Salinger e My Foolish Heart: O apanhador na parada de sucessos

Roberto Muggiati*, em texto inédito, lembra como a única obra filmada de um texto de J.D. Salinger deu origem a um dos maiores standards do jazz

Para ser lido ao som de My Foolish Heart
Ilustração: Gilmar Fraga

J.D. Salinger sofreu dois traumas relacionados ao cinema. Em 1942, aos 24 anos, começou a se encontrar com a filha do dramaturgo Eugene O’Neill, Oona O’Neill, de 17 anos, a Debutante do Ano daquela temporada no Stork Club de NY. Antes dele, Oona já tinha namorado o cartunista Peter Arno e o cineasta Orson Welles. Embora comentasse com um amigo que “a pequena Oona está loucamente apaixonada pela pequena Oona”, Salinger ficou apaixonado pela moça e só a guerra os separou, mas a troca de cartas continuou intensa, até que um dia ela parou de responder. Foi pelos jornais, já no exército dos Estados Unidos, que Salinger ficou sabendo do casamento dela, um mês depois de completar 18 anos, com o Rei do Cinema, Charles Chaplin, então com 54 anos. Uma carta da época dá uma medida da mágoa de Salinger: “Posso vê-los nas noitadas caseiras. Chaplin agachado cinzento e nu, em cima da cômoda, balançando sua tireoide ao redor da cabeça com a bengalinha de bambu, como um rato morto. Oona, num vestido água-marinha, aplaudindo loucamente do banheiro”.

O segundo problema de JD com o cinema teve a ver com a adaptação de um conto seu para as telas. Os irmãos Julius e Philip Epstein (do roteiro de Casablanca) sugeriram ao produtor Samuel Goldwyn a compra do conto de Salinger Uncle Wiggily in Connecticut, publicado na New Yorker de 20 de março de 1948 (e depois na coletânea Nine Stories). Salinger vendeu os direitos. Os Epstein roteirizaram e Mark Robson dirigiu o filme My Foolish Heart (Meu Maior Amor), estrelado por Dana Andrews e Susan Hayward. Foi uma tentativa honesta, mas como encher hora e meia de projeção com uma história de menos de 20 páginas? A magia dos contos de Salinger reside justamente no que fica de fora, na economia de meios narrativos e no poder da sugestão. My Foolish Heart decepcionou na bilheteria e foi açoitado pela crítica. Salinger detestou e jurou que nunca mais venderia um texto para Hollywood. E manteve a promessa.

Talvez a contribuição maior da fita tenha sido a canção-título, música de Victor Young e letra de Ned Washington, que seria imediatamente adotada como uma favorita dos jazzistas, Bill Evans que o diga, gravou-a várias vezes, uma delas em duo com o cantor Tony Bennett. O tema que dá título ao filme aparece cantado por Martha Mears numa cena de baile. A gravação de Gordon Jenkins, cantada por Sandy Evans, ficou entre as Dez Mais nas paradas de sucesso. A do band-leader, trombonista e cantor de jazz Billy Eckstine vendeu mais de um milhão de discos e ficou 19 semanas nas paradas chegando ao número 6. A versão de Nat King Cole também foi um sucesso de vendagem.

My Foolish Heart foi também a última gravação solo de Frank Sinatra, em 1988.

* Roberto Muggiati é jornalista desde os anos 50, foi editor-chefe da revista Manchete por mais de duas décadas e é autor de livros como Blues: da Lama à Fama (Editora 34, 1995), New Jazz: de Volta para o Futuro (Editora 34, 1999), Rock: O Grito e o Mito (Editora Vozes, 1973). Quando não está escrevendo, pilota um sax-tenor Selmer Mark VII

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