Bebop entre calotes e roubos

Juarez Fonseca* viaja no tempo para recordar as confusões envolvendo joias e cheques sem fundo na primeira vinda de Dizzy Gillespie a Porto Alegre

Texto para ser lido ao som de Carter, Gillespie Inc., disco de 1976
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Ilustração: Gilmar Fraga

Uma incrível história envolveu Dizzy Gillespie e Hermeto Pascoal em Porto Alegre em 1979. Eles fariam um show duplo nos dias 8 e 9 de dezembro de 1979, no Teatro Presidente, mas esse show não aconteceu devido a uma série de contratempos. Contei as atribulações involuntárias dos dois grandes músicos em texto publicado dia 11 na capa de ZH Variedades (mais tarde Segundo Caderno) e reproduzido aqui. Não contei que durante quase meia hora fiquei sentado ao lado de Dizzy na portaria do Kohlmann Hotel, trocando monossilábicas impressões com ele, puto da cara com tudo aquilo. Mas o episódio ainda ganharia ares de tragicomédia porque, no mesmo dia 11, só que nas páginas da cobertura policial, Zero Hora publicava a não menos incrível história da prisão de um músico do grupo de Hermeto, o percussionista Alyrio Lima, flagrado engolindo pedras preciosas em uma joalheria.

Talvez entediado por não ter o que fazer, na manhã de segunda-feira, dia 10, Alyrio saiu do Kohlmann Hotel, na Rua Coronel Vicente, subiu até a Alberto Bins e, olhando a vitrina da Joalheria Rocha, resolveu embarcar em uma aventura. Entrou, pediu para ver os mostruários e, sem que o balconista se desse conta, engoliu duas pedras. Na continuação do passeio, chegando à Rua da Praia, uma coincidência: avistou a matriz da joalheria, entrou, pediu para ver o mostruário e foi mais ousado, engolindo quatro pedras. Desta vez não teve sorte, sendo flagrado pelo balconista, que chamou o segurança, que chamou a polícia. Na delegacia, um problema: ninguém pode ser responsabilizado pelo crime de furto sem que exista o objeto roubado. A solução foi aguardar que Alyrio “devolvesse” as gemas, providenciando para ele refrigerantes, sanduíches e um laxante. Vale lembrar que Alyrio já era um músico respeitado nos Estados Unidos, onde vivia e tocava com grandes nomes do jazz, como o Weather Report.

Mas por que Dizzy e Hermeto não tocaram em Porto Alegre?

A essa altura, todos já sabem que não aconteceram as duas apresentações de Dizzy
Gillespie e Hermeto Pascoal em Porto Alegre, sábado e domingo. Mas nenhuma emissora de rádio ou jornal informou os detalhes e os verdadeiros motivos do cancelamento. Tudo começou na sexta-feira, com a suspensão da entrevista coletiva marcada para as 19h, porque na manhã do dia seguinte os músicos ainda não haviam saído de Buenos Aires, onde se apresentaram nos dias 4, 5 e 6. Um telefonema às redações informou que eles haviam perdido o avião mas, na verdade, Hermeto, Dizzy e seus grupos estavam com a bagagem retida pela direção do hotel onde se hospedaram. Motivo: a empresa promotora do espetáculo não pagara o hotel. Afinal, eles conseguiram viajar, após a interferência das embaixadas brasileira e norte-americana, e deveriam vir para Porto Alegre, mas foram parar sabem onde? No Rio de Janeiro.

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Canja do show que não houve: músicos das bandas de Dizzy Gillespie e de Hermeto Pascoal numa animada jam no Big Som. A foto também é de Juarez Fonseca, testemunha ocular e auricular da história

Depois da informação de que a coletiva de imprensa não se realizaria, todos os outros relatos passaram a ser contraditórios. Primeiro, disseram que os músicos estavam aguardando lugares nos voos do centro do País para cá e que chegariam a Porto Alegre no sábado à tarde. Depois, chegou a informação de que não mais viriam sábado e que, portanto o espetáculo do dia estava cancelado, mas que no domingo pela manhã os músicos estariam aqui. Isso de fato aconteceu: por volta das 11h, um dos representantes da empresa promotora, a Arco-Íris Arte e Música, avisou que os músicos estariam no Teatro Presidente a partir das 13h, ensaiando (aliás, a promotora não havia tratado nem do equipamento de som, alugado e montado às pressas entre sábado e domingo). Mas nem Hermeto ou Dizzy compareceram e, às 21h, um representante da Arco-Íris entrou no palco vazio e, diante de um público de cerca de 300 pessoas, disse que não haveria espetáculo e que os produtores assumiam a inteira responsabilidade por tudo. Motivo: instrumentos e até bagagens pessoais dos músicos estavam retidos no aeroporto Salgado Filho, porque os produtores-empresários não tinham dinheiro para pagar a taxa relativa do excesso de peso.

Enquanto isso, no Hotel Kolman, Hermeto, Dizzy e os músicos estavam completamente confusos, sem qualquer explicação da Arco-Íris. E sem dinheiro. O produtor-empresário Willer de Mattos não apareceu. Dizzy afirmava não entender o que acontece com a América do Sul: “Não sei se é problema de dinheiro ou o quê, e se fosse isso eu até já teria pago. O que eu sei é que pego a minha passagem e volto logo para Nova York. Da última vez em que estive no Brasil, houve o mesmo problema, com um empresário argentino. Já Hermeto culpava diretamente o empresário e anunciava que o roteiro do Projeto Arco-Íris (depois de Porto Alegre eles iriam para Curitiba, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Rio) estava cancelado por parte dos músicos. “Não confio mais, de jeito nenhum. Não vamos mais tocar, porque sabemos que não seremos pagos. A gente gosta e quer tocar, mas o que fazer diante de uma situação dessas? Desde Buenos Aires sentimos que não ia acabar bem. Lá, a gente comia uma vez por dia e tinha que andar atrás da produção pedindo dinheiro para a alimentação. E no último dia, quando retiveram a nossa bagagem no hotel, não comemos. Em consideração aos pedidos da Embaixada Brasileira, a direção do hotel permitiu que dormíssemos mais uma noite lá, até que fosse resolvido o problema do avião. Fomos jantar e o garçom parecia até meu inimigo, disse que tinham ordens para não nos dar comida e que só podíamos dormir aquela noite no hotel”.

E assim se conta mais uma história de imprevidência, inexperiência e irresponsabilidade ligada a um empresário brasileiro, expondo artistas a situações de humilhação, prejuízo econômico e desprestígio. Não há nenhum sinal de que Hermeto, Dizzy e seus grupos serão reparados. E, diante de toda a situação que se formou da sexta-feira até o domingo, eles só tiveram uma saída: partir para outra. Com exceção de Dizzy, que ficou no hotel, todos os demais foram jantar no bar e restaurante Big Som e “dar canja”: não houve música no teatro, mas quem estava na casa da Cidade Baixa teve a ótima surpresa de ouvir jazz e música brasileira da melhor qualidade, com Hermeto, seus músicos e os músicos de Dizzy. O representante da gravadora WEA em Porto Alegre pagou a despesa do grupo de Hermeto e o proprietário (e baterista) do Big Som, Marco Antônio, ofereceu o jantar aos músicos de Dizzy.

* Juarez Fonseca é jornalista desde o começo dos anos 70, com uma extensa carreira dedicada à crítica musical. Um livro reunindo boa parte da sua produção jornalística está previsto para ser lançado nos próximos meses

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Nenhum pensamento

  1. Eu estava tocando em uma peça de teatro infantil no Teatro Presidente nessas datas. Os músicos chegaram no ônibus, contaram a história e anunciaram que não fariam o show. Perguntei se iriam no Big Som à noite, e eles confirmaram. Fui com meu pai e levei um gravador. Uma noite inesquecível!

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