Preste atenção!

Ana Maria Bahiana abre seus ouvidos para os micromundos dentro do cosmos marviniano

Para ser lido ao som de Marvin Gaye em Midnight Love

Foto: Reprodução

Eu amo o disco Midnight Love. Não deveria dizer isso. O bom crítico, rezam os prolegômenos, é o que pensa junto com o leitor, e não o que emite opinião pessoal.

Mas sabe o que é? De qualquer modo, a gente ia chegar na mesma conclusão. Se eu pudesse realmente guiar os ouvidos de vocês, chamando a atenção para a fina tapeçaria de eletrônica que Marvin Gaye vai tecendo sozinho, faixa após faixa – este disco é do tipo tour de force, ele fez quase tudo solo, solito, mas graças a Deus o negão toca tudo muito bem não é um embromador metido a besta como a maioria que se arvora a esses voos – se eu conseguisse fazer vocês perceberem o nível de tensão dramática que ele consegue criar usando elementos simples, como uma súbita desdobrada do ritmo, uma intervenção da voz num wail quase agudo, sensual, se eu pudesse mesmo fazer vocês perderem o medo (é medo, sabiam? Todo ódio, no fundo, é medo) que vocês ainda têm de um fantasma que não existe chamado discotheque (e que, enquanto existiu, foi tremendamente mal compreendido), e fazer vocês perceberem a riqueza da trama rítmica que ele vai construindo com delicados overlays de percussão sintetizada e bateria, um ritmo em muitos tempos como o amor bem feito, um ritmo sensual de quem sabe usar o corpo e a tecnologia (por que não? Por que não?), se eu conseguisse chamar sua dispersa atenção para os micromundos dentro do cosmos marviniano, os elementos de jazz nas pitadas de improviso que cortam ao meio as colunas de ritmo, a espinha dorsal rhythm and blues que está na voz clamante, sagrado/profana, nas respostas do coro, quer dizer, se  a gente realmente escutasse junto este disco, ia ficar na cara que estou louca por ele.

Será que isso é tão mau assim? Será que vocês conseguiriam gostar dele também? Será que era ruim se vocês conseguissem?

Sei não.

Nenhum pensamento

  1. Por coincidência, re-ouvi esse disco ontem, depois de muito tempo, e basicamente senti tudo que foi relatado acima. Puro suingue eletrônico. Mas façamos justiça a Gordon Banks ( que não é o famoso goleiro inglês), baixo, guitarra e Fender Rhodes, que tocou em todas as faixas e autorou a última.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.