Ressaca amenizada pela sala escura

Imagens e sons de Niño Josele; bilhetes e afetos de Aldir e Mari: razões para acreditar na virada

Violonista e compositor flamenco, há duas décadas pelo menos, Niño Josele vem expandindo as fronteiras do gênero. Música que desde sua remota origem  prova que é possível acreditar na humanidade. Afinal, é fruto da mistura de culturas cigana, mourisca, árabes, judaicas… Povos que circulavam pelas terras da Andaluzia, às margens do Mediterrâneo.

Mal comparando, esse El Niño de 52 anos é como Rosalía, a jovem estrela que, nos últimos tempos, botou o flamenco no circuito musical pop. Enquanto ele dialoga com jazz, sons do Caribe e do Brasil.

Ruben Blades, Ron Carter e Niño Josele / Divulgação

A música e parte do trajeto de Niño Josele pelo mundo estão em “Bajañi”, filme de Fernando Trueba que, ontem à tarde, numa das salas do adorável Cine Carioca José Wilker foi dose forte de terapia emocional.

Cineasta espanhol que tem boa parte da obra ligada à música, nesse  filme não há diálogo, fala alguma. Exceção apenas no curto prólogo, no qual, voz off, Trueba faz breve resumo da carreira discográfica de Niño – incluindo os álbuns iniciais, que produziu em dupla com Nat Chediak no selo Calle 54 Records.

Música e imagem. Quase sem legendas – estas, apenas para localizar cada cidade que serve de locação. Nenhuma identificação dos muitos encontros, sem nomes dos instrumentistas, cantores e dançarinos, das composições, dos autores. Mas, história muito bem contada.

“Bajañi” (guitarra, violão em idioma gitano) começa em Almería, sudeste da Espanha, onde Juan José Heredia Heredia nasceu, e são registrados três números:  solo; com grupo flamenco completo; e com a orquestra da cidade, regência de Michael Thomas.  Passa por Madri, com um cantor do qual só temos a voz e duas cantoras e  em duo com pianista entre o clássico e o jazz, antes de atravessar o Atlântico para quatro encontros jazzísticos em Nova York. Com um quinteto feminino (piano, bateria, contrabaixo, trompete e saxofone); duo com o pianista Kenny Barron; guitarra elétrica solo numa loja de música; e em trio com o contrabaixista Ron Carter e o cantor e compositor de salsa Ruben Blades. 

O voo seguinte leva a São Paulo e, talvez, ao número mais arrebatador. Niño e a Banda Mantiqueira do maestro e saxofonista Nailor Proveta recriando a mais que rodada “Insensatez” (de Jobim, aqui sem a letra de Vinicius). 

O fim da viagem, no Rio (introduzido por belas imagens áreas em branco e preto e breve visita à lápide de Tom, no Cemitério São João Baptista), mantém o encanto. Com a visão do Pão de Açúcar ao fundo, são duas músicas com Marisa Monte (mais “aflamencada” do que sempre já foi), Dadi Carvalho (baixo) e Pretinho da Serrinha (percussão e cavaquinho), a feminista “Nem um passo atrás” (Mari Jasca, Julia Mestre e Miel Paranhos) e “Ainda bem” (Marisa e Arnaldo Antunes). 

Em seguida, outra epifania é “Amazonas”, o clássico de João Donato, ao lado de três músicos que acompanharam o pianista e compositor nas três últimas décadas de vida, Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (contrabaixo) e Sidinho Moreira (percussão).

Como despedida, “Because” (Lennon e McCartney), em duo com Caetano Veloso, e, durante os créditos (aqui), quando somos apresentados a parceiros de viagem, repertório e autores, mais um tema solo de Niño Josele.

À noite, numa das salas da Estação Gávea, a segunda dose de Aldir  Blanc nesse Festival do Rio, “Fui olhar você dormir”. A frase está num dos mais de dois mil bilhetes para a companheira Mari Sá Freire que o compositor deixava espalhado pela casa. Alguns encontrados em livros após a morte de Aldir, uma das 700 mil vítimas da Covid, em maio de 2020.

Equipe de criação e produção de “Fui olhar você dormir”, o segundo filme desse festival sobre Aldir Blanc

Quando, em conversa com o jornalista e roteirista Cláudio Uchoa, soube dessa correspondência, a cineasta Anna Azevedo percebeu que ali estava um filme. Voltamos ao apartamento na Muda, até a alguns vídeos caseiros que também estão no documentário “Resposta ao tempo” (Marcus Fernando e Hugo Sukman). Mas, não há repetição.

Agora, somos conduzidos por Mari, remexendo e lendo muitos dos reveladores bilhetes. Retratos da vida em dois, ou melhor, em comunidade. Mais as duas filhas de cada em seus relacionamentos anteriores, os quatro netos que mudaram a vida de Aldir e o mutante batalhão de frequentadores do bunker sempre aberto.

Perto do fim do filme, e de Aldir, em plena pandemia, durante um panelaço documentado no vídeo caseiro, ele é ouvido em alto e bom som, engrossa o coro contra o então despresidente: “Bolsonaro filho da puta!”. Seis anos depois, o exemplo é injeção de ânimo para as lutas até o 25 de outubro.

O Brasil piorou muito nesse domingo, mas, dá para virar.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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