Vibrante vibrafone

Ed Motta* estreia na AmaJazz homenageando Bobby Hutcherson, músico inventivo que transitava entre o lirismo e o abstracionismo

Texto para ser lido ao som de Montara, de Bobby Hutcherson
Foto: Stephborel [Public domain]/Wikimedia Commons
Primeiros sons: o jovem Bobby Hutcherson acompanhado de Roger Dawson (bateria), Herbie Lewis (contrabaixo) e Nat Brown (piano) em janeiro de 1957 | Foto: Stephborel [Public domain]/Wikimedia Commons

Bobby Hutcherson começou como sideman em discos de músicos que na linguagem jazzística procuravam novos horizontes, música livre. O pianista Andrew Hill e o saxofonista Eric Dolphy foram dois encontros que colocam o vibrafone de Hutcherson entre as cabeças do chamado “new thing”, mais tarde post-bob, free jazz, etc. Em 1964, Bobby empresta seu talento a um disco que se equivale no cinema ao Acossado, de Godard – o divisor de águas Out To Lunch, de Eric Dolphy. No ano seguinte grava seu primeiro disco, Dialogue, pelo selo Blue Note, tendo Andrew Hill como braço direito e grandes músicos como o trompetista Freddie Hubbard e o saxofonista Sam Rivers, um dos meus favoritos.

Hutcherson tem forte base nos conceitos do free jazz, mas é um compositor inspirado em temas doces como seu grande clássico Little B’s Poem que anos depois teve versão com letra do organista Doug Carn e sua mulher, a diva soul jazz Jean Carn. Bobby tem trânsito livre no lirismo e no abstracionismo assim como o saxofonista Jackie McLean, ou mesmo o famoso Freddie Hubbard que gravou obras mais densas e outras mais comerciais.

Seguiu nos anos 60 e 70 gravando grandes discos como Oblique (1967), Total Eclipse (1968) e Montara (1975), usando efeitos no vibrafone, flertando com a música latina e o soul, e participando de discos antológicos como os do saxofonista Harold Land para o selo Mainstream, nunca lançados em CD.

Bobby Hutcherson é dos jazzistas que optaram pelo caminho verdadeiramente artístico, quase sempre interpretando seus próprios temas e ideias, e não a enésima versão de Body and Soul ou Stella by Starlight. Presto minha homenagem a Bobby Hutcherson citando a seguir meus cinco discos favoritos:

Components (1965, Blue Note)

O segundo disco, com uma formação maior, Freddie Hubbard, trompete; James Spaulding, sax e flauta; Herbie Hancock, piano; Ron Carter, baixo e Joe Chambers, bateria.A valsa jazz Little B’Poem com solos de Hutcherson, James Sapuding e Hancock, respectivamente.

Oblique (1967, Blue Note)

Na faixa título Oblique Bobby Hutcherson conta porque é dos vibrafonistas harmonicamente mais avançados do jazz. O tema é do baterista Joe Chambers.

Now! (1969, Blue Note)

O disco mais diferente dele, influência de soul, rock, broadway… As participações nos vocais e letras de Eugene McDaniels e Harold Land no sax são joias da música de fusão do começo dos anos 70. Já ouvi essa faixa Slow Change num café em Osaka, no Japão, e quase tive um treco.

Montara (1975, Blue Note)

O álbum que namora com os ritmos latinos, referência de um grande disco de latin jazz. A faixa título Montara é um mantra à la Roy Ayers.

Waiting (1976, Blue Note)

Fase dos anos 70 com o grande pianista Geoge Cables e o saxofonista Hadley Caliman. O tema Prime Thought é sucesso nas pistas de soul jazz.

* Ed Motta é cantor, compositor, produtor musical

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