Rostos e gostos de uma amizade

Tárik de Souza lembra sua proximidade com Elifas Andreato, uma trajetória luminosa de um semeador de imagens

Para ser lido ao som de Paulinho da Viola em Nervos de Aço

Em 29 de março, o país perdeu Elifas Andreato, um de seus maiores artistas gráficos, responsável por incontáveis capas, cartazes e desenhos, que marcaram de forma indelével segmentos como a música, teatro e a mídia impressa. Mais que ilustrador de capas de discos, livros e cartazes, Elifas foi parceiro, na música de luminares como Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa, Elis Regina, Chico Buarque, Clementina de Jesus, Vinicius de Moraes, Toquinho, Criolo, João Nogueira, Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Aldir Blanc, Eduardo Gudin e muitos mais. A maioria de suas capas não saiu apenas da prancheta, mas da convivência direta com os artistas, do jogo de sinuca ao futebol, botecos e encontros familiares. Sou testemunha disso, porque ele se tornou meu amigo instantâneo, desde quando nos conhecemos, na virada dos 60 para os 70, ambos pós-iniciantes, na Abril Cultural, em sua sede pragmática, da rua do Curtume, no bairro Água Branca, em São Paulo. Ela contrastava com a opulência da Editora Abril das revistas, na época instalada na Marginal do Tietê.

Esse departamento de feição industrial da empresa, lubrificado por vendas monumentais de fascículos como ConhecerMedicina & SaúdeBom ApetiteMãos de ouroOs PensadoresNosso Século, sustentava o monumental prejuízo da revista Veja, onde comecei como repórter de música e posteriormente editor, quando morava em São Paulo. Lançada sob campanha publicitária massacrante, a semanal da Abril, dos 700 mil exemplares da estreia, foi despencando até beirar os 30, 40 mil. O diretor dos fascículos, Balfour Zapler, me convidou para trabalhar também no outro lado do rio, onde já encontrei Elifas como diretor de arte do projeto História da Música Popular Brasileira, comandado por Pedro Paulo Popovic. Nos entrosamos logo por nossa paixão pelo assunto, afinidades culturais e políticas.

Nascido na zona rural do Paraná, em Rolândia, Elifas começou como operário, torneiro mecânico, antes de ser descoberto como desenhista e ilustrador. Altamente sofisticado, inspirado pelo revolucionário americano Milton Glaser, embora de caligrafia própria e popular, ele daria os rumos das três séries de fascículos da História da Música Popular Brasileira, inicialmente com 48 títulos cada, lançados entre 1970 e o começo dos anos 80. A publicação chegava quinzenalmente às bancas, com, quase sempre, um artista biografado e suas melhores criações encartadas num LP de vinil, na primeira série, de 10 polegadas, com 8 músicas. O motivo era não colidir com os LPs de 12 faixas, das gravadoras que nos cediam os fonogramas, mas não queriam enfrentar a concorrência desproporcional das bancas de jornais versus lojas de discos. HMPB tinha um conselho de críticos, estudiosos e músicos, mas os mais atuantes na decisão do que seria editado e impresso acabávamos sendo eu e Elifas. Os discos eram prensados na antiga gravadora RCA que, por conta disso, mantinha um representante da empresa nos nossos calcanhares, na redação. Cabia a ele zelar pelo “nível comercial” de nossas escolhas, para evitar prejuízos industriais.

Junto com o crítico José Ramos Tinhorão, um dos participantes do conselho, que, tinha entre outros, ainda Zuza Homem de Mello e o maestro Julio Medaglia – propusemos um fascículo que reunisse obras e trajetórias de Nelson Cavaquinho e Cartola. Mas quase fomos linchados. Tal como já havia acontecido nas indicações de fascículos de Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré, o executivo da gravadora disse que aquilo “era coisa de intelectual”, não iria vender nada, o encalhe seria enorme, etc. Foi uma batalha, e por nossa atuação coesa, que nos fez ganhar a parada, eu e Elifas fomos contemplados com os apelidos de “Gênio nº. 1” e “Gênio nº. 2”. Até aquele 1970, apenas Nelson Cavaquinho tinha gravado um LP por um pequeno selo (Castelinho). Cartola só estrearia em 1974, aos 65 anos, no célebre álbum produzido por Pelão para a gravadora de Marcus Pereira. Mas nossa aposta vingou: na coleção seguinte, lançada em 1976, Cartola e Nelson, consagrados, mereceriam cada qual um fascículo.

Para não dizer que não falei de Vandré, seu fascículo (que vendeu bem ao contrário do vaticínio do homem do disco) foi um caso à parte. O belo trabalho de Elifas veio a ilustrar uma história absolutamente inédita. Fugido do país para não ser preso, em 1968, pouco depois de sua apresentação do hino Caminhando ou Para não dizer que não falei das flores, segundo classificado no Festival Internacional da Canção, o compositor virou proscrito. Estava absolutamente censurada qualquer menção a seu nome na imprensa. Como tinha entrevistado Vandré antes da apresentação da música (“acho que não vai dar certo, vou cantar sozinho com o violão que mal sei tocar, os outros vem com orquestras”), fiquei conhecendo seus parentes e amigos mais chegados. E eles me forneceram informações de seu trajeto no exílio, relato que sairia em primeira mão num fascículo supostamente de episódios do passado. O resultado é que um comunicado do Exército chegou à editora após o fascículo esgotar nas bancas, pedindo a nossa cabeça, de “comunistas infiltrados” na empresa.

Nossa amizade foi perpetuada em livro em 1979, Rostos e Gostos da MPB, lançado pela editora gaúcha L&PM. A ideia era inédita: tratava-se de um “livro/exposição”, que agregava textos meus a ilustrações de Elifas, não necessariamente correlatos. Ou seja: era uma exposição de desenhos dele e textos meus, com independência entre eles. No miolo do livro há estupendas criações dele, de um descomposto Vicente Celestino, o pai do brega, celebrizado pela canção e filme O Ébrio a um Ataulfo Alves, sempre eleito entre os mais elegantes da época, em terno e gravata, Lupicínio Rodrigues, expoente do samba-canção dolorido, posta-se à caráter, numa mesa de bar com um buque de rosas, um copo e uma garrafa de uísque. Ronda, megaclássico de Paulo Vanzolini, traduz a letra boêmia numa cena noturna, emoldurada por um par de pernas femininas enfiadas em botas longas, das profissionais das ruas. Lamartine Babo enverga um pierrô de rosto pintado, assim como outro craque das músicas carnavalescas, Haroldo Lobo tem o rosto duplicado por uma máscara de folia.

Elifas também imprimiu sua marca indelével em outras áreas como na ilustração surreal para o livro A Legião Estrangeira, da escritora Clarice Lispector. Várias de suas capas transcenderam os limites de meros invólucros de discos, sedimentando personalidades artísticas. Como a de Paulinho da Viola debulhando-se em lágrimas de esguicho (como diria Nelson Rodrigues), em Nervos de Aço, pontuado por uma desilusão amorosa do solista, cuja aptidão para a marcenaria foi cristalizada em outro álbum, de embalagem imitando entalhe em madeira, enquanto um braço de violão é esculpido no encarte. Martinho da Vila sorri entre mãos aladas, no imperativo Canta, canta minha gente, em plena ditadura, assim como pés escalavrados parecem brotar do chão, junto com a flor de Rosa do Povo, título do sambista inspirado num poema de Carlos Drummond de Andrade. A então pós adolescente Fátima Guedes surge entre cadernos escolares em espiral e estojos de lápis de cor, prefaciando sua arte aguda, subestimada pelo mercado. A impressão dos pés de Clementina de Jesus, calcados no barro, adensam sua música telúrica.

Em diferentes abordagens, a caracterização de palhaço trágico cinzelou discos de Adoniran Barbosa, Elis Regina e Chico Buarque, este contemplado com uma cena antológica do personagem de sua Ópera do malandro refestelado num banco de praça. Um lançamento póstumo de inéditas da Aldir Blanc, uma das vítimas da Covid, pandemia negligenciada pelo atual governo, porta uma caneta cuja tinta goteja sangue. O universo infantil, que levou Elifas a parcerias com Toquinho, retine em cores em Arca de Noé, projeto conjunto com o poeta Vinicius de Moraes. Uma sóbria efígie africana ressalta o título Refazendo a Cabeça, de Leci Brandão, enquanto os cabelos de fogo de outra diva do samba, Clara Nunes, cintilam em Nação. Além de outra série de fascículos, Os grandes sambas da história (Editora Globo, 1998), a revista mensal Almanaque Brasil de Cultura Popular, distribuída aos passageiros da empresa de aviação Tam, Elifas promoveu uma antologia de seus 50 anos de carreira no belo livro Traços e Cores, de 2018. O múltiplo retrato cultural do país que brota de seu legado ficará impresso para sempre em nossas retinas.

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