Jerry Lewis é jazz? É

Zuza Homem de Mello* lembra como Jerry Lewis era um improvisador genial

Mesmo sem fazer o papel central do musical “Damn Yankees”, o primeiro musical em torno do jogo de beiseboll, o comediante mais ovacionado do cinema, Jerry Lewis, era de longe a maior atração do espetáculo da Broadway.

Sua entrada em cena era aguardada como o momento mais esperado por quem estava na plateia do Marquis Theater em 1995. Chegava como um tufão abafando por completo os demais atores do elenco que aliás pareciam também aguardar por aquele momento, não se furtando ao orgulho e felicidade de dividir a cena com um supremo conhecedor das astucias do palco, o ambiente onde o ator não engana ninguém. É onde o disfarce ou algum recurso não tem chance sem que o público perceba.

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Jerry Lewis em Hollywood, em 2 de novembro de 1963, por volta das 18h, fotografado pelo jornalista Sérgio Augusto**

Desde o primeiro momento, representando o personagem Mr. Applegate, uma encarnação do demônio que prometia o rejuvenescimento, Jerry Lewis tomava conta do musical. De cara, caminhava a passos mais que largos no meio das nuvens de fumaça teatral, atingia o centro do palco para sua primeira fala da entrada triunfal. Em certo momento atirava com vontade a baliza que tinha nas mãos a uma altura descomunal deixando a plateia com o coração na boca. De lá de cima ela despencava em alta velocidade aumentando o suspense de qualquer um. Até dos atores em cena. Com elegância sem par, Jerry recebia a baliza como uma pluma e a naturalidade de quem apanha um copo d’água na bandeja. Realizava a proeza como um mágico de circo, era do ramo. Do ramo do show business do qual a Broadway reúne os mais sagrados templos do planeta.

Aos 70 anos Jerry era o mais experiente protagonista da comedia cinematográfica que tendo começado em teatro amador, abraçou com ânimo e criatividade a carreira por clubes noturnos até chegar a Hollywood como atração suprema e depois diretor. Atuava na televisão e em shows de Las Vegas ou em qualquer outro tipo de performance que faz de um ator um comediante sem par. Certamente o único showman que podia dividir o palco com Sammy Davis Jr. em igualdade de condições como aconteceu no Bally’s Casino em 1988. Deitando e rolando no seu domínio predileto, o palco era dos dois e de ninguém mais.

Nesse musical Jerry Lewis mostrou porque tinha que ser tudo que já tinha sido. Estava em sua casa. Nada daquela doideira do cinema, nada daquela voz de aloprado, nada do bufão mais querido de Hollywood, nada do parceiro de Dean Martin até o rompimento em 1956. No musical ele fazia o mesmo personagem da montagem original de “Damn Yankees”, de 1955, como um Applegate fiel à atuação de ator em musical. Seguia com segurança absoluta as falas, em que não se furtava a alguns cacos, dançava com leveza e elegância, cantava com sua voz original, destacando-se no segundo ato com a canção “Those Were the Good Old Days”. Sem ser o comandante Jerry Lewis era o dono do terreno que dominava com a mais completa naturalidade, o palco.

À saída do teatro, alegre e leve como quem caminhasse sobre flocos de nuvens, entendi que eu merecia uma taça de champagne comemorativa. Ao primeiro gole comemorei o privilegio de ter visto em cena o último dos moicanos do mais legítimo entertainment. Foi mesmo assim, a noite de Jerry Lewis.

* Zuza Homem de Mello é um dos maiores pesquisadores musicais brasileiros, especialista na história do jazz e da música popular brasileira. Estudou na Juilliard School of Music. Seu livro mais recente é “Copacabana: A Trajetória do Samba-Canção“.   

** Sérgio Augusto, jornalista, é um dos patronos da AmaJazz. Sérgio é também um dos maiores fãs de Jerry Lewis. Tão fã que a Paramount mandou verter para o inglês um texto dele para enviar ao comediante. O momento da foto é explicado por ele mesmo: “Hollywood, sábado, 2 de novembro de 1963, por volta das 18h. A alguns metros de mim, Jerry Lewis em carne, osso, volteios e caretas. Dos jornalistas convidados para a estreia mundial do filme “Deu a Louca no Mundo”, eu era o mais jovem, quase uma criança, e, certamente, o mais ardoroso fã de Lewis na plateia de seu show de TV, naquela noite dedicado à multiestelar comédia de Stanley Kramer”.

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