Toto nem aí: sobre a Era (que não existiu) do DVD-Áudio

Antonio Carlos Miguel lembra como, ainda vivendo a euforia dos discos do milhão e errando os alvos, a poderosa indústria da música se afundava

Arte: Daniel Kondo

Título e subtítulo devem ser enigmáticos para muitos. O que me lembra que, durante a quarentena sem fim, tentei mais uma vez ler Cabeça de Papel, romance de Paulo Francis que o frustrou tanto. Pelo que sei, mais pelo fracasso comercial e, principalmente, junto à crítica. Tentei e mais uma vez desisti. O livro de Francis foi das poucas coisas que herdamos de um amigo mais velho, vizinho de rua nas suas três últimas décadas de vida, que, mesmo não mais entre nós, continua muito presente, Ezequiel Neves.

Mas, cá estou enveredando pelo labirinto de bifurcações habitual. A tentativa de roman à clef do jornalista-polemista que morreu em Nova York é como uma corrida de obstáculos, zilhões de citações e referências a cada parágrafo ou mesmo frase. Quem não foi colega de geração, ou até de redação, vai boiar em muita coisa, o prazer da leitura vira tortura.

Voltando ao que me trouxe aqui. Estamos na primeira década do 21. Assessoria de imprensa de multinacional de disco faz convite para um início de noite na sede da empresa, onde seria apresentado à grande novidade. Pedi carro do jornal para me tirar da hoje abandonada helldação d’O Globo na Rua Irineu Marinho e me deixar no destino da pauta. Ficava na Barra da Tijuca, onde o diretor-artístico (e mais alguns poucos) recebe-me com canapés e, segundo assegura, enófilo que é, ótimos vinhos portugueses. Terminadas as preliminares, sou apresentado à maravilha que vai tirar a indústria do CD da beira do precipício. A sala, com ótimas acústica e caixas, tocador de última geração, é tomada pelo som de um disco do Toto – não me perguntem qual.

São alguns minutos de apuro técnico de, entre outros, Steve Lukather, David Paich e Steve Porcaro, som límpido, cheio, chegando pleno aos nossos ouvidos. Como se os caras, invisíveis, tocassem no mesmo ambiente em que estamos bem, embebedando-nos. Em seguida, o volume é abaixado e chegamos ao que importa, ao discurso pronto. Da mesma forma que a entrada em cena dos compact-discs tinha dado novo fôlego à industria da música, o novíssimo formato levaria milhões de consumidores trocarem suas coleções de CDs (ou LPs de vinil em 33 e 1/3, discos de 45 em goma de laca, cilindros fonográficos ainda do século 19) por DVDs áudio.

Improviso a seguir o que foi a minha resposta. “OK, a sonoridade parece ótima, assim como o vinho. Mas, vocês já repararam nos jovens pelas ruas, nos transportes públicos, carregando a música em seus tocadores de MP3, fones nos ouvidos? Além disso, 90% ou mais destes que, historicamente, sempre foram os principais consumidores de música, não têm sala e equipamento de som, ou casa/apartamento, como o que nos abriga. Não sou especialista em coisa alguma, mas, posso apostar que o DVD-Áudio não vai emplacar. O público de vocês quer mais mobilidade, facilidades, liberdade do que essa insuperável qualidade de formatos e equipamentos com preços inacessíveis para a maioria”.

A última frase parece saída de um comercial de smart-phones e/ou operadoras de telefonia. Mas, foi o que aconteceu. O DVD-Áudio nunca passou de uma aposta errada. Ainda vivendo a euforia dos discos do milhão e errando os alvos, a poderosa indústria da música se afundava. Por mais que piratas físicos (chineses que chegavam pelas fronteiras paraguaias ou nacionais de fábricas de fundo de quintal) ainda fizessem estragos, essa não era a batalha. Nem aquela contra os piratas virtuais, que não deveriam ser entendidos como inimigos. Por mais danos que causassem, como o não pagamento dos justos direitos autorais, eles ofereciam soluções, anunciavam que os novos tempos da Era da Internet já eram realidade. A história do Napster, proibido e depois de anos de disputa na justiça, legalizado e já esvaziado e superado, resume bem.

Entre as muitas plataformas de troca de arquivos musicais, fui usuário de SoulSeek por um bom tempo. Portanto, passível de processo, multa, prisão. Através dela enriquecia a biblioteca. E também compartilhava música que já tinha, fossem CDs de minha coleção que queimava para o digital ou os arquivos que estava baixando na rede de amigos igualmente apaixonados por música. Quase sempre, material fora de catálogo, discos que, comercialmente, não justificavam o caro processo de reedição. Em qualquer formato físico, com sua fabricação, transporte até o depósito e dali para as lojas interessadas, onde aguardariam os incertos consumidores interessados em… Obscuros jazzsingers (Andy Bey, Jackie Paris, Mark Murphy, minha querida Blossom Dearie, Frank Minion, Lorez Alexandria, Bob Dorough…); velhos ou novos jazzmen ou do instrumental brasileiro; sambistas e compositores brasileiros do tempo do Onça; esquecíveis grupelhos psicodélicos do fim dos anos 60 (confirmando que nunca nos livramos do que marcou nossa adolescência); e continua. Não para, não para (para citar a popstar made in Honório Gurgel e que não está em minha biblioteca, mas respeito).

Na época, começou a cair uma ficha, percebi o quanto era injusta a cobrança de nós jornalistas especializados pelo relançamento imediato de tais tesouros empoeirados – ou do último grito em Londres. Também era inútil a, no mesmo período, luta pela numeração dos discos, que fez de Lobão o Dom Quixote dos independentes. Participei de um Roda Viva com o roqueiro sem causa no centro do estúdio da TV Cultura e, mea culpa, não levantei as dúvidas que, na época, já tinha sobre sua tese.

Lobão com quem convivi desde cedo, fui amigo e colaborei em sua breve revista (bancada por verbas do governo petista, como o próprio nunca escondeu). Percebi o quanto foi influenciado pelas personalidades alucinadas de dois amigos que partiram cedo, Julio “Gang 90” Barroso e Cazuza. Estes, dois exagerados que nunca foram santos, ou apenas os gênios celebrados por suas obras. Deles, o apequenado Grande Lobo copiou principalmente o lado espalhafatoso, jogando para a plateia, mas sem muito conteúdo.

Voltando ao que me trouxe aqui: após o episódio, a inesquecível noite do DVD-Áudio e dos vinhos portugueses, escrevi sobre o tema e fiz minhas previsões. Tanto no blog d’O Globo quanto em coluna para o nanico International Magazine (que não era revista nem internacional, mas jornal mensal carioca, eitado pelo misto de advogado, jornalista, pesquisador, produtor musical e fã de Beatles Marcelo Fróes). Nesses textos, alertava que o futuro chegara e a indústria da música não percebera. Até sugeri um modelo tipo clube da música. Amantes pagariam uma mensalidade e teriam direito a um determinado número de encomendas. Sugeria ainda que aqueles com mais poder aquisitivo também poderiam pagar por produtos personalizados, fossem discos físicos autografados, camisetas, etc…

Ninguém se interessou ou respondeu, mas, muito do que botei nessas cartas perdidas em garrafas no oceano virou realidade na Era do Streaming.

PS: Toto foi uma banda formada por cobras dos músicos de Los Angeles, adorada por músicos pop de todo o mundo (como o carioca de torcedores do Fluzão Roupa Nova), e que nunca me interessou. Nunca mantive um álbum deles. Após a conferida profissional e habitual, era colocado na pilha para reforçar o salário baixo – prática condenável, mas, praticada por todos os colegas, de jovens a velhos repórteres especializados e editores que então recebiam os gordos suplementos de discos das gravadoras.

E para o recurso sempre condenável do trocadalho, apropriei-me de “Tô nem aí” de…. quem mesmo? Ao apelar para tiozona Ecosia (buscador que, dizem, direciona parte de seus lucros para o reflorestamento), vi que, além do sucesso efêmero da hoje também esquecida Luka, há outras variações desse título em canções de sertanejos ou de astros mortos, como Genival Lacerda (“Não tô nem aí”) e Raul Seixas (“Eu não tô nem aí”).

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