Antro de perdição

Marcus Veras de Faria estreia na AmaJazz recordando imagens de um Hitler de tapa-sexo purpurinado, além de gritos e corpos nus em profusão

Para ser lido ao som de The Bubbles em Não vou Cortar o Cabelo

Imagem: reprodução do documentário Rito do Amor Selvagem, de Lucila Meirelles

Corria o ano de 1969, e entre outras mumunhas eu fazia a iluminação “psicodélica” dos shows do grupo The Bubbles. Por conta disso, conheci um doido furioso chamado Flavio, que tinha uma ideia maluca: ocupar um amplo espaço abandonado no shopping da rua Siqueira Campos com uma “casa de som”. Não tenho a menor ideia de como ele conseguiu acesso ao lugar, mas duas semanas depois já tinha pelo menos um nome: Spotlight. Tudo era improvisado, pois o espaço não tinha absolutamente coisa alguma, de banheiros a bilheteria. Ainda assim Flavio bancou o lance: abriu a casa com shows de grupos cariocas e… deu ruim. Primeiro porque a parte elétrica pifava constantemente, já que não estava preparada para a carga de instrumentos elétricos e iluminação. Segundo porque não tinha os papeis da censura, dos bombeiros, da prefeitura… Funcionou durante três fins de semana e mergulhou no esquecimento, até que apareceu por lá o José Agripino de Paula e sua trupe para encenar O Rito do Amor Selvagem, um espetáculo tão transgressor que Hair ficou parecendo teatro de colégio. Tinha um Hitler de tapa-sexo purpurinado, tinhas gritos e corpos nus em profusão, tinha a maravilhosa, poderosa, inesquecível Mitota, a musa da geração desbundada. Tinha uma passagem onde os atores e atrizes, quase nus, vinham à plateia e escolhiam alguém que era levado para o meio da suruba. Eu fui ver o espetáculo (?) tantas vezes até que me escolheram para a participação – aliás, foi por isso que fui tantas vezes… Mas, ó, decepção… Chegando no meio da suruba… nada acontecia, era só aquilo mesmo. Mais tarde, aproveitando a pequena infraestrutura que o grupo levou para o espaço, houve essa parte recordada neste texto da segunda casa de shows, onde os maconheiros – graças a deus – botaram para quebrar, já em 1970. Enfim, faz todo sentido ter virado igreja evangélica, para ver se purga um pouco aquele antro de pecados da alma e da carne!

Nenhum pensamento

  1. Aquele grande esqueleto de obras na Siqueira Campos era o que muito tempo depois se tornaria o Shopping dos Antiquários. Em 1960 Sartre lançou ali seu livro Furacão sobre Cuba, com filas quilométricas que iam quase até a praia de Copacabana. Eu estava lá, com a turma da revista Senhor, que tinha a redação numa casa no alto da Rua Santa Clara. Um foca perguntou a Sartre quando escreveria sobre o Brasil? “Façam primeiro sua revolução.”, respondeu o filósofo sarcástico. A nossa foi um travesti da revolução, o golpe militar de 64. Tempos depois aquele pardieiro obscuro foi tomado por um megafestival de rock chamado Curtisom, um Woodstock urbano de uma só noite que marcou época. Em 66, ainda vasto pardieiro e esqueleto de cimento, o local serviu de abrigo para as vítimas das enchentes que abalaram aquele verão, fiz a cobertura como rfepórter da Manchete.

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