Dizzy para presidente

Em épocas de incertezas é necessário um candidato revolucionário

Márcio Pinheiro*

32440505_1616987945015121_3141871776498188288_n
Ilustração: Moa Gutterres

Quando um país chega aos meses que antecedem uma eleição presidencial com um vice-presidente desgastado ocupando o cargo principal e com um candidato de extrema direita despontando como favorito é preciso que – numa hora grave como essa – o eleitorado pense, reflita e passe a cogitar uma candidatura ampla e plural – fora de todas as regras.

Foi o que ocorreu nos Estados Unidos em 1964, quando o país – ainda traumatizado pelo assassinato de John Kennedy e vivendo tempos sombrios de disputas raciais e ideológicas – ficou diante de duas opções: a conservadora, com a candidatura a reeleição de Lyndon Johnson, e a ainda mais conservadora, com a ascensão do ultradireitista Barry Goldwater. Foi neste cenário desanimador que um candidato inovador e audacioso entrou em cena: Dizzy Gillespie.

Sua candidatura era independente, sua base eleitoral era formada por ativistas e amigos músicos, e sua plataforma eleitoral um tanto vaga, mas repleta de boas intenções, prometia oportunidades iguais de empregos a negros e brancos e intenso combate ao racismo.

No vácuo político-eleitoral existente, a ideia para a campanha “Dizzy para Presidente” partiu de Jean Gleason, mulher do crítico de jazz Ralph Gleason, que admirava o carisma de Dizzy e pensava em lançar uma linha de camisetas com a imagem do trompetista. A coleção foi feita e, já no verão de 1963, os Gleason resolveram ampliar o alcance da campanha com um comício em Chicago e o lançamento dos bottons “Dizzy para Presidente”.

Entusiasmado com a receptividade, Dizzy passou um tempo em campanha no início de 1964, durante o período que estava em turnê no Birdland, em Nova York. Num primeiro momento, a iniciativa foi um sucesso e cresceu ainda mais com a criação de um jingle de campanha: uma letra escrita por Jon Hendricks adaptada para um antigo sucesso de Dizzy e Kenny Clarke, Salt Peanuts. Num gesto audacioso de quem se mostrava sem compromissos com arranjos pré e pós-eleitorais, Dizzy divulgou ainda durante a campanha qual seria seu ministério. Um grupo afinado, que se não tivesse trânsito político em Washington seria arrasador em qualquer palco do mundo. Miles Davis seria o chefe da CIA (e eu fico só imaginando como seria sua atuação ao ser sabatinado no Senado), Louis Armstrong, ministro da Agricultura, Duke Ellington, secretário de Estado, e ainda Max Roach (secretário de Defesa), Charles Mingus (secretário da Paz, já que as guerras seriam interrompidas), Ray Charles (na Biblioteca do Congresso), Mary Lou Williams (embaixadora no Vaticano), Thelonious Monk (como embaixador itinerante, sem detalhar muito bem como seria esse cargo) e Malcolm X seria procurador-geral.

Revolucionário todo mundo sabia que Dizzy era desde o começo dos anos 40, quando, ao lado de Charlie Parker, mudou tudo na história do jazz. Mas radical, mesmo, poucos tinham ideia até verem que entre suas propostas ousadas uma previa o alistamento compulsório de George Wallace, governador racista do Alabama, e seu envio para combater no Vietnã. A outra era a de trocar o nome da Casa Branca (White House) para Casa do Blues (Blues House).

Nesses primeiros meses, a John Birks Society, formada para atuar em seu nome junto ao eleitorado, estava ativa em 25 estados e chegou a enviar o pedido para que o nome de Dizzy (na verdade John Birks Gillespie fosse colocado na cédula). A candidatura chegou até a ensaiar um crescimento, mas o tom de galhofa ficou logo muito evidente e Dizzy não foi adiante. Dizzy renunciou ainda durante essa fase da campanha e, como lembrou em sua autobiografia, To Be, Or Not… To Bop, sua intenção maior era indicar aos eleitores que os Estados Unidos não precisariam ficar sempre divididos entre Democratas e Republicanos.

Fora da corrida eleitoral, Dizzy, que, ao contrário do apelido, de tonto não tinha nada, não se afastou totalmente da política nem tampouco abdicou de seu direito de eleger um candidato. Quando foi à urna, optou pelo “voto útil”, escolhendo o mal menor.  “Nunca pensei que chegaria a hora em que eu votaria em Lyndon Johnson. Mas eu preferiria queimar no inferno a votar em Barry Goldwater”, recordou em suas memórias.

Se a desistência de Dizzy em parte foi ruim e frustrante – a corrida presidencial ficou mesmo entre os dois candidatos óbvios, com a consagração de Lyndon Johnson, ainda que Goldwater tenha assustado fazendo quase 40% dos votos –, Dizzy desempenhou um importante papel. “Foi algo que iluminou tudo”, diria Jon Hendricks anos depois, lembrando que a candidatura de Dizzy seria um ensaio para o surgimento de novos candidatos afrodescendentes e para a consagração de Barack Obama.

Já Dizzy seguiria dando uma contribuição efetiva e de maior alcance longe das urnas. E não falo apenas em contribuição musical – mas em política, mesmo.  Poucos anos antes de morrer, o trompetista foi o criador da United Nation Orchestra, uma big-band com músicos americanos, cubanos, porto-riquenhos, panamenhos e brasileiros, aí incluídos descendentes de indígenas, negros e europeus.

Dizzy fez mais pela integração dos povos do que centenas de embaixadas.

* Este texto marca a entrada de Moa Gutterres na AmaJazz. E para mim é uma dupla alegria, pois apesar de nos conhecermos há quase 30 anos, nunca havia tido a honra de trabalhar ao seu lado. Moa já publicou suas obras em diversos jornais e revistas do Brasil e é um dos mais premiados desenhistas brasileiros.

Anúncios

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

5 pensamentos

  1. Grande história, bem contada. Ilustação de Luxo.
    Piruriruri pa pi piri, pó…salt peanuts, salt peanuts!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s