Holofote em Harry Nilsson

Antônio Carlos Miguel revela facetas pouco lembradas de um artista que nunca deu muita bola para uma carreira normal, preferindo os estúdios aos palcos

Para ser lido ao som de Harry Nilsson em Pussy Cats

Arte: Gilmar Fraga

Eu deveria estar aqui falando do fim do mundo, mas, voltei à tribuna livre de AmaJazz (e pop, soul, bossa, samba, música sem fronteiras) para escrever sobre alguém que, quando lembrado, é quase sempre por motivos errados. Ou detalhes pessoais em sua brilhante/obscura trajetória artística. Por (mau) exemplo, foi um companheiro frequente no “fim de semana perdido” de John Lennon em Los Angeles, quando, em meados dos anos 1970, separado de Yoko Ono, o ex-beatle se enchia de álcool e drogas ilícitas. É desse período o álbum Pussy Cats (1974), que atraiu alguma publicidade para Harry Nilsson já a partir da montagem na capa que, como chamariz, incluiu ao seu lado o rosto do produtor John Lennon (também dividindo o vocal em algumas faixas). Mas, é título que pouco acrescentou à carreira então já com uma dúzia de álbuns e, pelo menos, metade bem mais ousados musicalmente. Nestes, nos dois de maior êxito, o sucesso comercial veio graças a canções “menores” e de outros autores.

Em 1968, a voz de alto alcance de Harry, cobrindo de barítono a tenor, rodou o mundo com Everybody’s Talkin (de Fred Neil), incluída na trilha sonora do filme Midnight Cowboy e uma das faixas de seu terceiro álbum solo, Aerial Ballet. Três anos depois, outra regravação, para a melosa-chorosa balada Without You (do grupo inglês Badfinger), inundou as ondas radiofônicas e encobriu composições (e interpretações) de Harry Nilsson bem mais interessantes no álbum Nilsson Schmilsson. Com essas regravações, por sinal, ele ganhou seus dois únicos prêmios Grammy (para Melhor Interpretação Vocal Masculina).

Meses antes de Everybody’s Talkin sair dos cinemas para as rádios, alguns já tinham começado a falar de Harry Nilsson após John Lennon e Paul McCartney declararem durante entrevistas para o lançamento da gravadora Apple que ele era o cara. Os dois tinham se empolgado com Pandemoniun Shadow Show (1967), disco no qual Nilsson misturou repertório próprio e regravações, incluindo duas dos Beatles, She’s Leaving Home e You Can’t do That (nesta, adicionou à letra os nomes de mais uma dezena de canções dos FabFour).

Para quem está chegando agora e desconhecia ou (como esse batucador) ignorava Harry Nilsson, os álbuns citados acima são ótimas introduções. Neles estão o compositor de abrangentes referências (passa por standards, r&b, pop, folk, cabaré, Caribe, rock) e o ótimo cantor, cercado por arranjos e instrumentistas que avançam muito além do tatibitate habitual do pop-rock. Por sinal, Nilsson Schmilsson é aberto por gravação ressuscitada quase cinco décadas depois na Netflix pelo seriado Russian Doll, que usou como música-tema a aliciante Gotta Get Up.

Neto de suecos, Harry Edward Nilsson III nasceu no Brooklyn (em 15 de junho de 1941) e, na adolescência, trocou a vida miserável em Nova York por Los Angeles, ralando desde cedo para se manter. O sustento vinha de sua habilidade para a então iniciante informática no sistema bancário, mas, a música era a meta. Ele também trabalhou no estúdio com Phil Spector, teve composições gravadas por artistas como Glenn Campbell, Fred Astaire, The Shangri-Las, Monkees, Three Dog Night (One), Yardbirds (Ten Little Soldiers), até, em 1966, estrear e passar em branco com o álbum Spotlight on Nilsson.

Daí, como já foi contado, vieram os elogios de Lennon e McCartney, sucessos estrondosos de Everybody’s Talkin e Without You, mas, Harry Nilsson nunca deu muita bola para uma carreira normal, preferindo os estúdios aos palcos. Se quase nunca fez shows, deixou muitos outros discos que merecem ser procurados, incluindo três inventivas trilhas sonoras. Em 1968, foi o autor e o intérprete da música de Skidoo, comédia psicodélica de Otto Preminger que traz no elenco Grouch Marx em seu último papel. Entre as curiosidades, a genial faixa de abertura, The cast and the crew, na qual Nilsson canta-lista todo o elenco e a equipe do filme. É uma list-song por excelência: “Stop!/Before you skidoo/ We’d like to introduce/Our cast and crew/ Jackie Gleason was Tony Banks/Carol Channing: Flo/ Frankie Avalon: Angie/ Fred Clark: a Tower Guard/ Michael Constantine: Leech/ Frank Gorshin: The Man/ John Phillip Law: Stash/ Peter Lawford: The Senator/ Burgess Meredith: The Warden/ George Raft: The Skipper/ Cesar Romero was Hechy/ Mickey Rooney: “Blue Chips” Packard/ And Groucho Marx played “God”/ In the Otto Preminger film/ Ski-doodle-y-do-do-doo….”.

Três anos depois, idealizou, compôs e gravou as canções de The Point. Além do álbum de Nilsson, o projeto virou um desenho animado (com direção de Fred Wolf e as vozes de, entre outros, Dustin Hoffman e Ringo Starr) e ainda ganhou montagens em teatros dos EUA e da Inglaterra. Por fim, em 1980, fez a trilha de Popeye, direção de Robert Altman, com Robin Williams no papel do marinheiro dos quadrinhos.

Ainda na discografia se destacam Nilsson sings Newman (1970), com composições de Randy Newman, e A Little Touch of Schmilsson in the Night (1973). Este, um pioneiro e nada óbvio mergulho nos standards. Com arranjos de Gordon Jenkins (Sinatra, entre tantos outros), o inusitado passeio por clássicos pré-rock & roll antecedeu (e ainda soa muito melhor do que) os álbuns similares que depois fizeram artistas também vindo do pop e do rock como Linda Ronstadt, Carly Simon, Robert Palmer, Bryan Ferry e Rod Stewart.

No entanto, a biografia do artista é marcada por dramas. Nos anos 1970, o apartamento que Nilsson comprou em Londres foi palco de duas mortes célebres, ambas sem a sua presença. Foi lá que, em julho de 1974, Cass Elliot (a grande voz de The Mamas & The Papas) morreu, aos 32 anos, vítima de um ataque cardíaco. Seis anos depois, também aos 32 anos e no mesmo quarto, Keith Moon, baterista do Who, teve uma overdose após abusar de álcool e um remédio contra seu vício.

Mesmo convivendo com uma doença cardíaca genética, Harry Nilsson sempre pegou pesado, até, em 14 de fevereiro de 1993, aos 51 anos, sofrer um ataque de coração. Coração que, em 8 de dezembro de 1980, tinha sido abalado pelo assassinato do amigo John Lennon. Desde então, virou ativista de uma organização pelo controle das armas, usando de sua música para lutar pela causa.

A redescoberta da grande arte do grande sujeito que também parece ter sido começou em 2006, quando foi lançado em festivais o documentário Who is Harry Nilsson (And why is Everybody Talkin’ About Him)? Escrito, dirigido e coproduzido por John Schienfeld, em 2010, o filme ganhou versão em DVD, com muito material extra. Em 2013, foi a vez da caixa de 17 CDs The RCA Albums Collection. Desde então, não para de brilhar a música de um criador que nunca se encaixou num estilo só. Gotta Get Up, mesmo que já não mais entre nós

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