Miles Davis e o silêncio ao redor

Márcio Pinheiro

No dia em que completaria 92 anos, o trompetista que mais comandou revoluções no jazz é lembrado através de um de seus discos mais importantes e do livro que dele se originou

Para ser lido ao som de Kind of Blue, obviamente
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Ilustração: Gilmar Fraga

Foram apenas dois dias de gravações que resultaram em 45 minutos que resumem um dos pontos mais altos da história da música popular. O relato desse encontro histórico, que reuniu um grupo de sete músicos comandados pelo trompetista MilesDavis, está nas 256 páginas do livro Kind of Blue – A História da Obra-Prima de Miles Davis, de Ashley Kahn, com tradução de Patricia de Cia e Marcelo Orozco. O jornalista americano, que já foi editor de música do canal VH1, recupera os bastidores das gravações e conta detalhes importantes da história do jazz e da vida cultural da Nova York nos anos 50 e 60.

No dia 2 de março de 1959, sete músicos entraram em uma velha igreja em Nova York que havia sido transformada em estúdio. Não tinham muita certeza sobre o que pretendiam gravar. O líder, Miles Davis, tinha algumas ideias, que foram ampliadascom os palpites dos saxofonistas John Coltrane, Cannonball Adderley e, principalmente, do pianista Bill Evans – os outros músicos eram o contrabaixista Paul Chambers, o baterista Jimmy Cobb e o pianista Wynton Kelly.

O trabalho de Kahn começa com um foco amplo, destacando a figura de Miles – sua infância sem traumas (ao contrário de muitos outros músicos de jazz), sua formação musical, sua proximidade com Charlie Parker e Dizzy Gillespie, seu envolvimento com drogas e sua capacidade em transitar por vários estilos musicais. Depois, o autor faz um ajuste de sintonia para se deter apenas ao que diz respeito a Kind of Blue. Kahn mostra que é possível enxergar melhor o mundo do jazz apenas através de um detalhe.

É aí que o livro cresce, principalmente pela exaustiva pesquisa que esmiúça faixa a faixa, solo a solo, músico a músico, além de trazer comentários sobre o local e a técnica de gravação, a produção da foto da capa, a feitura do texto da contracapa e oscomentários das pessoas envolvidas.

Obra perfeita, da concepção (com exceção de uma faixa, tocada duas vezes, tudo foi registrado no primeiro take, de maneira espontânea) ao lançamento, Kind of Blue até hoje surpreende quem ouve. Ou, como diz o autor logo nas primeiras páginas, é um álbum que simplesmente tem o poder de silenciar tudo ao seu redor.

Sete homens e um disco

Miles Davis – Líder do conjunto que gravou Kind of Blue, Miles Davis é um dos personagens mais importantes do jazz, com atuação decisiva no bebop, cool jazz e no jazz rock. Deixou obras históricas como In a Silent Way, Bitches Brew e Sketches of Spain. Morreu em 1991.

John Coltrane – Depois que deixou o grupo de Miles, Coltrane, nascido em 1926, se transformou em um dos maiores saxofonistas da história, revolucionando o jazz com discos como A Love Supreme, My Favorite Things e Giant Steps. Morreu em1967.

Cannonball Adderley – Sax-alto nascido na Florida em 1928. Além de Miles Davis tocou com John Coltrane, Thelonious Monk e Joe Zawinul. Nos anos 60 esteve no Brasil e gravou um disco com repertório bossa-novístico. Morreu em 1975.

Bill Evans – Um dos mais influentes pianistas surgidos no jazz, Evans, nascido em 1929, foi o primeiro de uma escola que inclui ainda Chick Corea, Herbie Hancock e Keith Jarrett. Gravou discos importantes como Conversations With Myself e Waltz for Debby. Morreu em 1980.

Wynton Kelly – Pianista jamaicano nascido em 1931, Kelly começou a carreira musical ainda adolescente tocando em grupos de rhythm & blues. Tocou também com a big band de Dizzy Gillespie e com os conjuntos de Dinah Washington e CharlesMingus. Morreu em 1971.

Paul Chambers – Um dos mais importantes contrabaixistas da história do jazz, Chambers, nascido em 1935, tocou ainda com John Coltrane, Joe Henderson, Milt Jackson e Wes Montgomery. Morreu em 1969.

Jimmy Cobb – Único sobrevivente da histórica sessão, Cobb, 89 anos, também tocou em outros discos de Miles Davis como Sketches of Spain, Someday My Prince Will Come, Live at Carnegie Hall e Live at the Blackhawk. Continua na ativa e desde 2011 lidera a Jimmy Cobb “So What” Band.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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