Disco é cultura

Marcos Abreu* reouve antigos LPs do Modern Jazz Quartet e confirma a frase acima que vinha impressa nas capas, mostrando que os discos não eram apenas um meio musical mas um veículo de informação e de opinião

Em meio a antigos discos do Modern Jazz Quartet, em vinil, claro, me entusiasmei lendo os longos textos na contracapa, que depois seriam quase que improváveis em CD e impossíveis nos atuais meios de stream, que não contemplam nenhuma informação sobre os produtos (seriam discos?) lançados ou disponibilizados.

Em um dos discos o texto começa com a frase “The Modern Jazz Quartet, the most durable small band in jazz history, it is now in its thirty-five year”. O disco é de 1988. Hoje se sabe que o grupo durou mais de 40 anos, desde quando se apresentou pela primeira vez junto com a Dizzy Gillespie Big Band em 1946. A primeira gravação seria em 1951, porém apenas como Milt Jackson Quartet, dando num primeiro momento um outro sentido às iniciais M.J.Q. A ideia iria amadurecer e no ano seguinte Milt Jackson, John Lewis, Percy Heath e Kenny Clarke formariam o Modern Jazz Quartet. Em 1955 ocorreria a única mudança em sua composição. Clarke, o baterista, iria para a França e seria  substituído por Connie Kay.

A partir de 1956, contratados pela Atlantic Records, o MJQ gravaria 27 discos e também inauguraria uma série de concertos de jazz ao ar livre, uma novidade na época. Eram concertos no Berkshire Music Barn, da Music Inn, em Lenox, Massachusetts, perto de Tanglewood, pólo da música erudita. Lá o grupo organizou uma Escola de Jazz onde jovens músicos podiam estudar com Lewis, Jackson, Heath, Kay, além de Gillespie, Max Roach e Oscar Peterson. Nesse mesmo ano, o MJQ tornou-se o primeiro grupo de jazz realizar uma turnê solo pela Europa, apresentando-se em quase uma centena de cidades em quatro meses e levando o jazz para as salas de concerto clássicas. O MJQ seria pioneiro também no cinema ao realizar a trilha do filme Sait on Jamais, de Roger Vadin.

Enquanto John Lewis compôs grande parte da música do MJQ e atuou como um visionário durante sua longa duração, o grupo trabalhou, tanto quanto possível, de forma cooperativa.

Reouvindo os discos, me ocorre que a música do Modern Jazz Quartet é mais fácil de ouvir do que a muitos outros grupos de jazz. Eles produziam improvisações que eram mais simples e fáceis de seguir para os ouvintes do que aquelas normalmente encontradas em outros grupos. Seus solos não são tão longos, tudo é muito bem  arranjado e ensaiado. Usam muitos recursos de composição facilmente assimiláveis e familiares, muitos vindos da base clássica de Lewis, um pianista inovador ao adaptar peças de Bach e Debussy para o jazz. E se Lewis era o cérebro, Milt Jackson era o coração, com seu toque formidavel e seu vigor impressionante.

Vivemos na era da informação. Não sei bem se isso quer dizer quantidade ou qualidade. Muita informação pode ser encontrada na internet, com milhões de links sobre o assunto desejado. Mas os textos nas contracapas dos LPs continham biografia, história, reflexões do próprio artista, análises musicais e características técnicas das gravações. Quase sempre escritas por pessoas qualificadas. Porém, hoje,  nem tudo está no Google. E com a redução do tamanho do meio, de LP para CD, de CD para stream, toda essa experiência está se perdendo. Os encartes deveriam permanecer. Fazem parte da experiência.

* Marcos Abreu é engenheiro de áudio e militante do som puro e da AmaJazz

 

 

 

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Nenhum pensamento

  1. Sem falar, Marcos, na beleza das capas dos discos de jazz – um verdadeiro deleite para os olhos. Ótimo texto!

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