“Après moi, le déluge…”

Roberto Muggiati revela um vexame homérico na primavera parisiense de 1961

Para ler ao som de Anita O’Day em Jazz on a Summer’s Day

Na areia fofa de Kaunissaari, lendo meu livro favorito do Norman Mailer.

Naqueles dias eu andava com a cabeça nas nuvens. Meu curso no Centre de Formation des Journalistes chegava ao fim e, com ele, a mísera bolsa que me pagava o governo francês. Eu morava num hotel barato, mas lendário: o City Hôtel, na Place Dauphine, no coração da île de la Cité, ao pé do Pont Neuf. Gostava de pensar que dormia no mesmo colchão pulguento ocupado, décadas antes, pelo pai do surrealismo, André Breton. No seu romance revolucionário de 1928, Nadja, um dos primeiros a misturar texto e fotos, ele dizia: “Esta Place Dauphine é um dos lugares mais profundamente retirados que conheço, um dos piores terrenos baldios que existem em Paris. Toda vez que estive lá, senti abandonar-me pouco a pouco o desejo de ir para outro lugar, precisei discutir comigo mesmo para me livrar de certas amarras muito doces, agradáveis, insistentes e, no fundo, destruidoras. Além do mais, morei algum tempo num hotel nesta praça, ‘City Hôtel’, onde as idas e vindas a toda hora, para quem não se satisfaz com soluções simplistas, são suspeitas”.

Em meus cinco meses de City Hôtel, por contingências monetárias, ocupei vários quartos. O melhor foi uma mansarda no quinto andar com vista para o Sena e o Museu do Louvre. Na última etapa, acabei relegado a um cubículo de 4×4 metros, sem janelas, com um piso de lajotas de argila. A maioria das moradas em Paris são opressivas e sufocantes, o que explica a explosão de vida nas ruas e nos cafés de calçada.

Naquela tarde de maio, dublê de cinéfilo e jazzófilo, decidi ir a um cineminha do Boul’Mich’ assistir ao filme do fotógrafo da revista Life Bert Stern, Jazz on a Summer’s Day, a mãe de todos os rockumentários sobre os festivais do final dos anos 60, como Monterey Pop, Woodstock e Gimme Shelter. Filmado durante o Festival de Jazz de Newport de 1958, entrelaçava as apresentações musicais com detalhes pitorescos da plateia e cenas do cotidiano da pacata ilha, que protagonizava nos dias do grande evento.

Antes de sair do quarto, dei os últimos repasses na pia, onde lavava meias e cuecas com sabão em pó – uma operação de rotina que batizei de “a espuma dos dias” – mil perdões, Boris Vian, morto em 1959 aos 39 anos, pelo uso tão banal do título de seu belo romance.

Quando voltei ao hotel, fui recebido com risinhos e chacotas das vieilles dames que guardavam a portaria e de Monsieur Marcel, o pau-para-toda-obra delas, em todos os sentidos imagináveis. Tinha acontecido o pior: eu deixara a torneira da pia aberta. O chão do meu pequeno Bunker alagou e a água infiltrou para o quarto inferior, caindo sobre as malas de uma gringa que estavam sobre um armário. O estrago só não foi pior porque a inquilina, que estava na rua, não demorou muito a voltar.

– Alors, mon jeune homme, on fabrique du papier mâché dans as chambre? – perguntou uma das garces num tom de deboche.

A alusão era à pilha de jornais entulhados num canto do quartinho e que ficaram totalmente encharcados. Explico: meu pai, apesar do orgulho de ter um filho bolsista em Paris, receava que eu perdesse as “raízes” curitibanas, e me abastecia regularmente pelo correio de exemplares da Gazeta do Povo, o jornal onde eu trabalhara durante seis anos, antes de embarcar para Paris. Aqueles tentáculos bairristas me perseguiriam nos dois de residência na França e nos três anos seguintes em que trabalhei no Serviço Brasileiro da BBC de Londres. Ora, morando na Paris e na Londres da primeira metade dos anos 1960, nunca desperdicei um segundo sequer folheando aqueles jornais impressos em papel e tinta de vagabundos que enegreciam os dedos. Imaginem, a Gazeta ainda rodava numa máquina rotoplana, como aqueles pasquins do faroeste.

Existe um ditado francês, “Tout passe, tout casse, tout lasse et tout se remplace…” Lembrei-me também da frase majestática de Luís 15, “Après moi le déluge!” (Depois de mim o dilúvio!”) – o jeito que o pessoal do século 18 tinha de ligar o foda-se. Quinze dias depois eu iniciava as longas férias de verão viajando para a Escandinávia, conhecendo Copenhague e Estocolmo e depois indo visitar meu amigo Ollie Heikkinen na aldeia de Karhula, na Finlândia, a 50 quilômetros da fronteira russa e a cinco horas de ônibus de Leningrado (nome soviético de São Petersburgo). Dancei com as moças de cabelos cor de trigo num baile campestre ao sol da meia-noite e vivi meu mais glorioso domingo de praia em Kaunissaari, a mais bonita das 179.584 ilhas do Golfo da Finlândia. Que me fez esquecer por muitas décadas o episódio escabroso na Île de la Cité…

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