Roth é jazz

André de Godoy Vieira* homenageia o escritor com uma de suas passagens literárias em que cita sua paixão por Benny Goodman

Para ler ao som de Body and Soul, com Benny Goodman Trio
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Philip Roth morreu aos 85 anos, em Nova York Foto: Divulgação

Numa das muitas passagens inesquecíveis de O Teatro de Sabbath, romance de Philip Roth considerado por muitos – inclusive por ele próprio – sua realização mais notável, o protagonista Mickey Sabbath, velho titereiro libertino, recorda a ocasião em que conhecera Christa, jovem estudante alemã a quem recrutaria para os jogos sexuais que mantinha com sua parceira de depravações e licenciosidades, a adúltera Drenka Balich. Dirigindo a altas horas da noite pela estrada 144, nas proximidades da pacata Madamaska Falls, cenário onde transcorre grande parte da trama, Sabbath avista a garota recostada a uma mureta ao pé da via e, com a curiosidade excitada por sua figura singular, “uma jovem loura de smoking”, oferece-lhe uma carona até em casa. Durante o trajeto, após uma primeira troca de impressões, Sabbath, surpreendido pela atenção da jovem à música que rodava no toca-fitas do Chevy – a histórica gravação da big band de Benny Goodman em 1938 no Carnegie Hall, quando as portas do templo sagrado da música erudita em Nova York se abriram pela primeira vez ao jazz –, decide investir no feitiço orgiástico daquela performance grupal de swing para tentar manipular eroticamente os sentimentos da jovem tal como fazia com os fantoches do seu obsceno espetáculo de marionetes.

image (3)Em tributo a Philip Roth, gigante da literatura do século 20 falecido neste dia 23 de maio, autor de cuja América narrada era o jazz personagem onipresente, a AmaJazz reproduz a seguir dois fragmentos da aludida passagem de O Teatro de Sabbath, traduzido por Paulo Henriques Britto para a editora Companhia das Letras.


Enquanto dirigia, ele ouvia uma fita de Benny Goodman, Ao vivo, no Carnegie Hall. Ele e Drenka haviam acabado de se despedir, após passar a noite no motel Bo-Peep, uns trinta e dois quilômetros ao sul pela estrada 144.

— São negros? — perguntou a moça alemã.

— Não. Alguns poucos são negros, senhorita, mas na maioria são brancos. Músicos brancos de jazz. Carnegie Hall, em Nova York. Na noite de 16 de janeiro de 1938.

— Você estava lá? — ela perguntou.

— Sim. Levei meus filhos, meus filhos pequenos. Assim poderiam estar presentes naquele momento crucial da história da música. Queria que eles estivessem ao meu lado, na noite em que a América ia mudar para sempre.

Juntos, eles ouviam “Honeysuckle Rose”, os rapazes de Goodman improvisando, somados a meia dúzia de membros da banda de Count Basie.

— Isso é balanço — Sabbath explicou. — É o que se chama “mexe o pé”. Faz o pé da gente ficar se mexendo… Está ouvindo essa guitarra no fundo? Percebe como a seção rítmica da orquestra vai conduzindo os músicos?… Basie. Um jeito muito enxuto de tocar piano… Está ouvindo essa guitarra aí? Empurrando para a frente… Isso é música negra. Agora você está ouvindo música negra… Agora você vai ouvir um refrão. É o James… Por trás disso tudo está a firme seção rítmica, segurando tudo nas costas… Freddie Green na guitarra… James. Tenho sempre a sensação de que ele está estraçalhando o instrumento, dá para sentir o instrumento sendo feito em pedaços… Essa ideia que eles estão agora apenas esboçando… Olhe como agora completam o desenho… Estão abrindo caminho para o desfecho. Está vindo. Agora estão todos sintonizados uns nos outros… Chegaram ao fim. Chegaram ao fim… Bem, o que você acha disso tudo? — perguntou Sabbath.

— É igual à música dos desenhos animados. Sabe como é, aqueles desenhos para crianças, na tevê?

— Ah, é ? — exclamou Sabbath. — E na época as pessoas achavam até excitante. O velho estilo de vida inocente… Para toda parte que você olhar, exceto esta nossa cidadezinha modorrenta aqui — disse Sabbath, acariciando a barba —, vai ver o mundo em guerra contra ele.

(…)

O trio — Benny, Krupa, Teddy Wilson no piano. “Body and soul”. Muito sonhadora, muito dançante, a música, de fato deliciosa, até o encerramento, com as três bumbadas na bateria de Krupa. No entanto, Morty [irmão de Mickey Shabbath morto na II Guerra Mundial] sempre achava que os lances pirotécnicos de Krupa acabavam estragando tudo. 

— Era só ficar no suingue — dizia Morty. — Krupa foi a pior coisa que aconteceu a Goodman. Espalhafatoso demais — e Mickey repetia essas palavras na escola, como se fosse sua própria opinião. Morty dizia: — Benny nunca tem acanhamento de interromper os outros no meio da música — e Mickey repetia isso também. — Um esplêndido clarinetista, nenhum outro consegue chegar perto dele — e isso também Mickey repe tia… Estava imaginando se aquilo não poderia amolecer essa moça alemã, aquela cadência da madrugada, que induz ao langor, e aquela coisa insinuante, arrebatadora no jeito de Goodman tocar, e assim durante três minutos ele nada falou para Christa e, entregues à coerência sedutora de “Body and soul”, os dois seguiam em meio à escuridão das montanhas reflorestadas. Ninguém em volta. Também era sedutor. Sabbath podia levá-la para onde quisesse. Podia dobrar na esquina do Shear Shop, levá-la para Battle Mountain e estrangular e matar essa moça, metida no seu smoking . Uma cena à maneira de Otto Dix. Talvez não na simpática Alemanha, mas na cínica e exploradora América, ela corria um risco ao ficar na estrada, vestindo aquele smoking. Ou teria corrido um risco, caso fosse apanhada por um americano mais americano do que eu.

“The man I love”. Wilson tocando Gershwin como se Gershwin fosse Shostakovich. Um jeito misterioso e soturno de Hamp, no vibrafone. Janeiro de 1938. Eu tinha quase nove anos, Morty ia fazer catorze. Inverno. Na praia junto à avenida McCabe. Ele me ensinava a técnica de lançamento de disco na praia vazia, depois da escola. Interminável.


André de Godoy Vieira* é tradutor, revisor, baterista e conselheiro da AmaJazz

 

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