Maravilha eterna

Antônio Carlos Miguel lembra Luiz Melodia, figura rara e original que não para de nos iluminar com sua obra

Para ser lido ao som de Luiz Melodia em Maravilhas Contemporâneas 

Foto: Antônio Carlos Miguel

Há poucos dias, um texto estimulado pela letra premonitória de Presente Cotidiano foi mais um bom motivo para lembrar de uma figura rara e original que não para de nos iluminar com sua obra. Então, como nunca é demais, voltemos a texto sobre ele e à imagem capturada numa tarde de carnaval, no verão de 1977. Ladeiam o Pérola Negra quando jovem de 26 anos o letrista e poeta Sérgio Natureza (à esquerda, de cigarro em punho) e Fortuna (à direita, de óculos escuros, amigo de ambos e que nunca soube o que exatamente fazia na vida).

Nascido e criado no Morro de São Carlos, no bairro do Estácio, Luiz Carlos dos Santos sempre teve o samba em suas veias, mas, misturado à música que ouviu no rádio, da jovem guarda ao rock, passando por baião, choro, bolero, reggae e o que mais atraísse sua fina sensibilidade. Daí ter desenvolvido um natural e pessoal sincretismo que, no início dos anos 1970, encantou a agitadores culturais como o poeta Waly Salomão, o artista plástico Hélio Oiticica e o cineasta Ivan Cardoso.

Waly, que na época trabalhava com Gal Costa no que viria ser o show divisor de águas Fa-Tal: Gal a Todo Vapor (1972), apresentou Melodia à cantora, que incluiu no roteiro a balada Pérola Negra, pérola que brilha tanto pela melodia envolvente quanto pela forte poesia, marcada por imagens inusitadas: “Rasgue a camisa/enxugue meu pranto/Como prova de amor, mostre o teu novo canto/Escreva no quatro em palavras gigantes: ‘Pérola Negra, te amo, te amo’”. Ainda em 1972 foi a vez de Maria Bethânia se encantar (e encantar o Brasil) com Estácio, Holly Estácio, outro clássico, gravado no álbum Drama.

Graças ao aval dessas duas divas da MPB, as portas da indústria se abriram para Luiz Melodia, que confirmou com sobras seu talento no fundamental disco Pérola Negra (1973, selo Philips). Com direção de produção de Guilherme Araújo e produção musical do guitarrista Perinho Albuquerque, além de suas versões para Pérola Negra e Estácio, Holly Estácio, que, por sinal, nada deviam às de Gal e Bethânia, o repertório trazia mais provas do grande compositor que surgia em canções como Farrapo HumanoMagrelinhaObjeto HForró de JaneiroEstácio, Eu e Você e Vale Quanto Pesa.

Seu segundo disco, Maravilhas Contemporâneas (1976, Som Livre), manteve o nível da estreia, puxado pelo sucesso Juventude Transviada (tema da novela Pecado Capital) e ainda incluindo mais clássicos como a faixa-título, CongênitoVeleiro Azul (esta, muito bem regravada em 2015 por Mariana de Moraes) e Memórias Modestas. Ao lado do intérprete também fora de série estavam muitos dos músicos que, na mesma época, criariam a Banda Black Rio, grupo que o acompanharia no álbum seguinte, Mico de Circo (1978).

Através das quatro últimas décadas, apesar de não contar com a mesma repercussão, ignorado pelos grandes intérpretes da MPB (e desde a estreia detonado por parte da crítica conservadora), Melodia não parou de produzir maravilhas musicais eternas, como ouvimos em seu último disco de estúdio com repertório inédito, Zerima (2014, Som Livre) – numa das faixas, Dor de Carnaval, ele contou com a participação da cantora Céu.

O artista original partiu em 4 de agosto de 2017, mas, sua obra continua  viva, eternizada também em álbuns como Felino (1983), Claro (1988), Pintando o sete (1991) e 14 quilates (1997).  Pérola Negra, te amo, te amo.

PS: Em 2016, convidado/contratado pela produtora Cinthya Graber, fui curador de uma série de shows no Teatro da UFF (Universidade Cultural Fluminense). Entre os participantes estava Luiz Melodia e essa noite em Niterói, em 26 de junho, registrada pelo diretor de vídeos Jodele Larcher, acabou virando sua última apresentação gravada. Em janeiro de 2018, estreou no Canal Brasil com o título Zerima: 40 anos de Melodia

2 pensamentos

  1. Luiz Melodia foi uma grande perda para a MPB. Sua voz era única, potente, de muita negritude, que fluía sem esforço. Suas composições são ricas e muito regravadas. Muito embora já fosse conhecido e tivesse sido gravado por Gal Gosta em 72, e no ano seguinte ter feito sua primeira gravação com o ótimo álbum Pérola Negra, ampliou sobremaneira sua imagem no festival da TV Globo de 75, quando chegou à final com a música Ébano.

    1. sim, ‘Ébano’, outro clássico. Bem lembrado. Melodia merecia mais em vida, mas, sua obra continua. abs

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