Dizzy Gillespie, à frente da United Nation Orchestra, fez em setembro de 1991 sua derradeira performance em solo brasileiro
Para ser lido ao som de Dizzy Gillespie em Manteca

A última vez que Dizzy Gillespie esteve no Brasil foi em setembro de 1991. Um mês antes de completar 74 anos – e já então há pelo menos cinco décadas na linha de frente do jazz moderno – Dizzy era a principal atração da edição do Free Jazz Festival daquele ano e estava à frente da United Nation Orchestra, uma all-star big-band que reunia outros 12 músicos das mais variadas latitudes latino-americanas. Acompanhavam Dizzy na turnê brasileira, os americanos Steve Turre (trombone e também as exóticas conchas), Slide Hampton (trombone), Charlie Sepulveda (trompete), James Moody (sax), Ed Cherry (guitarra) e John Lee (contrabaixo), os cubanos Paquito D’Rivera (sax) e Ignacio Berroa (bateria), o dominicano Mario Rivera (saxes e flauta), o panamenho Danilo Perez (piano), o porto-riquenho Giovanni Hidalgo (percussão) e o brasileiro Claudio Roditi (trompete e também direção musical). Do grupo que pouco mais de dois anos antes havia se apresentado no Royal Festival Hall, em Londres, as únicas ausências eram o cubano Arturo Sandoval e os também brasileiros Airto Moreira e Flora Purim. Alegando compromissos assumidos em outros shows, o casal preferiu não vir ao Brasil.
Vestindo roupas coloridas na chegada ao Aeroporto do Galeão, Dizzy esbanjava alegria e se mostrava à vontade na sua oitava visita ao país – a primeira vez que havia estado no Brasil tinha sido 35 anos, em 1956, quando foi contratado pelo Departamento de Estado norte-americano para ser uma espécie de embaixador do jazz. “Não existe um artista americano que não tenha gravado pelo menos um brasileiro”, disse ele na coletiva de imprensa realizada no Hotel Nacional, no Rio de Janeiro, lembrando que ele próprio havia registrado Chega de Saudade e Samba de uma Nota Só.
Com o Teatro do Hotel Nacional lotado, Dizzy fechou a primeira noite do Festival com uma apresentação de duas horas, com destaque para peças conhecidas do seu repertório, como Manteca, com uma longa introdução de Giovanni Hidalgo seguida por solos inspirados Mario Rivera (na flauta), Ed Cherry (na guitarra) e James Moody (no sax-tenor). Na sequência veio Tin Tin Deo, com intensas intervenções de Paquito D’Rivera, Cláudio Roditi e Slide Hampton. O calipso And Then She Stopped antecipou a inusitada performance de Steve Turre que – provavelmente tendo Rahsaan Roland Kirk como modelo – soprou conchas de diversos tamanhos e extraiu sons surpreendentes.
Sem o fôlego de outros tempos, Dizzy Gillespie teve uma participação contida e pouco se dedicou aos esfuziantes solos que fizeram sua fama, com as bochechas infladas e seu trompete periscópico apontado para o céu. Ele já tinha idade suficiente para saber que um craque mostra sua habilidade até quando joga parado.
