Miles runs the voodoo down

Antônio Carlos Miguel recorda uma noite de maio de 1974, quando o então estudante de jornalismo e fotógrafo amador já tinha nos neurônios quatro anos de Bitches brew

Para ser lido ao som de Miles Davis em Bitches Brew 

Todo dia é dia de jazz, mas, neste dia 30 de abril, data criada em 2012 pela Unesco, o tributo vai para o cara que me aplicou no gênero. Aquele que foi a porta de entrada para diversas, e até antagônicas, gerações de aficionados. Assim como o estilo, sempre em movimento e mutação desde que saiu dos bares e prostíbulos dos bairros negros de Nova Orleans, pousando inicialmente em Chicago e depois se espalhando pelo mundo, Miles Dewey Davis III nunca ficou parado.

Na autobiografia, escrita em parceria com Quincy Troupe, ele lembra que tinha 18 anos quando, em 1944, assistiu em St. Louis a Dizzy Gillespie e Charlie Parker na orquestra de Billy Eckstine. Naquela noite, decidiu se juntar aos seus ídolos e à revolução estilística do bebop, mudando-se para Nova York. Logo, estaria entre os criadores do cool e do hard bop; em seguida, alternou a parceria com o arranjador canadense Gil Evans, em trabalhos de formação orquestral que incorporaram de música clássica à espanhola, de Gershwin e bossa nova, com os muitos grupos que formou, nos quais lançou futuras estrelas como John Coltrane, Bill Evans, Chick Corea, Wayne Shorter, Keith Jarrett. No fim dos anos 1960, estabeleceu as bases do jazz-rock e do jazz-funk; nos 1980, flertou com o pop e o nascente hip-hop. E dá para cravar que assim continuaria não fosse a morte aos 65 anos, em 28 de setembro de 1991.

Em maio de 1974, o então estudante de jornalismo e fotógrafo amador já tinha nos neurônios quatro anos de Bitches Brew, o álbum duplo de 1970 que, mais de cinco décadas depois, continua como a melhor referência para o jazz rock. Também já incorporara à biblioteca outros títulos do trompetista, incluindo Kind of Blue In a Silent Way,  e, claro, não poderia perder a primeira turnê brasileira de Miles Davis. Segundo informações pescadas agora na internet, foram três shows no Teatro Municipal do Rio e mais três no Municipal paulistano. No poleiro do teatro carioca, com uma câmera Pentax nas mãos e sem opção de enquadramento, dos cerca de 20 cliques, duas ou três imagens se salvaram. Especialmente a já publicada dois anos atrás aqui nesse mesmo Dia Internacional do Jazz, fechada em Miles, que, encurvado sopra o trompete atravessado em suas pernas.

Mas, após nova busca no filme completo e digitalizado, há outra foto que merece atenção. Foi feita segundos antes, com o instrumento ainda em frente ao corpo do trompetista e, graças ao enquadramento mais aberto, mostrando outros membros da banda funk e elétrica que o acompanhava. Para ilustrar, subo também uma segunda foto, esta sem foco e zoom, mas com a formação completa do octeto: à esquerda, sentado em frente à mesa repleta de penduricalhos percussivos está um dos três guitarristas, Pete Cosey; em seguida, no sentido horário, Dave Liebman (sax e flauta), Michael Henderson (baixo), Al Foster (bateria), os outros dois guitarristas, Dominique Gaumont  (um negro francês, canhoto como Jimi Hendrix) e Reggie Lucas, e, no canto direito, o percussionista James M’tume (atrás dele, sentado numa cadeira, há um jovem, talvez assistente de palco do trompetista). Em alguns momentos, Miles trocou seu instrumento habitual pelo órgão elétrico, reforçando a muralha de som.

É provável que as fotos tenham sido feitas na terceira noite carioca da turnê, em 25 de maio de 1974, véspera do aniversário de 48 anos de Miles. No YouTube, na página de SSF Labs, estão disponíveis 40 minutos desse concerto, gravados pelo saxofonista Dave Liebman,  com os longos temas Funk (Prelude)Turnaroundphrase For Dave. Liebman, sem avisar a Miles ou aos companheiros de grupo, também teria registrado os três shows de São Paulo, todos com trechos no YouTube: em 28 de maio (este, disponível na página Milestones: A Miles Davis Archive), 1º e 2 de junho. Ainda de uma das noites em Sampa vieram aquelas que são as únicas imagens em movimento do grupo de Miles em 1974, filmadas em preto e branco pelo cineasta paulistano Andrea Tonacci, que, encontrou em seu arquivo duas horas de película – um trecho de dois minutos também está no YouTube.

Detestados pela crítica jazz-ortodoxa na época, não entendidos pelos executivos da Columbia, que fizeram o trabalho de promoção junto a rádios e imprensa jazzística, quando Miles mirava o público negro, os discos desse  período pós Bitches brew – A  Tribute to Jack Johnson (1970), Live-Evil (1970), On the Corner (1972), Get up with it (1974) –, refletiam tanto o seu interesse pela música de Sly Stone e James Brown quanto pela obra e pelas teorias do compositor alemão de vanguarda Karlheinz Stockhausen. Reouvidos nesse 2022, no qual a vitória de Exu no desfile fora de época das escolas de samba serve de exemplo para o Brasil em meio ao obscurantismo, também soam inspiradores. Assim como os trechos dos concertos no eixo Rio-SP, que também serviram de trilha para esse mergulho no tempo.

Um ano e pouco após essa turnê, Miles tirou o time de campo por quase cinco anos e só em 1980 voltou a tocar trompete e a estúdios e palcos. Na autobiografia, ele dedica alguns parágrafos à passagem pelo Brasil. “Comecei a pensar seriamente em me aposentar da música em 1974. Estava em São Paulo, Brasil, e andara bebendo muita vodca e fumando um pouco de maconha – o que nunca fizera, mas estava me divertindo muito e me disseram que era muito bom. Além disso, tomara um pouco de Percodan e cheirava coca adoidado. Quando voltei ao quarto de hotel, achei que estava tendo um ataque cardíaco. Liguei pra recepção, chamaram um médico e me levaram para um hospital. Me enfiaram tubos no nariz e intravenosos no corpo. O conjunto ficou assustado; todos acharam que eu iria morrer. (…) Jim Rose, meu gerente de excursões, disse a todos que eu provavelmente só tinha palpitações, por causa de todas aquelas drogas, e que estaria bem no dia seguinte, e estava mesmo. Tiveram que cancelar o espetáculo naquela noite e reprogramá-lo pra noite seguinte. Toquei e entusiasmei todo mundo, de tão bom que estava. (…). E eu curti adoidado as belas mulheres do Brasil. Elas caíam em cima de mim, e descobrir que eram sensacionais na cama. Amavam amar”.

Pelo que se comentou na época, Miles também tivera algum piripaque no Rio, problemas de coluna, quase não conseguia se levantar da cama. Foi salvo por um massagista e acupuntor japonês, jovem de longos cabelos, que, naquele início dos anos 1970,  circulava muito no circuito alternativo de shows no Rio.  Miles gostou tanto do japa que o levou para São Paulo e depois Nova York.

Doze anos após, foi a vez da segunda e última turnê brasileira, dessa vez com o show de lançamento do álbum Tutu (1986), que, no Rio, teve duas noites no Canecão. Um dia antes da estreia, concedeu uma entrevista coletiva no hotel em que se hospedava, no Leme. Ele passou boa parte do tempo desenhando num bloco de papel, enquanto, com sua voz cavernosa, respondia com poucas palavras. Até reconhecer entre os jornalistas o também radialista francês Rémy Kolpa Kopoul (que morreu em 2015), quebrando o gelo ao saudá-lo com algum entusiasmo. Não sei bem por quê, fui à entrevista e ao show sem a Nikkormat. Mas, lamento mesmo foi não ter pedido a Miles algum dos desenhos espalhados na mesa em que se encontrava.

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