Chick Corea: 80 anos

Roberto Muggiati faz uma viagem em nove discos que ajudam a compreender o vasto universo musical de Chick Corea.

O pianista Chick Corea surgiu na cena do jazz em meados dos anos 60, quando o espaço era quase todo ocupado pelo rock. De lá para cá, Corea se alternou entre os teclados eletrônicos e o acústico, entre a fusion e o jazz, com incursões pelo erudito. A seguir, as escolhas:

Piano Improvisations Nº 1 (1971) Disco lançado pela gravadora ECM em que Chick Corea mostra o melhor de sua veia erudita no teclado acústico, sozinho, explorando composições suas, profundamente introspectivas.

A.R.C. (1971) – Do mesmo ano do disco anterior, a obra traz um contexto mais suingante, com Dave Holland (contrabaixo) e Barry Altschul (bateria), em faixa como Nefertiti (de Wayne Shorter), a bela Ballad for Tillie e o nervoso A.R.C. 

Return to Forever (1972) – Corea aparece no piano elétrico à frente do famoso grupo fusion que incluía os brasileiros Airto (que injeta uma batida de samba ao longo de quase todo disco) e Flora Purim (destaque vocal em What Game Shall We Play Today e Sometime Ago), Joe Farrell (na flauta e com incríveis solos de sax-soprano), e o contrabaixista Stanley Clarke. Um dos clássicos de Corea, La Fiesta, é desta gravação em quinteto e ressurge, em 1978, no álbum Duet

Chick Corea and Gary Burton In Concert, Zurich, October 28, 1977 Já houve bons duos piano/vibrafone no jazz – Teddy Wilson e Lionel Hampton nos tempos do swing, John Lewis e Milt Jackson no pós-bop, formando o som especial do Modern Jazz Quartet – mas a associação de Corea e Burton é uma coisa muito especial. Embora não tenham se fixado numa base permanente, Armando Antonio (Chick) Corea e Gary Burton têm gravado discos e participado de concerto e festivais em que demonstraram uma afinidade musical rara. Há passagens neste In Concert em que o entendimento dos dois é quase telepático, como se tocassem junto todo dia há décadas. É o que se sente de saída na vibrante primeira faixa, Senor Mouse, composição de Corea, como as demais, com exceção de HulloBolinasFalling Grace e Endless Trouble, Endless Pleasure, de Steve Swallow. Particularmente tocante é sua interpretação em Bud Powell, tributo ao grande pianista do bop, em que se destaca também seu talento de compositor, com uma linha melódica que evoca admiravelmente aqueles desenhos complexos e sinuosos do piano de Bud. Quanto a Burton, vibrafonista realmente inovador que levou adiante as revoluções de Hampton e Jackson no seu instrumento, improvisa como nunca, e o seu estilo pianístico se entrosa maravilhosamente com o teclado de Corea, fazendo de In Concert 1h20min de música criativa e coesa.

Duet (1979) Um dos melhores discos de Chick, aqui ao lado do vibrafonista Gary Burton. Os dois demonstram uma afinidade telepática em sua colaboração através de temas de Corea e de Steve Swallow (como Radio e Never).

Tap Step (1980) Disco que reúne os brasileiros Airto, Flora, Laudir de Oliveira e músicos como Joe Farrell, Joe Henderson, Hubert Laws e Stanley Clarke mas que te como resultado uma brincadeira cara. Corea passeia sem muita convicção por sua coleção de teclados e os temas que oferece, entre ele um Samba L.A., apesar de serem dedicados a gente como Charlie Parker, Thelonious Monk e Alban Berg, não chegam a comover.

Three Quartets (1981) Chick Corea volta a marcar pontos. Desta vez, ele se destaca como compositor e o traz na sua melhor forma no piano acústico (dois modelos diferentes de Bosendorfer, um para cada lado do disco). Para interpretar seus três quartetos – gravados em janeiro e fevereiro de 1981 –, Corea escolheu uma pequena formação: além dele, ao piano, o sax-tenor Michael Brecker, o contrabaixo acústico de Eddie Gomez e a bateria de Steve Gadd. Na primeira peça, sobressai imediatamente a qualidade melódica das interpretações de Brecker e Gomez, este com uma velocidade no contrabaixo comparável à de uma guitarra. Corea surge com o toque delicado e Gadd contribui com um apoio rítmico seguro, sem muitas filigranas. No Quarteto Nº 3, Chick assume um tom mais concertístico e ouve-se uma bela passagem intercalada em 3/4. O Quarteto Nº 2 ocupa toda a segunda parte do disco e divide-se em duas partes, dedicadas a Duke Ellington e John Coltrane, ambas sem nenhuma intenção de pastiche. A primeira se abre com um tenor nostálgico, desembocando num trio pianístico que lembra alguma coisa de Bill Evans (impressão reforçada pela presença de Gomez). A segunda evoca um pouco da agitação coltraniana, sem tentar imitá-lo. No fecho, uma raridade: um solo sensível de bateria, o som sem a fúria, fazendo uso inteligente do silêncio, prova da maturidade de Steve Gadd. Além de sua beleza musical, Three Quartets demonstra uma unidade temática.

The Reunion (1982) Friedrich Gulda era um dos nomes mais respeitáveis no circuito dos concertos eruditos quando resolveu embarcar na aventura do jazz. Já Chick Corea começou sua viagem do outro pólo, enriquecendo suas improvisações com elementos da música erudita moderna. O disco The Reunion registra uma reunião dos dois pianistas no Klaviersommer, Festival de Piano de Verão de Munique, em 1982. Os teclados empregados são acústicos – nada de pianos elétricos ou sintetizadores. Mas, às vezes, Gulda e Corea tentam escapar aos limites dos seus Steinway recorrendo a técnicas pouco ortodoxas como o toque direto nas cordas do piano. Assim como os estilos se fundem, também o repertório: a Berceuse de Brahms e Milestones de Miles Davis se entrelaçam como um só tema. 

Corea.Concerto (1999) Corea explora Spain para Sexteto e Orquestra e Concerto para Piano Nº 1, com a filarmônica de Londres regida por Steven Mercurio. O primeiro é uma elaboração erudita em torno de Spain, seu velho cavalo de batalha desde os tempos da banda Return to Forever, lançado em 1972. Já o concerto mais longo – ao contrário das peças eruditas compostas por pianista de jazz, como Keith Jarrett – é surpreendentemente clássico. Corea diz que partiu da sua admiração pela obra pianística de Mozart, mas a maior parte do concerto tem toques modernos e impressionistas – inclusive o início lembra muito Le Tombeau de Couperin, de Ravel.

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