Um sonho americano

Roberto Muggiati lembra como Benny Goodman teve a oportunidade de sair da miséria por meio da arte

Para ser lido ao som de Benny Goodman em Moonglow

Foto: Hans Bernhard (Schnobby), CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Benjamin David “Benny” Goodman (1909-1986) viveu uma das mais fascinantes aventuras culturais do século 20: a era das big bands. Filho de imigrantes judeus russos, deu à música norte-americana de origem negra a projeção e dignidade que lhe foram recusadas durante décadas pelo racismo institucionalizado. Além de sua capacidade de organização e liderança, Benny Goodman foi um dos melhores clarinetistas de todos os tempos, e derrubou as barreiras que separavam clássico e popular: sentia-se tão à vontade interpretando um tema de Count Basie como um concerto de Mozart.

Tudo começou no outono de 1921, em Chicago, quando um garoto franzino de 12 anos, vestindo bombachas e segurando o que parecia uma imensa clarineta, subiu ao palco do Central Park Theater numa matinê de sábado para imitar um famoso instrumentista da época. Embora não passasse de uma curiosidade de vaudeville, o menino chamou a atenção do baterista e band-leader Ben Pollack. Pouco antes de completar 16 anos, Benny pegou uma mala de papelão e um trem para a Califórnia e juntou-se à orquestra de Pollack, iniciando uma das mais bem sucedidas carreiras do showbiz americano.

Benny é um caso exemplar do “sonho americano”. O pai, alfaiate, acreditava que um de seus 12 filhos teria a oportunidade de sair da miséria por meio da arte. O velho David só teve dinheiro para pagar as aulas de música de três filhos, na sinagoga Kehelah Jacob, a 25 centavos a hora – caro, para ele que fazia no máximo 20 dólares por semana. Harry, 12 anos, ganhou uma tuba; Freddie, 11 anos, um trompete, e Benny, 10 anos, uma clarineta. O menino ficou fascinado com os tubos de madeira negra que se encaixavam uns nos outros, as chaves de metal brilhante, os descansos de feltro verde. Vendo que o filho tinha talento, o alfaiate resolveu investir num renomado professor particular de Chicago. Era um alemão da velha escola, de temperamento prussiano, mas sem preconceitos: quem pudesse pagar, tinha aulas. Assim, o judeu Benny Goodman e o negro Buster Bailey tocaram seus primeiros duetos diante do empertigado Herr Franz Schoepp, da Sinfônica de Chicago. É um episódio que reafirma o papel da música, particularmente do jazz, na derrubada das barreiras raciais na América do Norte. O jazz e o blues tinham nascido no Sul, na região do delta do Mississippi, mas um verdadeiro êxodo das populações negras para o norte acabou levando para Chicago a excitante música originada em Nova Orleans.

Na música negra, uma quantidade de jovens brancos encontrou um encanto e uma vitalidade que faltavam à sua própria cultura. Eram os tempos da Lei Seca: bebidas alcoólicas eram terminantemente proibidas, mas nunca se bebeu tanto. Menor de idade, Benny não podia ir ao bar nos intervalos das apresentações com os outros músicos. Ficava praticando a clarineta. Aí uma das muitas explicações para o seu virtuosismo, que se deveu, no fundo, basicamente ao dom natural somado à perseverança e a uma paixão sem limites pela música. Na orquestra de Ben Pollack, Benny era colega de um trombonista chamado Glenn Miller. Quando Pollack trouxe a banda de volta a Chicago, o irmão de Benny, Harry, encontrou um lugar nela tocando tuba e contrabaixo. com os outros filhos também empregados, o velho alfaiate pôde finalmente trocar seus botões (a vista já estava falhando) por uma banca de jornais. Adorava trabalhar ao ar livre, sentir o vento gelado da cidade no rosto.

David Goodman prometera ir ver os filhos tocando no elegante Southmoor Hotel, mas queria antes comprar um terno novo para a ocasião. Certa noite, quando havia fechado a banca e voltava para o jantar em casa, um carro desgovernado subiu na calçada, o atropelou e matou. A vida continuou para os Goodman e Benny, seguindo a bússola do jazz, mudou-se para o novo norte magnético: Nova York. Em 1934, morando com a mãe e os irmãos menores, ganhando apenas US$ 40 por semana, se viu diante da grande decisão de sua vida: aceitar uma cômoda posição de assalariado na famosa orquestra de Paul Whiteman ou se arriscar e formar sua própria orquestra. Escolheu o mais difícil e embarcou nos meandros da organização musical. Mas sua estrela era forte e sua orquestra foi escolhida para um importante programa de rádio de difusão nacional: três horas de música, nas noites de sábado, transmitidas por uma rede de 53 emissoras, sob o patrocínio de uma famosa marca de biscoitos. Foi assim que a orquestra de Benny Goodman se tornou conhecida por todo o país e, já em 1937, desencadeava a grande explosão da era do Swing, em sua temporada no Teatro Paramount de Nova York, com jovens dançando desenfreadamente nos corredores da plateia.

O band-leader começou a cercar-se de estrelas como o pianista Teddy Wilson, o vibrafonista Lional Hampton – ambos negros – e o baterista Gene Krupa. Músico com um olho voltado para os mecanismos do showbiz, Benny abriu muitas portas para o jazz, conseguindo um feito histórico com o famoso concerto de 16 de janeiro de 1938 no Carnegie Hall, até então um templo exclusivo da música clássica. Com a corajosa atitude de contratar músicos negros – quando as bandas costumavam ser exclusivamente brancas ou negras – rompeu importantes barreiras sociais. Mostrou também que a música não tinha fronteiras, ao incursionar com sucesso pelo repertório erudito. Chegou ao requinte de encomendar em 1938 uma peça ao húngaro Bela Bartok – o maior compositor vivo da época – Contrastes para Clarineta, Violino e Piano, que apresentou ao vivo no Carnegie Hall e depois gravou com o violinista Joseph Szigeti e o próprio Bartok ao piano. Além de clássicos como Mozart, Benny gravou também compositores de vanguarda como Hindemith e Stravinsky.

Sua vida pessoal foi marcada em 1942 pelo casamento com uma divorciada de sobrenome aristocrático, Alice Hammond, irmã do crítico John Hammond, descobridor, entre outros, de Count Basie, Billie Holiday, Lionel Hampton e… Benny Goodman. O casal foi retratado romanticamente em tecnicolor no filme de 1955, The Benny Goodman Story. (Glenn Miller foi lembrado no ano anterior, em The Glenn Miller Story/Música e Lágrimas) com uma década de atraso, Hollywood homenageava os grandes band-leaders do Swing, que haviam desempenhado um papel fundamental no esforço de guerra. Músicas como Stompin’ at the Savoy e In the Mood fizeram muito mais para levantar o moral das tropas na II Guerra do que qualquer hino marcial com os ouvidos abertos para os novos sons, Benny já em 1948 gravava com luminares do bebop como o trompetista Fats Navarro e o saxofonista Wardell Cray, ambos negros. Soube atravessar com vigor a era do rock e, contratando músicos jovens, projetou sua música através das décadas de 70 e 80, sempre alternando-se entre o jazz e o erudito. Quando completou 60 anos de carreira, em 1981, escrevi que, se dependesse de sua vontade, Benny Goodman morreria com a clarineta entre os lábios tocando uma blue note. Em 13 de junho de 1986, uma sexta-feira, Benny morreu, enquanto ensaiava para um concerto clássico de Brahms. Mas – quem sabe – sua clarineta mágica não tivesse sutilmente encaixado uma nota azul na partitura de Brahms?

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