O selvagem da guitarra

Lembrando Django Reinhardt, que mudou o jazz e morreu num mês de maio, há 65 anos

A maneira de tocar era única e singular. A mão esquerda – como uma aranha disforme – tinha um jeito especial de firmar as cordas ao braço do violão. Apenas dois dedos (o indicador e o médio) se moviam, já que o polegar firmava o instrumento e o anelar e o mínimo não tinha nenhum movimento por conta de um acidente. Assim, criando novos acordes com um mínimo de notas, o instrumentista inventava formas de dedilhar tocadas na vertical, e não na horizontal, redefinindo a maneira de tocar violão, revolucionando o jazz e inscrevendo seu nome na história da música ocidental.

Ele era Django Reinhardt.

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Ilustração de Daniel Kondo, fazendo sua estreia na AmaJazz. O nipo-gaúcho,  atualmente morando  em Punta Del Este, é ilustrador, cartunista, e autor de livros infantis, como Monstros do Cinema.

O reconhecimento – considerável nos anos de vida mas ainda distante do merecido – cresce ainda em 2018, passados 65 anos da morte de Jean-Baptiste Reinhardt, nascido num acampamento cigano no lugarejo belga de Liberchies, arredores de Charleroi, em janeiro de 1910. O homem que mesmo antes de morrer havia se transformado em lenda continua a ser lembrado e exaltado em festivais anuais, um em maio, na Bélgica, outro em junho, na França. Além desses, a Grã-Bretanha entrou no circuito com o International Gypsy Swing Guitar Festival.

Se o músico era tão original, a figura humana beirava a excentricidade. A origem cigana condicionou-lhe a personalidade. Viveu até os 20 anos sem usar uma roupa comum e sem saber o que era um endereço fixo, já que sua casa era um carroção que rodava errantemente por países europeus – quase sempre no circuito Bélgica e França, mas há registros de pelo menos uma longa viagem até a Argélia. Era ainda uma pessoa de difícil trato, avesso a compromissos sociais e profissionais, tirano com familiares e arrogante com outros músicos. Um selvagem, como o definiu certa vez o crítico de jazz francês Charles Delaunay.

Apesar de ter sido duas vezes matriculado numa escola convencional – quando sua mãe resolveu montar acampamento nos arredores de Paris  –, Django Reinhardt nunca ligou para a educação formal. Valorizava o que havia aprendido quando ainda vivia nos carroções e o que viria a aprender nas ruas da capital francesa. Com o pai e com os tios recebeu os primeiros ensinamentos musicais. Por praticidade, dedicou-se inicialmente ao violino, mas logo depois passou para o banjo. Autodidata e analfabeto em leitura musical, Django Reinhardt ainda era adolescente e já frequentava bares, bordéis e salões de dança interpretando não apenas típicas canções ciganas mas também músicas folclóricas, tangos, polcas e valsas. Para ele, os estilos musicais não tinham passaportes. Também não lhe importava que o jazz – então em expansão na França dos anos 1920 – fosse basicamente negro e americano. Branco e europeu, Django sabia intuitivamente que a música poderia superar fronteiras, cruzar oceanos, aproximar povos e recriar estilos.

1928 seria um marco. Mal havia completado 18 anos e já era uma referência entre os músicos, chamando inclusive a atenção de Jack Hylton, band leader inglês que comandava uma importante orquestra de jazz e que lhe faria a proposta para o primeiro emprego.

A noite do convite seria longa, com Django chegando em casa – no caso ainda um carroção onde vivia com a mulher grávida de seu primeiro filho – e, desconfiado de um barulho externo, foi pegar uma vela para ver do que se tratava. A vela escapou-lhe da mão e em instantes o carroção estava em chamas. Ninguém morreu, mas Django sofreu graves queimaduras em várias partes do corpo e perdeu o uso de dois dedos da mão esquerda.

Os meses de recuperação seriam dolorosos. Django perdera o local onde morava, sua mulher o deixou e Hylton cancelou o convite profissional. Sua única companhia seria o violão. Investiu ainda num perfil um pouco mais convencional, cultivando um bigode fino e trajando casacos e gravatas, mas mantendo o conhecido estilo outsider, com compromissos sendo abandonados e optando por tocar nas ruas em vez de bares e boates.

A sorte começaria a mudar em 1934 quando Django conheceria o parceiro musical que transformaria sua vida: Stéphane Grappelli. Violinista, Grappelli era o avesso de Django. Culto, bem informado, com formação erudita, simpático, afável, Grapelli lapidou a rudeza do estilo de Django. Juntos frequentavam o Hot Club de France.

Fundado em 1932, o local reunia grandes admiradores do jazz, não necessariamente músicos, que organizavam shows, concertos, debates e palestras. Lá, Grappelli e Django formariam o Quintette du Hot Club de France e seriam pioneiros no jazz com instrumentos de cordas – diferente do estilo americano, mais afeito aos metais. Com o violão – que apenas não era seu companheiro inseparável pelo fato de o músico constantemente precisar penhorá-lo –, Django começou a mudar a sua história e a de seu instrumento.

Até então, o violão era um instrumento basicamente rítmico, sem nenhuma importância para os solos. Django então passou a explorar novas possibilidades melódicas, reinventando standards do jazz americano e adaptando algumas dessas composições aos sons que o acompanhavam desde sempre: os sons ciganos. A originalidade da criação receberia reconhecimento não apenas dos frequentadores do Hot Club de France, como de dezenas de jazzistas que na época da guerra passaram a fazer de Paris um de seus pousos mais constantes, aí incluídos Coleman Hawkins, Duke Ellington, Dizzy Gillespie e Sidney Bechet.

O fim da II Guerra Mundial mudaria ainda mais a sua rotina. Era a hora de faturar nos Estados Unidos o prestígio conseguido na Europa. Foi para a América e, ao lado de discípulos e admiradores, apresentou-se em concertos em Chicago, Detroit, Kansas City, Cleveland e Nova York. Não gostou muito do estilo de vida americano e preferiu voltar a morar na França. Sentia-se cansado mas, preferindo não procurar um médico, acreditava que poderia se curar por conta própria. Comprou uma casa em Samois, às margens do Sena, e dedicou-se mais à pesca do que a música.

As dores de cabeça foram ficando cada vez mais intensas, mas Django, fiel ao seu estilo desconfiado, continuava recusando o auxílio médico. Em 16 de maio de 1953, estava num bar conversando com amigos quando sentiu-se mal. Levado para casa, não resistiu a um derrame fulminante. Tinha 43 anos.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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