“Nunca levantei bandeira. Eu era a bandeira!”

Edy Star fala de música, artes plásticas, Salvador, São Paulo e Madri. E muitas outras histórias

Para ser lido ao som de Edy Star em Sweet Edy

Mistura de Alice Cooper com Lennie Dale, de David Bowie com Ney Matogrosso da fase Secos & Molhados, irmão-gêmeo dos Dzi Croquettes e antecipador das Frenéticas, o inclassificável Edy Star ainda hoje é um caso único na história recente da MPB. Disposto a driblar o esquecimento a que esteve relegado, Edy Star ressurgiu há dez anos armado com Sweet Edy, seu único disco gravado nos anos 70 e durante muitos anos fora de catálogo. Mas não é só: além disso, Edy Star ainda tem muitas bandeiras a desfraldar. Pioneiro do glitter, do glam, da androginia, do movimento gay – embora não goste da definição. “Sou bicha, não gay”, disse certa vez em uma entrevista a um programa de TV –, ele recebe agora o reconhecimento e a compreensão que não teve há mais de quatro décadas. “Sempre fui chamado de ‘viado’ e nunca me ofendi. A palavra gay é uma merda. O que faço não é coisa de gay. É bichice, mesmo. É viadagem”, definiu numa entrevista.

Na época, aos 36 anos, Edy Star já se destacava com seus espetáculos performáticos na boate Number One, no Rio. “Eram shows muito avançados para aquele período de ditadura. As cenas eram sexuais, tinha lesbianismo e até um anão que corria nu pela plateia”, recordou Edy numa entrevista anos atrás.

Edy era ainda uma das quatro pontas da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, que reunia os malditos Raul Seixas – seu amigo de infância na Bahia e que só o chamava de Bofélia –, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada. O disco lançado pelo quarteto (Sessão das Dez), uma mescla de tropicália com Sgt. Pepper’s, também causou estranheza, recebendo o mesmo desprezo que seria dedicado a Sweet Edy.

Seu disco de estreia era um resumo daqueles dias em que Edy Star foi mais maldito do que nunca. Seu habitat eram os inferninhos e boates gays da Lapa, de Copacabana e da Praça Mauá. Seu visual misturava uma forte maquiagem na linha Alice Cooper com muita purpurina, paetês e plumas. Sua linguagem era espalhafatosa, desaforada e repleta de gírias. E seus inimigos eram a censura e a caretice, duas forças que não o deixaram em paz nem mesmo depois do fim da ditadura.

Assim, no governo Collor, desiludido, desesperançado e com os parcos rendimentos retidos, pensou em cometer suicídio. Não um suicídio qualquer, que não lhe renderia nem uma pequena nota de jornal, mas uma morte na sua amada Espanha, das touradas e de Almodóvar. Partiu decidido a dar um fim à vida, mas lá encontrou o renascimento. Voltou ao Brasil aos 74 anos, depois de uma longa temporada europeia, onde foi mestre de cerimônias do cabaré de luxo Chelsea 2, em Madri. Voltou para brilhar, inclusive, nas páginas do Facebook, onde brinda seus leitores com chistes, poemas, opiniões e uma implacável bolsinha recheada de fotos.

Foi assim que nos conhecemos. Sei que ele lê alguns dos meus escritos – e comenta em muitos. Já eu o acompanho mais ainda: gosto do que escreve, acompanho muito de seus vídeos, me divirto com suas opiniões e com sua famosa bolsinha. Assim, nada melhor do que pedir para que ele resumisse um pouco de sua carreira nessa entrevista feita à distância e por escrito.

Se a Bahia havia dado régua e compasso – ele nasceu em Juazeiro, em janeiro de 1938, e mudou-se com a família para Salvador com um ano de idade –, o Edy Star que voltou da Europa estava disposto a mostrar que nunca se intimidou. Desta forma, o que ele dizia em 1974 continua atual. Já na abertura do primeiro disco, ele atacava com Claustrofobia, de Roberto e Erasmo Carlos, e avisava: “Pare de me sufocar/Eu quero tocar bonito/Porque senão eu grito…”. E é gritando que ele segue com Edyth Cooper, de Gilberto Gil, em que a referência a Alice Cooper é mais do que óbvia, e O Conteúdo, do igualmente tropicalista Caetano Veloso. No balaio de Edy Star ainda cabem o escracho de Pro que der na Telha, dos Novos baianos Moraes e Galvão, e Olhos de Raposa, de Jorge Mautner, além da dor-de-cotovelo de Esses Moços e das biográficas Superestrela, de Leno, e Eu Sou Edy Star, dele mesmo.

Com esta capacidade de se reinventar, Edy Star confirma que Sweet Edy é um lançamento que, por si só, já seria inovador na pasmaceira da música brasileira atual. Mas com o acréscimo de charme e mistério que o silêncio de tantos anos deu ao autor e à obra, o resultado ficou ainda mais audacioso – e divertidíssimo.

Na entrevista a seguir – a mais longa que já vi feita com Edy –, ele recorda todas as fases da sua vida, pessoal e artística. Alterna sacadas bem-humoradas com reflexões sérias. Apesar do pioneirismo em várias frentes, não se sente responsável por ter empunhado qualquer bandeira. “Me siga quem quiser”, me diz ele logo adiante. Eu sigo.

Como foi começar a vida artística naquela efervescente Salvador dos anos 50, 60, e do convívio com Caetano, Gil, Glauber?

Eu tinha 12 anos quando comecei a cantar no programa infantil Hora da Criança, onde também estava Cyva e Cybele, as meninas do Quarteto em Cy. Salvador vivia uma explosão artística em todos os ramos e fui me envolvendo e conhecendo muitas pessoas. No final da década, conheci Caetano Veloso em Santo Amaro, época em que eu trabalhava na Petrobras. Também conheci o Gil, que tocava no programa do JS na TV Itapoan, onde me apresentei (Procissão, música de Gilberto Gil, lançada em seu primeiro LP, de 1967, tem versos de Edy. “Nunca cobrei nada – nem ele negou que eu fosse coautor. Até que precisei de dinheiro. Há três anos, pedi minha parte. Quanto ganhei? Não digo”, confessou Edy em entrevista à FSP). Daí ficamos amigos, nos encontrávamos à noite e corríamos os cabarés e churrascarias dando canja, todo mundo se conhecia… Glauber eu conheci por intermédio do Paulo Gil Soares. Naquele tempo, ele ainda era crítico de cinema dos Diários Associados e estava filmando um de seus primeiros trabalhos, Pátio.

Você começou como artista plástico. Seu penúltimo catálogo de obras tem prefácio escrito pelo escritor Jorge Amado. Você ainda se dedica a isso?

Quando comecei cantando, eu já desenhava. Cheguei a expor em Salvador, no Rio de Janeiro, no Recife, em Los Angeles e Massachussetts. Participei de várias coletivas e de três Bienais. Agora, com a pandemia, tenho pintado um pouco, apenas umas coisinhas. Nada importante. Apenas para não enlouquecer.

Como foi o trabalho na TV daqueles primórdios? É verdade que você foi demitido no ar?

Comecei como produtor na TV Jornal do Comércio, no Recife, em 1967, logo após o êxito do meu musical Memórias de Dois Cantadores. Era fascinante, mas também muito trabalhoso. Não havia essas facilidades de hoje. Era tudo ao vivo, e um produtor administrava todo o programa. Depois fui para a TV Itapoan, em Salvador. Foi lá que no meio de um programa de auditório, cobrei meus salários atrasados. Claro que fui despedido, ou melhor, expulso.

E como decidiste ir para o Rio?

Já havia estado no Rio antes por duas vezes, uma delas para a minha exposição de pintura, mas em definitivo foi em 1970, quando fui contratado por Raul Seixas como artista da CBS.

Quais foram tuas primeiras atividades e contatos no Rio?

Nesses primeiros dias, eu ia muito à sala do Raulzito na CBS. Lá eu ia gravar e também cheguei a conhecer outros artistas emergentes e também o pessoal de rádio, que me deu oportunidade de cantar à noite em shows.

Como surgiu a gravação do disco?

O primeiro foi feito em 1974. Fui convidado por João Araújo para gravar pela Som Livre. O segundo foi 43 anos depois. Quem teve a ideia e produziu foi o Zeca Baleiro.

Os resultados te agradaram?

Sou vaidoso e orgulhoso dos resultados de ambos. Tem muito de mim e das épocas que vivi. Todos os discos estão esgotados. Viraram cults e valendo $$ no mercado musical.

Como era a cena alternativa daquela época, com tanta censura, com a ditadura e também com a caretice?

Os anos 70? Foram os anos alternativos ou udigrúdi. Foram os mais criativos. Sempre havia um jeitinho de driblar a censura. E a caretice era generalizada.

Como era o teu envolvimento com a causa gay? Você era próximo dos Dzi Croquettes, da turma do Lampião?

Não havia causa gay. Eu e muitos outros atuávamos. E fim! Nunca levantei bandeira. Eu era a bandeira! Me siga quem quiser. Também sempre fui muito amigo dos Dzi Croquettes, principalmente do Lennie Dale. Até hoje sou amigo dos que ainda estão por aí. Também frequentei demais a redação do Lampião. Acompanhei tudo. Via ali uma luta insana. Até hoje mantenho amizade com os remanescentes. E reconheço a coragem de enfrentar a perseguição que eles sofreram pela ousadia de misturar viadagem e política.

Como era tua proximidade com os Kavernistas, em especial o Sergio Sampaio e mais ainda teu conterrâneo Raul?

Era a proximidade normal de bons amigos empenhados em um trabalho. Só depois que o disco não deu certo é que me aproximei mais do Sergio, que frequentava quase toda tarde o meu apartamento na Lapa. O Raul eu já conhecia há muito tempo, desde Salvador quando, em 1956, fundamos o Elvis Rock Clube. Foi meu amigo até a sua prematura morte…

Você no Rio mantinha contato com outros baianos, como Gal, Caetano…

SEMPRE mantive contato com os velhos amigos, principalmente os baianos. Na Europa, eu ia aos ensaios e depois saíamos para a diversão.

Você entrou numa depressão braba logo, chegando inclusive a pensar em suicídio?

Sim, tive minhas crises e pensei, sim. Coisas da vida… E ainda penso…

Por que você decidiu se mudar para Espanha?

Porque vi o meu mercado de trabalho sufocado e sem perspectivas – como agora. Mas a ideia não era me mudar. Me preparei para ir passar um mês e voltar. Mas, fui ficando…

Como era o trabalho num cabaré da Espanha?

Meu trabalho lá era de apresentador e comediante. Sempre foi muito prazeroso e disciplinado. Cheguei a atuar em Madri, Barcelona, San Sebastian… Todos locais de alta categoria.

E por que você decidiu voltar?

Acreditei em um “novo” Brasil, onde eu teria um mercado de trabalho. Mas tudo aqui mudou. E acho que hoje está muito pior do que quando saí daqui.

Como é morar em São Paulo?

Tenho a facilidade de me adaptar às cidades. Depois de provar seis capitais, me decidi por São Paulo pelo movimento artístico e financeiro. As outras capitais estão em total decadência, principalmente o Rio.

Como é o teu cotidiano?

Me acostumei a que todos os amigos têm outra vida paralela e não se veem com frequência. Ninguém visita ninguém. Passo a maior parte dos dias em casa. Faço minhas pesquisas, planejo projetos. Só leio algo quando acho que é muito interessante. E às vezes pinto, que é para não enlouquecer de vez.

Você tem sido bem tratado nos últimos anos, com entrevistas, depoimentos, participações em documentários, presença constante nas redes sociais. Você virou uma nova estrela aos 80 anos?

O que seria “bem tratado”? Apenas virei um arquivo. Quando querem alguma informação sobre o passado me procuram. Só aparecem porque não podem negar que AINDA existo. Mas não sou essa estrela que citas, pois nunca possuí os atributos necessários. Todos me adoram, mas sempre tenho dificuldades em conseguir um show. Sou sozinho e tenho os pés no chão, tá?

Você pensa em escrever um livro de memórias? Você pensa em dar um uso editorial às fotos da “tua Bolsinha”?

Tás louco? Nem pensar… Para quê? Não tenho nada para contar. Eu vivi e me basta. Todo o meu material físico, inclusive recortes e fotos espero que sejam queimados quando eu me for. Queimem a Bolsinha e estarei muito satisfeito. Já não estarei aqui. E tenho dito!

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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