Um órgão pulsante

Eduardo Osório Rodrigues explica como o “imprevisível”, “incrível”, “surpreendente” e “definitivo Jimmy Smith deu alma ao seu instrumento fazendo dele a base sonora do soul jazz

Para ser lido ao som de Jimmy Smith plays Fats Waller
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Se ligue no som do Hammond, fique ligado em Jimmy Smith | Foto: MePaJa/CC BY-SA 4.0/Wikimedia Commons

O som do Hammond B-3 de Jimmy Smith (1925-2005) evoca o passado, lembranças de uma igreja popular, mas seu templo é outro – e a função do instrumento também. Nas mãos e nos pés ágeis do tecladista, o mini-órgão de dois teclados e uma pedaleira deixou de servir à música sacra para dar novo colorido ao jazz. Jimmy injetou suingue e criou novas possibilidades de timbres.

Conhecido pela sonoridade rica e singular, o órgão mudava de mãos e de ambiente. De fundo musical para cânticos religiosos passara a protagonista de uma revolução. Deixou o ambiente puro e iluminado das igrejas para ser absorvido pela atmosfera esfumaçada, e à meia-luz, dos clubes noturnos. Na plateia, em vez de fiéis, cultores de boa música ávidos por novidades. À medida que ouvimos a música do organista notamos a influência do gospel, do soul e do R&B, com referências ao bebop. Dessa mistura surgiu o soul-jazz, subgênero que explodiu nos anos 60.

Jimmy Smith não foi o primeiro organista do jazz, mas deu ao instrumento valor e relevância que ele nunca teve nas mãos de Fats Waller, que tocava órgão de tubos, Count Basie, Milt Buckner e, principalmente, de Wild Bill Davis, que introduziu o Hammond B-3 na cena jazzística. Outros músicos adotaram a engenhoca eletrônica inventada por Laurens Hammond, na década de 30, e reinventada por Jimmy a partir dos anos 50.
Nascido em Norristown, na Pensilvânia, James Oscar Smith aprendeu a tocar piano com os pais. Depois praticou sozinho até ser apresentado ao Hammond em 1951. Daí em diante o instrumento ficou associado ao seu nome.

Jimmy Smith
Smith gravou discos memoráveis em trios | Foto: Arquivo pessoal

As gravações para a Blue Note, nos anos 50, e para a Verve, na década seguinte, mostram o surgimento e a consolidação do estilo de um dos músicos mais talentosos e criativos de seu tempo. O organista não fez apenas uso inovador dos pedais e das barras de tração, criou uma paleta de cores sonoras específicas e fraseados novos para embalar velhas canções. A catarata de notas que jorra do seu teclado old fashioned hipnotizava plateias. Smith gravou discos memoráveis em trios (órgão-guitarra-bateria – ele fazia as linhas de baixo com os pés ou nos registros de baixo do órgão) e em outras formações, inclusive com orquestra, tendo a companhia de grandes músicos como os guitarristas Kenny Burrell e Wes Montgomery e os saxofonistas Lou Donaldson (alto) e Stanley Turrentine (tenor). Para a Blue Note, entre 1956 e 1963, foram mais de 30 álbuns. O período na Verve durou de 1963 a 1972 e rendeu outros 20 discos. Destacam-se: Midnight SpecialPrayer Meetin’Back At The Chicken ShackJimmy Smith Plays Fats Waller e Softly As a Summer Breeze, todos pela Blue Note. Bashin’ – The Inpredictable Jimmy Smith, primeiro disco do organista na Verve, tem arranjos de Oliver Nelson e pelo menos um clássico: Walk On The Wild Side.

Além do frescor musical, Jimmy trouxe um toque de humor pouco comum ao jazz. A capa dos seus LPs reproduzem a liberdade e a alegria que sentia. Impressas numa das faces, as fotos estão entre as mais engraçadas, criativas e bonitas do gênero que se notabilizou por valorizar a embalagem do produto. Jimmy aparece segurando guarda-chuvas, sentado ao lado de um dálmata e de um galo, pendurado em um vagão de trem ou sorridente em frente a uma colorida lanchonete de calçada. Sobrepostos aos títulos, adjetivos descreviam o autor da obra como “imprevisível”, “incrível”, “surpreendente” e “definitivo”.

Em O livro do Jazz – de Nova Orleans ao Século 21, o crítico alemão Joachim-Ernst Berendt explica como o instrumento é tocado. “O pé esquerdo toca os pedais, o pé direito controla o volume. A mão esquerda toca o baixo (junto com os pedais), enquanto a mão direita assume a parte melódica”. Agora, imagine fazer tudo isso ao mesmo tempo e extrair dessa combinação de movimentos grande arte? Só sendo louco ou baterista. Aliás, entre os instrumentos, o nível de coordenação exigida só é comparável ao dos homens das baquetas.

Sem ideias e músicas novas para registrar, Jimmy se afastou dos estúdios e passou a dedicar seu tempo a shows em clubes. Influenciou vários organistas, de Jimmy McGriff, Jack McDuff e Larry Young a Shirley Scott, Al Kooper e Joey DeFrancesco. E viu, nas décadas seguintes, o Hammond B-3 ganhar popularidade. Antes de morrer de causas naturais em 2005, aos 76 anos (ou 79, segundo outros registros), Jimmy Smith ainda teve a satisfação de ouvir os seus grooves sampleados por djs mundo afora.

Hoje, existem simuladores do instrumento que desempenham muito bem o seu papel com duas vantagens: preço e portabilidade. Além de serem mais baratos e menores, já que pesam entre 15kg e 20kg, em contrapartida aos 135kg de um antigo B-3, vêm com amplificador e alto-falante embutidos (caixa Leslie), o que dispensa mais um componente grande e pesado, essencial para o som clássico do órgão Hammond. Só não trazem consigo um músico como Jimmy Smith. Bem, mas aí já é querer demais.

 

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