovidos pelo Czar Nicolau, na Rússia, época na qual se passa O Violinista no Telhado), os primeiros judeus a desembarcarem na então New Amsterdan (a ilha de Manhattan), em 1654, foram os 23 homens, mulheres e crianças que fugiram de Pernambuco após os portugueses derrotarem os holandeses. Ou seja, judeus quase brasileiros dos tempos da Colônia.

Minhas primeiras lembranças de Ben Sidran vem de sua participação em disco de fim dos anos 1960 na Steve Miller Band (na qual também estava Boz Scaggs). Só nos primeiros anos do século 21 – época em que trocava arquivos musicais com amigos na internet – conheci a fundo sua obra solo, inédita no Brasil. Há alguns anos, comprei o CD Dylan Different, curioso e irregular passeio jazzy-rocky pelo repertório de Robert Allen Zimmerman. E, por fim, outra informação que conta muito sobre Sidran: uma de suas primeiras paixões musicais é o pianista e compositor Horace Silver, este um americano filho de cabo-verdianos, detalhe biográfico que também explica algo sobre o gingado desse gênio do hard-bop.

*Antonio Carlos Miguel, o ACM do bem, como definia Scarlet Moon, é jornalista e fotógrafo com passagens pelo jornal O Globo e pela revista Manchete. Foi fundador da revista Música Planeta Terra, ao lado de Júlio Barroso

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