Entre Marx e Santa Claus

Antônio Carlos Miguel traça as carreiras musicais de dois barbudos inquietos e inventivos

Para ser lido ao som de Robert Wyatt em Moon in June

Para ser lido ao som de Paddy McAloon em I Trawl the Megahertz

Na velhice, graças às longas e brancas barbas, os ingleses Robert Wyatt (nascido em 28 de janeiro de 1945, Bristol) e Paddy McAloon (7 de junho de 1957, Condado de Durham) parecem irmãos. Musicalmente, é possível mais associações, ambos transitam no saco de gatos da abrangente música pop, mas, com saudáveis incursões por outros gêneros e referências.

Rober Wyatt (Foto: Reprodução)

O mais velho, 76 anos, formou seus primeiros grupos em 1962 e, entre 1966 e 1971, foi baterista e cantor no Soft Machine, que surgiu no psicodelismo e migrou para o jazz-rock, com pelo menos dois álbuns ainda fundamentais para o estilo. Aos 64 anos, o segundo tem sua carreira ligado ao grupo Prefab Sprout, como cantor, guitarrista e compositor de sofisticadas canções, nas quais têm como referência Webb, Bacharach, Gershwin, Wonder, Lennon & McCartney e companhia.

No álbum duplo Third (1970), cada qual do então quarteto tinha direito a um lado inteiro de vinil para viajar sem limites. Cada um com uma solitária e longa faixa, Robert Wyatt compareceu com a estranha e psicodélica Moon in June, a única não explicitamente jazzística, cantada no habitual fiapo de voz, insuportável para muitos. Tínhamos lido na revista Rolling Stone original uma crítica botando Third na Lua. E, graças a amigo de pai também escritor que faria curso em Londres, ainda naquele 1970, encomendamos quatro álbuns duplos, em lista completada por Uncle Meat (Frank Zappa/ Mothers of Invention), Live/Dead (Grateful Dead) e Absolutely live (The Doors). De volta ao Rio, para o alívio de nossas semanadas, o amigo não pediu restituição (ou pai bancou?). Entusiasmado, contou que causou na loja, ouvindo do surpreso vendedor: “Mas, conhecem no Brasil a Soft Machine?”

Wyatt ainda gravou o LP seguinte da banda, Fourth. Este, simples, era mais uma prova de quanto foi criativo naquele momento o encontro de jazz e rock. É disco que também envelheceu bem, talvez a melhor forma de, para quem ainda não conhece, entrar em contato com ogrupo.

Até que, em 1973, já fora do Soft Machine – no grupo Matching Mole, bêbado, caiu da janela no quarto andar de prédio durante uma festa. Paraplégico, largou a bateria mas continuou fazendo música, compondo, cantando, tocando trompete e eletrônicos.

Com solista, têm quase 20 álbuns – entre estúdio, ao vivo e colaborações com outros artistas – e ainda participações em trabalhos de jazz como os de Michael Mantler, Carla Bley e Charlie Haden e sua Liberation Music Orchestra. Em seus discos, predominam canções algo experimentais, bem-humoradas, politizadas (nos anos 1980, Wyatt se filiou ao Partido Comunista Britânico) e ricas em referências, de Marx a Lorca. Um poema deste, Canción de Julieta, cantado em algo próximo do espanhol dirão falantes do idioma de Cervantes e… Che, é bom exemplo de tudo de bom que Wyatt é capaz. É uma das 17 faixas de Comicopera (2007), que também tem outra em espanhol, a rumba Hasta Siempre Comandante, ode a Guevara.

Passando para o barbudo 12 anos mais moço, dá para arriscar que Paddy McAloon está mais para Santa Claus (ou Jesus) do que Marx. Musicalmente, mais melódico e harmonicamente estilizado, como mostram os discos que o Prefab Sprout fez regularmente entre 1984 e 2001. Desde então, vieram a público álbuns que estavam engavetados: um lançado como solo, I Trawl the Megahertz, voltou creditado ao grupo e fitas dos anos 1990 nos quais compôs, cantou e gravou todos os instrumentos renderam mais dois CDs. Nos últimos anos, toda a obra foi reeditada em vinil e o clube de aficionados cresce aos poucos. Assim como Wyatt, McAloon tem saúde frágil – audição afetada por tinnitus, um zumbido que não dá trégua; visão quase perdida não fossem os muitos tratamentos, de cirurgias a colírios de última geração.

Em suas entrevistas recentes, parece driblar as mazelas com sabedoria e prazer por saber o quanto vem sendo reverenciado. Em 1997, quando o Prefab Sprout lançava Andromeda Heights, bati um bom papo com McAloon, mas, o então editor era dos “mudernos”, antenado nas bandas da última semana em Londres, e meu texto foi trucidado. O cérebro e alma do Broto Pré-fabricado (em tradução possível) me confirmou que Jobim e a bossa nova eram referências, mesmo que não tão presentes.

Andromeda… era bom, mas não tão quanto a sequência Swoon (1984), Steve McQueen (1985), From Langley Park to Memphis (1988), Protest Songs (1989, mas, gravado no mesmo 1985 de Steve McQueen) e Jordan: The Comeback (1990).

Para interessados, bom começar por Steve McQueen, o de estreia no Brasil – que, assim como nos Estados Unidos e filiais, teve o nome trocado para Two Wheels Good devido a reclamações dos herdeiros do ator. Puxado pela balada When Love Breaks Down, é pop perfeito, rico em nuances, melódico e com letras muito além do boy meets girl ou do niilismo pós- punk que então prevalecia. Em Hallelujah (mais inventiva do que a homônima de Leonard Cohen) percebi que McAloon ia além ao conhecer o verso “I hear the songs of George Gershwin”. Jordan: The Comeback é outra ótima porta de entrada para a obra de PS. Ambicioso álbum que forma uma suíte, com letras que vão de citações bíblicas ao faroeste. Em uma delas, a delicada Paris Smith há outra pérola, verso que tomei como um mantra, objetivo a alcançar como batucador de texto: “But I tried to be the Fred Astaire of words”.

Não consigo, mas, insisto.

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