Tem oud no jazz

Lucio Brancato* fala desse e também de kanoon, derbak e dum, mostrando que disco bom também é aquele que você nem consegue dizer direito o nome dos instrumentos

Texto para ser lido ao som de Jazz Sahara, de Ahmed Abdul Malik

A liberdade musical que o jazz foi incorporando no decorrer de décadas é um dos grandes trunfos do gênero. Possibilitou aos músicos e ao público novos caminhos e sonoridades que vão além de formatos convencionais que muitas vezes limitam um estilo musical.

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Foto: Arquivo pessoal

Um dos pioneiros em derrubar fronteiras e agregar novas culturas ao Jazz foi o baixista Ahmed Abdul-Malik (1927-1993). Nascido no Brooklyn, Nova York, dizia ser filho de um imigrante do Sudão (mais tarde o historiador e biógrafo do Thelonious Monk, Robin Kelley, indicava a origem caribenha de sua família vinda da Ilha de São Vicente). Seja isso fato ou fruto de sua imaginação, o que fica evidente é seu interesse pela sonoridade típica de países do norte da África e do mundo árabe.

Suas primeiras aparições em discos foi como baixista do pianista e compositor Randy Weston (por volta de 1956) e em seguida se junta a Thelonious Monk nas gravações de 1958. E foi em outubro de 1958 que ele se aventura lançando seu primeiro trabalho como bandleader no disco Jazz Sahara (Riverside Records). Um marco no queconhecemos hoje como world music, este álbum faz um crossover da música africana e árabe com o jazz. Malik dá um salto muito mais alto neste conceito. Ele não apenas trouxe na sua música os elementos rítmicos e melódicos destas culturas, como também agregou instrumentos típicos destas regiões. Já estampa na capa sua foto com um oud (instrumento de cordas típico do norte africano que possui de cinco a seis pares de cordas) que ele toca no disco além do contrabaixo. Com ele participam ainda do álbum Nain Karacand (violino), Jack Graniam (kanoon, instrumento de cordas de origem iraniana), Mike Hasmway (derbak, percussão de origem árabe), Bilal Abdurrahman (dum, espécie de tamborim árabe), Al Harewood (bateria) e Johnny Griffin (sax).

Em quatro temas ele apresenta esta fusão entre o Ocidente e o Oriente trazendo possibilidades para o jazz que ficaram mais evidentes nos anos seguintes até a primeira metade da década de 60, quando muitos músicos embarcaram na onda de fusões com músicas étnicas. Um dos méritos deste trabalho foi o de trazer junto para a turma o seu companheiro de banda Johnny Griffin (tocaram juntos nas bandas de Monk e de Art Blakey). O desafio musical proposto muito mais em elementos rítmicos e melódicos do que em sobreposições de acordes torna o trabalho do Griffin uma verdadeira aventura. São nas passagens de solos de sax que aparece muito mais o origem ocidental da obra. O improviso está todo ali no sax que se divide entre os temas orientais e solos de hard bop. Com Jazz Sahara, Ahmed Abdul-Malik deixou sua marca, mostrando que é possível agregar diferentes culturas étnicas, além de incorporar novos instrumentos num diálogo musical sem fronteiras.

*Lucio Brancato é do rock, apresenta o “Cultura na Mesa” e o “Cultura Rock Show”, pela FM Cultura 107.7, sabe muito de jazz e tem um oud em casa

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