Mil tons

Antônio Carlos Miguel escreve sobre o encontro de Milton Nascimento com o Jobim Trio, uma entidade perdida e reencontrada

Para ser lido ao som de Milton Nascimento e Jobim Trio em Novas Bossas

Arte: Daniel Kondo

Tarde entrou a esmo certa tarde no tocador de música. O vocalise inconfundível, quase simultaneamente colado a piano, bateria, violão e contrabaixo, não me deixou dúvida em relação ao artista. Permaneceu, no entanto, uma pergunta: de onde vem essa versão jazzy de um dos clássicos iniciais de Milton Nascimento? Canção de seu segundo álbum brasileiro –lançado em 1969, saiu entre o de estreia, aquele que trazia Travessia, e Courage (este o debut nos Estados Unidos, em 1968, gravado no célebre e jazzístico Van Gelder Studios, em Nova Jersey). Em sua primeira gravação, violão (igualmente inconfundível, palhetadas em cordas de nylon), naipe de sopros e vocalise introduzem as cores sombrias do fim de um dia: Das sombras quero voltar/Somente aprendi muita dor/E vi com tristeza o amor/morrer devagar, se apagar/Quero voltar…

E por aí segue o lamento do letrista Márcio Borges, em andamento que parece o de uma marcha lenta se arrastando pelas ruas de Ouro Preto. Ou Nova Orleans, soando tão familiar a Wayne Shorter, que, em 1975, incorporou a música ao repertório de Native Dancer, álbum dividido com Milton Nascimento.

Mas a Tarde que me capturou naquela tarde também não veio desse outro encontro, no qual o tema é introduzido por órgão de Wagner Tiso e, logo em seguida, o piano elétrico de Herbie Hancock, para depois Milton passear pela letra em seu português original, acompanhado da base de bateria (Robertinho Silva), baixo (Dave McDaniel) e guitarra (Jay Gradon ou David Amaro, já que os dois são listados nos créditos), e só então o sax de Wayne Shorter entrar e solar na tarde que se vai.

Antes que o modo aleatório botasse outra gravação da biblioteca, fui conferir e, ao solucionar o melodioso mistério, fui reapresentado a Novas Bossas, o raro e ignorado encontro de Milton Nascimento com o Jobim Trio – este, como aqueles trevos sortudos, na verdade, é um quarteto, com Daniel Jobim (piano e voz), Paulo Braga (bateria), Paulo Jobim (violão e voz) e a participação especial de Rodrigo Villa (contrabaixo).

Em 2008, vivendo o ritmo alucinante das helldações, quando o que conhecemos como imprensa escrita já agonizava, estive entre os que escreveram sobre o álbum. Consegui um pé de página 2 para a simpática reportagem feita na casa de Milton em Intanhangá. Mas, após busca no acervo digital do jornal, percebo 13 anos depois que, além do espaço reduzido, o texto é burocrático. Na época, devo ter gostado do disco sem perceber seu verdadeiro valor. A cópia que recebi (na verdade, uma prova vagabunda, CDR e capa e encarte impressos apenas para mostrar o CD que a EMI botaria no mercado) foi para a estante e por lá ficou ganhando poeira junto aos quase dez mil outros de música popular brasileira acumulados através da Era do CD. Até, certa tarde, Tarde entrar no modo aleatório, me enfeitiçar e me levar a reouvir o álbum na íntegra.

Desde então, tem tido muitas doses e seu encanto só aumenta. Mais do que Novas Bossas, em suas 14 faixas, ele nos apresenta a uma entidade, JobiMilTom. Oito canções de Jobim (e cinco parceiros) que fogem do óbvio (incluindo a bela e quase nunca lembrada Velho Riacho; e a melancólica Esperança Perdida, preciosa parceria com Billy Blanco), três do Clube da Esquina, uma com letra e música de Vinicius de Moraes (Medo de Amar), uma de Dorival Caymmi (O Vento) e uma de Daniel Jobim (Dias Azuis, então a única inédita).

Como todo mundo que importa de sua geração quase octagenária na música brasileira, o carioca criado mineiro Milton Nascimento foi fortemente impactado pela obra de Antonio Carlos Jobim e sua turma. E quando muitos do que importavam na pós Bossa Nova racharam entre Tropicália (Caetano, Gil e companhia) e MPB (Chico, Edu e companhia), Milton e sua turma criaram uma terceira via com o Clube da Esquina.

Entre os nascidos na primeira metade dos 1940, Chico se tornou parceiro letrista de Jobim, enquanto Edu foi o que musicalmente mais se aproximou, até dividindo um álbum com Tom. Mas, dá para arriscar que Milton foi quem realmente avançou junto e além das trilhas abertas por Jobim e Novas bossas é mais uma prova disso. É só procurar em seu aplicativo de streaming e provar.

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