Meu violão de estimação

Péricles Cavalcanti* vê no violão de Dilermando Reis, João Gilberto e Gilberto Gil três caminhos para o mais popular instrumento do Brasil

Nenhuma outra gravação brasileira com solos de violão foi, provavelmente, tão bem-sucedida, do ponto de vista comercial ou de sua influência cultural, quanto o 78 rotações de Dilermando Reis, no início dos anos 50, contendo Abismos de Rosas e Sons de Carrilhões. Nela, o violão popular era implicitamente consagrado com a dignidade de um instrumento de concerto, realização de um sonho que Villa-Lobos acalentara com seus lindos “choros” com tons propositadamente populares, escritos  para esse instrumento que era usado amadoristicamente ou em pequenos conjuntos. Quase sempre desempenhando, ainda que com originalidade e invenção, a função de baixo (mesmo antes do uso mais intensivo do violão de sete cordas).

Foi com João Gilberto, a partir do final dos anos 50, que, naturalmente, o violão uniu as suas duas vocações, compartilhadas por seus irmãos-ancestrais ibéricos: a de instrumento de solo e de acompanhamento. Assim, o violão tornou-se mais complexo do ponto de vista conceitual, harmônico e rítmico, colaborando estruturalmente na criação da maneira mais musical, original e sofisticada de cantar música popular em português. Esse acontecimento foi ao mesmo tempo uma virada e um passo adiante no desenvolvimento do instrumento, transformando-o, eu insisto, num personagem principal no ambiente musical, mesmo quando coadjuvando cantores e cantoras.

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Ilustração: Gilmar Fraga

No violão de João, na mão esquerda, a harmonia canta plasmaticamente com a voz. Cada acorde soa como uma nota, única, brilhante, firme, tal a necessidade e integridade de sua composição, criando uma verdadeira sub-melodia, tanto no sentido de uma outra voz, quanto na sutil melodia paralela, originada em um timbre específico, tão ao gosto dos impressionistas. Simultaneamente, a mão direita pulsa ativamente, dividindo e subdividindo os compassos, estabelecendo um diálogo rítmico uno, no mesmo ou em planos diferentes, com o vocal a que acompanha. Junte-se a isso, a adoção generalizada, nessa mesma época, das cordas de nylon, que tem som menos brilhante que as de aço mas permitem uma execução mais concisa, com a utilização dos dedos e unhas livres de palhetas e dedeiras.

Gilberto Gil começou tocando acordeão. Passou para o violão por causa da bossa do João. Primeiro, reproduzindo as técnicas inovadoras e a peculiar batida de samba. Depois, adaptando tudo que já tocava antes – baiões, xotes, frevos e marchas –  com o que foi aparecendo a seguir: rock, afoxé, reggae, etc. Assim, criou um estilo rico, único, de largo espectro, influente (entre os seus principais discípulos estão João Bosco, Moraes Moreira, Djavan, Vicente Barreto e Chico César), contribuindo para o desenvolvimento do uso do violão dentro e fora da música popular. E eu digo de que modo. Primeiro, com a ampliação das possibilidades rítmico-percussivas, utilizando os dedos da mão direita, com exceção do mindinho (usado apenas por raríssimos violonistas eruditos), de forma quase que independente, criando diferentes linhas pulsantes porém complementares, soando como uma “cozinha” polifônica complexa (ouça-se Expresso 2222).

Vale observar que Gil é excelente e original no uso da palheta, também. Segundo, com o desatrelamento da mão esquerda. Isto é, muitas vezes, o acorde (uma combinação conveniente de “vozes”) torna-se, no seu violão, quando muito, apenas um ponto de partida para a execução. As confluências de notas que se seguem passam a depender das necessidades expressivas de cada música em particular.

Nesse plano, tonalidade e atonalidade, consonância e dissonância, coexistem normalmente e, consequentemente, provocar uma exploração maior do braço do violão e de sua extensão sonora, da região mais grave até o extremo agudo, incorporando, inclusive, alguns “modos” próprios à viola caipira (ouça-se Jurubeba).

Além de tudo isso, é notória, por sua riqueza, a maneira como Gil escolhe e utiliza os baixos do violão, não só nos seus improvisos, mas nos arranjos para músicas de outros autores e, ainda, no momento de composição de suas próprias canções (ouça-se Vitrines ou a deslumbrante Esotérico), o que o liga àquela tradicional função do instrumento de que falei acima, como seu continuador, enriquecedor e inovador. Essas armações são verdadeiras “peças”, plenas de imaginação, surpresa, precisão, suíngue, clareza e distinção.

Diz-se de Gilberto Gil que ele tem laços com o estilo barroco. Com respeito ao caráter de seu violão, isso é verdadeiro, na medida em que várias “vozes” melódico-rítmicas, de diferentes alturas, podem cantar simultaneamente através dele. E isso é música pura e, de modo geral, a “essência” de qualquer música. Foi isso, também, que motivou o desafio irônico de Debussy: “Para que harmonia, se o maior compositor de todos os tempos, J. S. Bach, nunca a utilizou?”.

De toda maneira, me interessa aqui o uso e o desenvolvimento do violão no âmbito de nossa própria música popular, e a contribuição e o avanço que os dois Gilbertos ainda proporcionam (embora eu ache que o violão do Gil devesse estar muito mais presente nos seus discos). Seria a consagração de um instrumento que já nasceu com um nome na sua forma aumentativa, como que prenunciando a sua grandeza.

* Péricles Cavalcanti é cantor e compositor, com parcerias e gravações ao lado de Caetano Veloso, Gal Costa, Augusto de Campos e, obviamente, Gilberto Gil

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