A música das esferas

Márcio Pinheiro

À frente da Arkestra, Sun Ra abordava temas e preocupações da diáspora africana através da lente de tecnocultura

Texto para ser lido ao som de Purple Night, de Sun Ra
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Ilustração: Daniel Kondo

Ele costumava dizer que nasceu em Saturno, há mais de dois mil anos, mas na verdade, segundo a Enciclopédia do Jazz, de Ian Carr e Digby Fairweather, Herman Blount (ou Herman Lee) nasceu em Birmingham, Alabama, no dia 22 de maio de 1914. O nome original ele abandonou, preferindo tornar-se conhecido pelo apelido – Sun Ra – em homenagem ao deus sol egípcio. Neste dia 30 de maio, completam-se 25 anos desde que Sun Ra fez sua última viagem e foi ouvir a música das esferas. Vítima de insuficiência respiratória e de problemas circulatórios, Sun Ra morreu uma semana depois de completar 79 anos. Seus últimos dias de vida foram difíceis. Desde janeiro daquele ano, ele encontrava-se internado no hospital de sua cidade natal para onde havia retornado para ficar próximo da irmã. Muito debilitado pela doença, Sun Ra também estava afastado dos palcos, dos estúdios e de seus músicos. Havia feito sua última apresentação em dezembro, um mês antes de ser hospitalizado, quando esteve à frente da Arkestra para uma pequena temporada de shows no Knitting Factory, em Nova York.

Sun Ra começou pelo caminho tradicional, estudando em conservatórios, até chegar em Chicago nos anos 30, quando passou a integrar a orquestra de Fletcher Anderson – escola de nove entre dez músicos de jazz da época. Na década de 50 criou o que viria a ser sua contribuição definitiva para a história do jazz: a Sun Ra Arkestra, uma espécie de big band dedicada ao experimentalismo e ao trabalho com novas sonoridades.

Sua proposta radical despertou pouco interesse inicial nos Estados Unidos mas foi bem entendida pelos europeus e da Europa retornou para agora sim ser assimilada pelos seus conterrâneos. Pelas suas ideias, Sun Ra tornou-se um símbolo do afrofuturismo, uma proposta estética aliada à filosofia e à ciência, que combinava elementos de ficção-científica, fantasia, afrocentrismo e realismo mágico com cosmologias não-ocidentais. O afrofuturismo proposta por Sun Ra abordava temas e preocupações da diáspora africana através da lente da tecnocultura e ele definia sua música como uma tentativa de salvar o mundo. Suas composições frequentemente faziam referências à Bíblia, à mitologia, ao Egito Antigo e ao espiritismo.

Pouco antes de morrer, Sun Ra gravou o álbum Purple Night à frente de 22 músicos, aí incluídos alguns veteranos da Arkestra – Marshall Allen, John Gilmore e o percussionista brasileiro Elson Nascimento – e com formações pouco usuais com a utilização de três bateristas e dois contrabaixistas. O trompetista Don Cherry, ex-parceiro de Ornette Coleman, Charlie Haden e Gato Barbieri, compareceu com seu pocket-trumpet e, durante a sessão, sentou-se à direita de Sun Ra e seu piano.

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Ilustração: Daniel Kondo

Em mais de seis décadas de carreira, Sun Ra sempre teve um trabalho irregular nas gravações, constantes nas composições e diversificado nas propostas. Foi um dos mais irreverentes, audaciosos e inventivos compositores do jazz. Pegou o fim do swing, viu nascer o bebop, passou ao largo do cool jazz e do hardbop e, de certa maneira, foi um dos precursores do free jazz – porém nunca deixou-se rotular por nenhuma tendência e foi ainda criador de uma escola que começa e termina nele mesmo (permanecendo viva através da Arkestra que ainda lhe presta tributo musical).

Foi por quase toda a vida um marginal – no sentido mais belo e amplo da palavra.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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