Noites de guitarra e bourbon

Lucio Brancato* escreve sobre seu rápido (e inesquecível) contato com Larry Coryell no Ronnie Scott’s, em Londres

Texto para ser lido ao som de Ms Julie, do álbum Twin House, de Larry Coryell & Philip Catherine

Muitos fãs de rock começaram a ouvir jazz a partir dos discos da turma do jazz-rock dos anos 70, principalmente os guitarristas. Querendo saber mais sobre as fontes de cada um caímos em nomes como Joe Pass, Wes Montgomery e Django Reinhardt. A partir daí todo um novo universo musical se abre. Para mim, o que se abriu foi Larry Coryell (1943 – 2017) e, em menor escala, Philip Catherine. Num primeiro momento, pela alta disponibilidade de material do guitarrista texano no mercado. O britânico Catherine – que ficou conhecido como um guitarrista belga pois foi ainda muito criança morar com a família em Bruxelas – sempre teve um alcance menor.

Larry Coryell, assim como muitos guitarristas nascidos no pós-guerra, começou seu caminho em bandas de rock e pop no começo da década de 60. Dizia que seu primeiro contato com o jazz veio de discos que seu professor de guitarra deixou com ele: Les Paul, Kenny Burrell e Wes Montgomery. Quando foi estudar em Nova York, em 1965, seus horizontes se expandiram ao ouvir composições de Debussy, Ravel e Bartok. Toda esta salada de referências culmina no seu primeiro disco em 1968. Em Lady Coryell, o jovem de apenas 25 anos demonstra toda sua habilidade e eletricidade num álbum que pode estar entre os pilares do jazz-rock e onde Coryell demonstra uma de suas principais características como músico: fazer boas escolhas de parceiros, no caso  Jimmy Garrison (contrabaixo) e Elvin Jones (bateria). Nos anos seguintes, Larry Coryell desenvolveria parcerias históricas com figuras como Stephane Grappelli, Paco de Lucia, John McLaughlin e Alphonse Mouzon

image (3)Twin House (1976) apresenta um duo de violões em verdadeiras batalhas. No ringue montado no Olympic Sound Studios, de Londres, temos no canal esquerdo Larry e no direito Philip Catherine. No total são seis faixas que trazem uma síntese de composições da dupla que vão de uma leveza harmônica e melodias tranquilas a verdadeiras provas de velocidade e técnica nas cordas dos violões de 6 e 12 cordas usados na gravação. A parceira deu tão certo, foi sucesso imediato e voltou a se repetir dois anos depois no disco Splendid (1978).

A partir de então me interessei ainda mais pela obra de Coryell. Em 2008, conferi um show dele no lendário Ronnie Scott’s Jazz Club, em Londres. Eis que finalizada a apresentação, ele e seu trio (contrabaixo e bateria) surgem no balcão na saída do clube. Esperei um pouco a turma que estava ao redor dele diminuir e colei ao seu lado. Cheguei de cara como um “bom brasileiro” anunciando minha nacionalidade. Isso foi bem pensado e estratégico. Já sabia de sua forte relação com a música brasileira desde quando gravou em 1992 o disco Live From Bahia, com participações de Dori Caymmi e Nico Assumpção. No show que vi, ele também havia incluído no repertório uma música brasileira, Vera Cruz, que ele havia descoberto por indicação de seu amigo Toninho Horta. Conversamos mais um pouco e ele até brincou me perguntando se ele tinha se saído bem na interpretação. Respondi que havia sido maravilhoso, embora não me lembre se foi bom ou ruim. Antes de voltar ao camarim num bom “portuinglês”, Coryell me disse: “Desculpa no haver caipirinhas but you wanna something para beber?”. E ligeiro como seus solos tasquei “Claro, bourbon please”. Assim terminou meu encontro único encontro com Coryell: com ele me pagando uma dose de bourbon no Ronnie Scott’s.

*Lucio Brancato é roqueiro, jornalista e conselheiro da AmaJazz. Apresenta o “Cultura na Mesa” e o “Cultura Rock Show”, pela FM Cultura 107.7

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s