O som que dilacera

Eduardo Osório Rodrigues* faz uma breve anatomia de uma canção de amor e dor

(Texto para ser lido ao som de For All We Know, de Chet Baker)

As notas do piano anunciam a dor da separação. Moduladas com acentos dramáticos, teclas brancas e pretas vão descendo sobre todas as coisas, ferindo lentamente até lancetar, no tempo forte do compasso, o coração. É quando também se escuta, pela primeira vez, a corda do baixo vibrar e outro acorde menor do piano introduzir, dos pântanos da garganta, a voz velada, desesperada de Chet Baker, voltada à compreensão triste das coisas, às virtudes do afeto: “For all we know/We may never meet again/Before we go/Make this moment sweet again”.

Sofrido e forte demais, o lamento segue em ondas regulares e nos retorce por dentro dilacerando o que restou: “We won’t say goodbye/Until the last minute/I’ll hold out my hand/And my heart will be in it”.

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Ilustração: Gilmar Fraga

A música então se adensa e a melodia ganha cores escuras nos solos de trompete-piano-contrabaixo, mas Chet Baker volta para lembrar que ela captura a incerteza do futuro e termina com o apelo angustiado: “For all we know/This may only be a dream/We come and go/like the ripple on a stream/So love me tonight/Tomorrow was made for some/Tomorrow may never come/For all we know”.

Composta por Fred Coots (música) e Sam Lewis (letra), For All We Know tem na voz de Chet Baker uma de suas melhores versões. São oito minutos e 57 segundos de loucura amorosa contra as burrices do coração. Foi gravada por quase todo mundo mas nada supera a interpretação deste tsunami emocional, uma espécie de carta-testamento assinada por Chet Baker no disco Chet Baker in Tokyo, gravado em junho de 1987 — 11 meses antes de o trompetista morrer.

Há outras versões poderosas, como as de Dinah Washington e Billie Holiday – um pouco açucaradas para o gosto de um purista que evita arranjos de cordas exagerados –, mas que causam o mesmo impacto naqueles que ouvem em silêncio e observam o movimento das pedras de gelo no copo.

* Eduardo Rodrigues é jornalista e autor do livro Negras Melodias – Músicas de Feiticeiras e Santos Pecadores

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