Fogo, ar, metafísica

Roberto Muggiati* estreia na AmaJazz falando de três músicos, autênticas forças da natureza, que deram à bateria uma nova dimensão como instrumento jazzístico

Para ser lido ao som de:
Jo Jones em Caravan
Kenny Clarke em Love Me or Leave Me
Philly Joe Jones em Showcase
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Ilustração: Gilmar Fraga

Eles sempre causaram confusão, na vida e na morte. Não só pelos nomes, quase iguais, como por exercer, a mesma (esdrúxula) atividade: baterista de jazz. “Philly” Joe Jones, 62 anos, morreu primeiro(no dia 30 de agosto de 1985); quatro dias depois foi a vez de Jo Jones, 73. Jonathan (Jo) Jones também cantava e sapateava e, além da bateria, tocava sax e trompete e piano. Era conhecido como o “homem que toca como o vento”, pelos ritmos mais leves e relaxados que introduziu na big band numa época em que os bateristas eram pura força. Veterano da orquestra de Count Basie, Jo foi um dos mais típicos representantes de uma época e de um estilo privilegiados: o swing de Kansas City. Ele mesmo contou: “Havia lugares em KC que nunca fechavam. A gente estava dormindo, às seis da manhã, quando uma orquestra em turnê passava pela cidade por algumas horas e então íamos tocar com eles até às oito. Eu nunca sabia a que horas da madrugada viriam bater à minha porta e me convocar para uma jam session que rolava a poucos quarteirões dali”. Joseph Rodolph (“Philly” Joe) Jones abriu o jazz para um estilo mais dinâmico e moderno, dosando admiravelmente força, inteligência e emoção. Philly Joe fez parte do mais famoso grupo de Miles Davis, no final dos anos 50. Fica a frase famosa de Miles sobre seu ex-baterista: “Eu não me importaria se ele surgissse no palco de cuecas e só com um braço, contanto que estivesse lá. Ele tem o fogo de que preciso….”.

Já Kenny Clarke sempre manteve algo de metafísico em seu toque. Ele foi o principal criador da sintaxe moderna da bateria e, ao contrário de colegas como Max Roach e Art Blakey, que escolheram explorar todo o arsenal de efeitos de seu instrumento, Klook (que morreu em Paris, aos 71, em janeiro de 1985) foi um minimalista, usando a bateria com economia e precisão para romper, com sua fabulosa sensibilidade rítmica, os padrões da batida quadrada que vigoravam até a Era do Swing. Uma de minhas grandes emoções jazzísticas foi chegar a Paris depois de uma noite num trem, em 1960, e ir ouvir Kenny Clarke num estranho concerto vespertino em memória a Oscar Pettiford no Théâtre dês Champs Elysées. Lá estava ele, sóbrio como sempre, empurando com as escovinhas Bud Powell em sua frenética viagem pelo piano. Bud e Clarke eram dois negros exilados vivendo em Paris e formavam com Pierre Michelot, o “trio da casa” do Blue Note. Era o melhor clube de jazz de Paris e, quando sobrava um dinheirinho, eu ia lá, curtir os lances telepáticos de Bud e Kenny. Kenneth Spearman Clarke (adotou também o nome muçulmano de Liaqat Ali Salaam) foi um dos fundadores do Modern Jazz Quartet, em 1952 – o MJQ, que fundiu blues com Bach. Ouçam o seu trabalho em Django, com destaque para a suíte La Ronde. Ouçam também (no LP de Miles Davis, Tallest Trees) sua atuação na lendária sessão da véspera de Natal de 1954 com os Modern Jazz Giants (Miles, Monk e os companheiros de MJQ, Milt Jackson e Percy Heath): e seu lado mais intimista em Bud Powell/A Portrait of Thelonious. Um imortal do jazz.

*Roberto Muggiati é jornalista desde os anos 50, foi editor-chefe da revista Manchete por mais de duas décadas e é autor de livros como Blues: da Lama à Fama (Editora 34, 1995), New Jazz: de Volta para o Futuro (Editora 34, 1999), Rock: O Grito e o Mito (Editora Vozes, 1973). Quando não está escrevendo, pilota um sax-tenor Selmer Mark VII

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