Alisando os paralelepípedos

Juarez Fonseca recupera texto seu de 1993 em que exalta a figura de Giba Giba, nome fundamental da música e da boemia de Porto Alegre

Para ser lido ao som de Giba Giba em Sopapo

Foto: Diego Coiro/Cedido por Juarez Fonseca

Gilberto Amaro do Nascimento dribla a pergunta e não revela a idade. Mas devia ter uns 10 ou 11 anos em 1950, quando a sua família aportou em Porto Alegre vinda de navio de Pelotas. O pai, militar, já conhecia bem a cidade e tinha muitos amigos aqui. “Tivemos a felicidade de cair na Cidade Baixa. No dia da chegada, como a casa ainda estava desmontada, o pai nos levou para almoçar no restaurante Copacabana, quando chegou um amigo dele e cantarolou uma marchinha que havia feito. Era o Lupicínio Rodrigues”, relembra.

O tempo e a música transformaram o garoto Gilberto em Giba Giba e, Giba Giba, em uma espécie de reserva ecológica da cultura de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Conhecido em todas as rodas, Giba, como Lupi, mesmo sendo bem mais jovem, ajudou a alisar os paralelepípedos da Cidade Baixa e a fazer dela um bairro cheio de charme e histórias de boemia – digamos que a Cidade Baixa está para Porto Alegre como Vila Isabel está para o Rio de Janeiro. Giba Giba reinava ali desde os carnavais dos anos 1950. Ali foi criada em 1960 a Academia de Samba Praiana, a primeira escola da cidade, da qual ele foi o primeiro presidente.

O som da bateria da Praiana era inspirado no som dos blocos de Pelotas, a partir de ritmos afrogaúchos. Lá, havia um instrumento de percussão desconhecido em outros lugares, o sopapo. Esse instrumento, esse som e a pesquisa da cultura negra riograndense passaram a ser os identificadores de Giba Giba a partir de 1967-68, quando ele começou de fato sua carreira na música popular com o grupo Canta Povo, ao lado de Ivaldo Roque, João Palmeiro, Mutinho e as irmãs Laís e Sílvia Marques, após abandonar o emprego de atendente no Hospital de Pronto Socorro. Foi só em 1993, 25 anos, quatro filhos e incontáveis batucadas depois, que Giba teve, enfim, a materialização que a sua trajetória exigia: um disco, o primeiro. Outro Um, que resume quase três décadas de trabalho em 12 faixas. Lembra espetáculos que marcaram época na cidade, como O Corredor e a EsperançaUma Mordida na Flor Sobrevivência, todos dos anos 1970, além de Não Misture e Saias Rodando, este o último apresentado em teatro, em 1983. Neles, Giba dividia o palco com parceiros como Wanderley Falkenberg, Flávio Oliveira e Toneco.

O disco remete, ainda, ao clima contagiante dos bares com música ao vivo que ele ajudou a popularizar na década de 1970, como o célebre Varanda e o cult Sheik. São muitos os pedaços de Porto Alegre reunidos.

Mas por que esse disco demorou tanto para sair? Giba Giba coloca as coisas nos seguintes termos: “Demorou demais, porque nossa cidade tem um compasso diferente do resto do país. A cada dia que passa você tem que provar que é aquilo ali mesmo, e tanto é, que um dia acaba sendo. Nesse sentido, o disco veio no tempo certo. Acredito que agora ele seja uma exceção; antes teria sido talvez tivesse uma regra. De qualquer forma, não gravei antes por uma questão minha, de não ser carreirista. Não era importante simplesmente gravar. Esperei. E aconteceu na hora em que a cidade teve uma mudança política”.

E agora que as rádios e toca-discos podem rodar as faixas, Giba desengasga um sentimento guardado desde 1982. “Principalmente, com Outro Um pago uma dívida enorme com a cidade, uma dívida do tempo em que quase morri e a cidade me salvou”. Em 1982, Giba teve meningoencefalite, doença grave: passou 60 dias hospitalizado e um ano em tratamento. Shows coletivos e doações em dinheiro fizeram a campanha “Para Giba”, garantindo os remédios, caríssimos. “Em 100 que pegam essa doença, apenas um não fica com sequelas. E esse um sou eu”, diz, sublinhando a frase com uma gargalhada. Ele se salvou para continuar fazendo e contando história de Porto Alegre.

As 12 músicas selecionadas para Outro Um chegam com cara de antologia: são um resumo absoluto do trabalho de Giba Giba, autor de mais de 200. Várias delas já estão grudadas nos ouvidos do público, apresentadas ao longo dos anos em shows de Giba e de outros. É o caso de Tassy, canção afro-índia já gravada por Kleiton & Kledir e por Bebeto Alves; de Lugarejo, melodia inspiradíssima gravada nos 70 por Nana Chaves; a folclórica Feitoria. Caso também de três homenagens explícitas a Porto Alegre, com Areal da BaronesaTeresópolis e Beirando o Rio, vencedora do Musicanto em 1990. Dedicada a Pelotas, Cerco à Princesa nasceu no final da década de 1970 e tem as participações dos pelotenses Vitor Ramil e Toneco, coautor. Da mesma época são a canção romântica Bata Beta – dedicada à ex-mulher e parceira Maria Bethânia Ferreira – e a definidora Sopapo, que fecha o disco. As mais recentes têm dois ou três anos: Negro Mina Índia BelmiraCaboclinha e a faixa-título, que abre o álbum. Esse conjunto de músicas é perfeito para revelar a identidade e o estilo de Giba Giba e dizer por que é um importante compositor da música brasileira. Ele define uma forma de afrogaúcho mas também tem samba e outras africanidades mundiais, vistas de forma pessoal. O disco está recheado de momentos dançantes e os arranjos, coletivos, são muito bons, enxutos. Também competente e empolgado é o trabalho dos músicos Xyko Mestre, Edilson Ávila, Fernando do Ó, Edinho Espíndola, Chicão Dornelles, Edson Junior, Marquinho Farias e Jorginho Trompete, mais as vocalistas Cíntia, Maninha e Suzana. Assinando a produção, não por coincidência, o mais entranhado compositor porto-alegrense de sua geração, Nelson Coelho de Castro. Não poderia ser outro.

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