O ovo de Coltrane

Roberto Muggiati* atuou como observador de um momento mágico que nada tinha a ver com música e que tinha tudo a ver com música

Texto para ser lido ao som de John Coltrane em My Favorite Things
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Ilustração: Gilmar Fraga

No recente Festival de Lacan que Assolou o País, em meio a toda a teorização, alguém escreveu algo interessante, um raro insight (psicanalistas adoram esta palavra) do grande homem, apanhado em sua casa no ato prosaico de comer um ovo duro. Vamos abstrair totalmente a ideia do ovo como a origem do mundo, em qualquer Dicionário de Símbolos ele ocupa sempre mais de dez páginas. E vamos ficar com o ovo que a galinha bota, presente nas melhores (e piores) cozinhas e servido (às vezes com a casca colorida) nos balcões dos melhores (e piores) botequins. Existiria, assim, uma espécie de Teste do Ovo Duro para Homens Notáveis e eu tive a sorte de presenciar um momento mágico desta tradição na noite de 18 de novembro de 1961, um sábado, numa épicerie da rue Caumartin, em Paris. Era um estabelecimento acanhado, uma simples porta, mas estrategicamente situado, ao lado do Teatro Olympia. Lá dentro, num elegante smoking, o saxofonista John Coltrane exercitava os dedos e os dentes num ovo duro. Do lado de fora, uma multidão de fãs se comprimia para ver, através do vidro, o espetáculo, que nada tinha a ver com música e que tinha tudo a ver com música. Era o intervalo na primeira apresentação parisiense do quinteto de John Coltrane, em sua primeira turnê europeia. Revigorado pelo ovo, Coltrane voltou ao palco e atacou My Favorite Things com o companheiro de sopros Eric Dolphy à flauta, McCoy Tyner ao piano, Reggie Workman no baixo e a máquina rítmica do baterista Elvin Jones.

Tudo isso vem a propósito dos 40 anos do lançamento do álbum My Favorite Things, que mudou a história do jazz – e por que não? – da música. Foi o grande salto estilístico, o point-of-no-return, o divisor-de-águas, a cesura epistemológica (já que Lacan entrou na história) e o passo de gigante (para citar um tema de Coltrane). O impressionante é que toda esta revolução se fez tomando por base uma canção de um musical da Broadway, The Sound of Music, que fazia sucesso em 1960 com Mary Martin e se tornaria megasucesso em 1965 com Julie Andrews, no filme que no Brasil se chamou A Noviça Rebelde. Mas não vamos depreciar. Primeiro, a melodia de Richard Rodgers, em tempo de valsa – o clássico 3/4 – é belíssima e a letra de Oscar Hammerstein II é poesia pura, cinematográfica, num inglês musical, intraduzível: Girls in white dresses in blue satin sashes/ snowflakes that stay in my nose and eyelashes/ silver white winters that melt into spring/ these are a few of my favorite things… Coltrane, apesar do vanguardismo da sua interpretação, seguiu a regra de ouro ditada por Lester Young, de que o improvisador de jazz, mesmo tocando num instrumento, devia não só conhecer, como ter sempre na cabeça a letra da canção. Lester, na estrada, carregava sempre sua vitrola com discos de Sinatra.

Mas o foco de Coltrane está no instrumento e um fato marcante é que, depois de mais de dez anos exclusivamente com o sax tenor, em fevereiro de 1960 ele comprou um sax soprano. E três meses depois já o tocava na sua primeira temporada como líder numa casa do Village, em NY, depois de se “emancipar” da banda de Miles Davis. Da família dos saxofones, o soprano era uma espécie de filho rebelde, domado apenas por Sidney Bechet, o veterano de Nova Orleans, e por Steve Lacy, um modernista que nunca tocou outro sax que não o soprano. Mas o soprano de Coltrane, seco, sem nenhum vibrato, tinha quase o timbre do oboé e se prestou admiravelmente a suas incursões pela música oriental, particularmente a indiana (Coltrane e seu pianista McCoy Tyner, chegaram a ter um álbum agendado com o sitarista Ravi Shankar. O disco não saiu, mas ficaram amigos e o filho saxofonista de Coltrane leva o nome de Ravi).

My Favorite Things chegou às mãos de Coltrane por acaso, no meio de uma pilha de partituras trazidas por um freqüentador do clube do Village onde ele se apresentava com um trio que não o satisfazia. Se o baixista (Steve Davis) funcionava, o pianista e o baterista estavam totalmente deslocados. Mas tudo se encaixou à perfeição para as gravações de outubro de 1960, com McCoy Tyner ao piano e Elvin Jones à bateria. Tyner descreve o quarteto: “Aquele grupo era como quatro pistões num motor. Trabalhávamos todos para fazer o carro andar”. O introvertido Coltrane não dava instruções, deixava a intuição dos músicos funcionar livremente. Usava a tática do ovo de Colombo: uma coisa difícil à primeira vista que se torna fácil depois de ser demonstrada por outra pessoa. Ainda Tyner: “A música era muito simples e no entanto complexa ao mesmo tempo. O que me faz lembrar a própria vida”.

O álbum My Favorite Things, lançado em março de 1961, incluía outros três standards: dois de Gershwin (SummertimeBut Not For Me) e um de Cole Porter (Everytime We Say Goodbye). Coltrane aparecia na capa empunhando o sax soprano, sinalizando, no novo instrumento, um novo caminho (a partir daí, a maioria dos saxofonistas adotou também o soprano). Um dado curioso é que esta obra–prima já nasceu pronta. Na caixa definitiva The Heavyweight Champion/John Coltrane – The Complete Atlantic Recordings, muitos temas aparecem em alternate takes,, mas só há uma versão de My Favorite Things, a primeira e a definitiva, com a duração de 13’41. Nas interpretações ao vivo, o tema geralmente se estendia, ultrapassando muitas vezes a marca dos 30 minutos, particularmente nas turnês e apresentações em que o quarteto era acrescido de Eric Dolphy, o genial saxofonista, flautista e clarinetista, com seu perfil de príncipe etíope, alma irmã de Coltrane e que tinha com ele uma profunda identidade musical.

Paris em novembro de 1961 vivia à beira do abismo. A libertação da Argélia era iminente (ocorreria dali a sete meses) e o terror de direita reagia com uma série de atentados: as bombas explodiam na capital por toda parte a toda hora. A música amenizava a crise. O Olympia, de templo da chanson se transformara na Casa do Jazz (ouvi ali, naquela temporada, entre outros, Gerry Mulligan, Modern Jazz Quartet, Cannonball Adderley, Jazz Messengers, Thelonious Monk). E as apresentações de Coltrane e Dolphy nos dias 18 e 19 entraram para a história. No jazz o gênio costuma ser breve: Dolphy morreria três anos depois, em Berlim, aos 36; Coltrane, em 1967, aos 40 anos.

Lacan sabia descascar com muita classe um ovo duro. Não vi Coltrane descascar o seu, acho que o ovo lhe foi servido já sem a casca na épicerie da rue Caumartin. O jazz de hoje não tem mais Coltrane, nem Dolphy, e é tocado com competência por gente como os Marsalis, bons meninos que aprenderam bem a lição. Mas alguém seria capaz de se emocionar ao ver Wynton Marsalis comendo um ovo duro?


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Foto: Domício Pedroso/Arquivo pessoal

Este texto, publicado originalmente em 16 de maio de 2001 no extinto site NO., faz parte das memórias de Roberto Muggiati, o jovem rapaz aí da foto ao lado diante da rosácea da Notre-Dame, em novembro de 1961. “O jornal debaixo do braço”, lembra Muggiati “era como eu ficava sabendo do jazz que rolava”, acrescenta. “Por exemplo: na manhã em que cheguei a Paris, tomando um café com croissant na terrasse da Gare d’Austerliz, depois de 20 horas de trem (viagem iniciada em Madri), fiquei sabendo que ia haver um concerto no Théâtre des Champs Élysées em homenagem ao recém-falecido Oscar Pettiford. Peguei um táxi para a Maison du Brésil, na Cité Universitaire (minha primeira morada em Paris), joguei as malas no chão do quarto e parti para o teatro, a fim de garantir o ingresso para meu primeiro concerto e ouvir cobras como Bud Powell, Kenny Clarke e o saxofonista Lucky Thompson”. Muggiati recorda ainda que a foto foi feita por um grande amigo, já morto, Domício Pedroso, pintor e fotógrafo curitibano que fez um ensaio sobre Paris.


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