A primeira vez de Bob Dylan em Porto Alegre

Ele lavou as próprias roupas, estendeu-as num varal dentro do quarto, não saiu de seu apartamento, comeu apenas o que foi preparado pela cozinheira particular e foi para o show, no ginásio Gigantinho, a pé

Para ser lido ao som de Bob Dylan em Like A Rolling Stone, Live at Newport 1965

Arte: Gilmar Fraga

Mr. Hurricane estava para completar 50 anos quando esteve pela primeira vez em Porto Alegre. Foi há exatamente 30 anos, em maio de 1991, e a capital gaúcha era a primeira etapa da turnê brasileira. Um ano antes, Bob Dylan havia feito sua estreia no Brasil, tocando no Hollywood Rock, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Passou todo o resto do ano viajando e entrou 1991 voltando à América do Sul, começando por Buenos Aires, seguindo por Montevidéu, até chegar pela segunda vez ao Brasil pela fronteira do extremo Sul.

Em Porto Alegre, na primeira apresentação, Dylan se hospedou no Plaza São Rafael – a primeira opção teria sido o City Hotel, mais antigo e num estilo mais parecido com o que Dylan normalmente fica. Dylan, como sempre, lavou as próprias roupas, estendeu-as num varal dentro do quarto, não saiu de seu apartamento, comeu apenas o que foi preparado pela cozinheira particular e foi para o show, no ginásio Gigantinho, a pé, percorrendo quase dez quilômetros acompanhado por Victor Maimudes, que trabalhava com ele, e por um segurança que andava três metros atrás. Não foi reconhecido e, se foi, não foi importunado. Esse negócio de caminhar do hotel ao local do show é uma prática comum de Dylan. Tentou fazer isso também em Buenos Aires, indo do hotel Claridge (no centro da cidade) ao Monumental de Nuñez (distante quase 30 quilômetros), e no Rio de Janeiro, indo do Rio Palace até o Imperator – pelo menos uns 28 quilômetros. Nos dois casos conseguiu ser contido a tempo.

Para o guitarrista Duca Leindecker as lembranças são nebulosas. Duca tinha 21 anos, um disco solo gravado e algumas participações em shows e discos de outras bandas gaúchas. Ele se lembra vagamente que foi convidado pela produção para fazer o show de abertura, mas não se lembra do repertório – apenas que foi escolhido em parceria com o também guitarrista Frank Solari e que era basicamente composto de temas instrumentais (com uma música do disco Friday Night in San Francisco, de Al Di Meola, John McLaughlin e Paco De Lucia e nenhuma do Dylan) – e também não se recorda muito bem de quanto foi o cachê. Esse comportamento naturalmente blasé chamou a atenção do próprio Dylan que saiu do camarim para ouvir o show de abertura e através do produtor Jeff Kramer disse que gostaria que os dois acompanhassem a turnê por todo o Brasil.

Duca gostou da idéia de passear, mas não se entusiasmou em abrir o show. Emoção maior ele havia tido três anos antes quando fez o show de abertura da turnê do hoje obscuro guitarrista Stanley Jordan. Daqueles 12 dias de maio, Duca se lembra que não teve contato com Dylan em Porto Alegre, nem em Belo Horizonte, nem em São Paulo. Apenas no Rio recebeu um rápido abraço.

Em Los Angeles, onde esteve em 2000 com a banda Cidadão Quem para mixar Soma, Duca contou para algumas pessoas sobre o contato com Dylan. Ninguém acreditou.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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