O pianista, o aluno e o zelador

De como um encontro improvável entre três pessoas é capaz de produzir um fantástico disco de jazz

Para ser lido ao som de Thelonious Monk em Monk Palo Alto

Em 1968, o mundo andava muito estranho. Um artista genial de pouco mais de 50 anos – que havia mudado o rumo do jazz – era considerado um velho e estava quase relegado à aposentadoria. Estranho também era um dos fãs deste músico, um garoto de 16 anos que estudava na Palo Alto High School. Completando a estranheza do trio havia o zelador dessa mesma escola, que se interessava por técnicas de áudio e jazz. Do encontro dessa inusitada trinca surge Monk Palo Alto, um dos melhores discos de jazz dos últimos tempos.

A história é tão surpreendente quanto instantânea. Sabendo que Monk iria se apresentar em San Francisco, Danny Scher telefona e conversa com o empresário do pianista sobre a possibilidade de uma apresentação do músico na sua escola. Monk e seu quarteto (o saxofonista tenor Charlie Rouse, o contrabaixista Larry Gales e o baterista Ben Riley) iriam tocar na Jazz Workshop e aceitaram viajar os 52 quilômetros que separam as duas cidades. O mais impressionante é que em nenhum momento foi pronunciada a palavra “cachê”. Monk tocou de graça. O concerto beneficente, segundo Danny argumentou na época, serviria para arrecadar fundos para sua escola e ajudar a promover a unidade racial em sua comunidade. O ingresso custou dois dólares.

O zelador, não identificado e curioso em técnicas de áudio, entra na história ao sugerir a Danny que permitisse que ele afinasse o piano em troca da autorização para que gravasse a apresentação – e o mais surpreendente: a gravação é de boa qualidade, como é possível verificar agora, mais de meio século depois.

Assim, na tarde de 27 de outubro, o Thelonious Monk Quartet sobe ao palco para tocar por 47 minutos e apresentar um repertório que inclui Ruby My DearBlue Monk Epistrophy, entre outras. A estranheza se encerra com um mistério: por que esta gravação ficou todo este tempo guardada no armário de Danny? Quando ele a redescobriu, entrou em contato com T.S., filho de Monk, que autorizou o lançamento. Monk pararia de tocar poucos anos após este show e morreria menos de uma década e meia depois.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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