“Acho que está chegando a minha hora”

Roberto Muggiati explica como Mingus, em 1959, chegou ao formato ideal: uma banda relativamente pequena, de sete músicos, mas que às vezes soava como uma big band

Para ser lido ao som de Charles Mingus em Mingus Ah Um

Arte: Daniel Kondo

Charles Mingus tinha acabado de sair do hospício. Em 1958, pensando que ao bater à porta do asilo de Bellevue iria receber aconselhamento psiquiátrico, acabou ganhando uma camisa-de-força. Há outra versão: a de que Mingus se fingiu de louco para fugir de um empresário mafioso que o tinha sob contrato. Seja como for, em maio de 1959, ele estava no estúdio da Rua 30, em Nova York, com um de seus melhores grupos, para gravar seu primeiro álbum na Columbia. Foram duas sessões, nos dias 5 e 12, e delas saiu o histórico Mingus Ah Um. “Acho que está chegando a minha hora, talvez este ano”, disse Mingus em 1959. “Uma coisa eu sei. Não vou deixar ninguém me influenciar mais…”. Depois de quase 15 anos gravando com grupos sob seu nome, Mingus tinha chegado ao formato ideal: uma banda relativamente pequena, de sete músicos, mas que às vezes soava como uma big band graças ao talento fabuloso de Mingus para arranjar os temas: não à maneira de uma grande orquestra que cerceasse a improvisação e a criatividade dos solistas, mas uma construção compacta com alternância de ritmos (puxados pelo baixo de Mingus e por Danny Richmond, um saxofonista que Mingus resolveu transformar em bateria) e uma riqueza de voicings obtida pelo hábil entrelaçamento dos sopros: os saxofones de Booker Ervin, Shafi Hadi e John Handy (dobrando também na clarineta) e o trombone de Jimmy Knepper (substituído em quatro faixas por Willie Dennis). Nos nove temas, Mingus reafirma sua qualidade maior: a de resgatar as raízes do jazz e as reembalar no idioma pós-bop como em Boogie Stop Shuffle e Jelly Roll, ou na “evangelizante” Better Git in Your Soul. Há ainda o intenso lirismo de baladas como Self Portrait in Three Colors e Goodbye Pork Pie Hat, o tributo a Lester Young que Mingus começou a compor em março de 1959 numa boate, na noite em que sussurraram em seu ouvido que Lester tinha morrido. Um Goodbye que acabou se tornando uma espécie de réquiem para todos os jazzmen.

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